Confira entrevista exclusiva com o Secretário de Saúde de Santa Maria
Com a crescente demanda pelos serviços de atenção psicossocial em Santa Maria, a rede municipal enfrenta o desafio de se reinventar de maneira contínua. Nesta entrevista, o secretário de Saúde da cidade, Guilherme Ribas, analisa os avanços conquistados nos últimos anos, como a criação de novos serviços e a reformulação das equipes, e aponta as dificuldades que ainda persistem, como a defasagem nos repasses estaduais e federais, a sobrecarga dos profissionais e a necessidade de mais estruturas de acolhimento.
Ribas também comenta os planos futuros da gestão municipal, a articulação com outras esferas de governo e o impacto das políticas públicas na saúde mental de crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade. No cargo desde 2020, ele destaca que o cuidado em saúde mental precisa ser contínuo, atento e coletivo: “não é só o serviço que cuida do paciente, é a rede como um todo”.

Guilherme Ribas, secretário de Saúde de Santa Maria, avalia os avanços e os desafios da rede municipal de atenção psicossocial .
Verdadeiramente – O que o senhor considera que melhorou nos últimos anos na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de Santa Maria? E o que ainda precisa de mais atenção e investimento? Essas percepções também aparecem no feedback de servidores e usuários?
Guilherme Ribas – Nos últimos anos, houve um fortalecimento da rede, com melhorias em estruturas físicas, aumento e reformulação de equipes, além de uma reorganização na coordenação da saúde mental, o que permitiu maior diálogo com os trabalhadores e um olhar mais atento ao todo, e não apenas às demandas emergenciais.
Contudo, ainda enfrentamos desafios importantes. Precisamos, com urgência, de uma atualização dos repasses federais e estaduais. O valor que recebemos muitas vezes não cobre o custo real dos serviços, o que sobrecarrega o município. Isso inviabiliza a ampliação de atendimentos.
A saúde mental também exige profissionais com perfil específico. Trabalhar, por exemplo, com o público infantil requer capacitação e vocação. E muitos trabalhadores, mesmo capacitados, se esgotam emocionalmente, o que demanda constante reformulação das equipes.
Recebemos esse tipo de feedback tanto de servidores quanto de usuários. Há serviços mais sobrecarregados que outros, como o CAPS Prado Veppo, que atende um número muito elevado de pacientes. A saúde mental, diferente das unidades básicas, exige avaliações semestrais e reformulações constantes para evitar o desgaste das equipes e manter a qualidade da atenção.
Verdadeiramente – Diante da alta demanda por atendimentos em saúde mental em Santa Maria, o senhor acredita que a atual estrutura da RAPS consegue atender às necessidades da população? Quais são os principais desafios para ampliar e tornar esse atendimento mais eficiente?
Guilherme Ribas – Hoje, a estrutura que temos não é suficiente para dar conta de toda a demanda. Um dos principais desafios é fortalecer o vínculo dos usuários com a atenção primária. Precisamos garantir que as pessoas sejam acompanhadas nos seus territórios, pois muitas não conseguem ir com frequência aos serviços especializados.
Outro ponto é a implantação de um CAPS III, que já cadastramos no novo PAC. Santa Maria tem quase 300 mil habitantes, mas atende uma população ainda maior (diz o Secretário em referência a outros municípios da região que também buscam atendimento em Santa Maria). O CAPS III permitiria ampliar a capacidade de atendimento, com funcionamento 24 horas, o que é fundamental para dar suporte aos casos mais graves, que hoje sobrecarregam a rede de urgência e emergência.
Também estamos investindo na ampliação e no credenciamento de serviços residenciais terapêuticos. Em 2024, implementamos o primeiro residencial voltado ao público feminino, com oito vagas. Queremos que esses serviços sejam acompanhados mais de perto pelos CAPS e ofereçam terapias complementares, além do cuidado institucional.
Verdadeiramente – Há previsão de abertura de um residencial terapêutico misto ou para homens?
Guilherme Ribas – Estamos avaliando o serviço e os credenciamentos realizados até agora para definir os próximos passos.
Gostaríamos de ampliar, sim — inclusive com um serviço masculino ou misto. Mas isso depende de recursos. Por exemplo, o custo de uma vaga no nosso SRT público é de R$12 mil. Já no credenciamento de uma entidade privada, o custo gira em torno de R$6 mil.
O município implementou esse primeiro serviço com recursos próprios. Até o momento, não houve repasse estadual ou federal. Para avançarmos, precisamos garantir que esses recursos venham. Não há como planejar novos serviços sem saber de onde virá o custeio.
Verdadeiramente – Alguns coordenadores e profissionais relatam limitações como escassez de servidores, infraestrutura deficitária e falta de recursos para projetos. Como a secretaria tem lidado com essas demandas? Há alguma iniciativa em andamento para melhorar essas condições?
Guilherme Ribas – Estamos sempre buscando melhorar a estrutura física dos CAPS, que hoje funcionam em imóveis alugados. Quando o espaço não atende mais, buscamos um novo local. Também trabalhamos para garantir materiais permanentes e insumos para atividades diversas, por meio de emendas parlamentares.
O problema é que o processo burocrático é muito demorado. Mesmo quando temos recursos e iniciativas bem estruturadas, tudo leva tempo para chegar na ponta. Isso frustra tanto a gestão quanto os trabalhadores.
Com relação aos servidores, temos um concurso vigente e estamos avaliando, junto à nova coordenação da saúde mental, a redistribuição de profissionais com o perfil adequado. O objetivo é fortalecer a rede de forma estratégica — não apenas substituir vacâncias, mas colocar as pessoas certas nos lugares certos.
Santa Maria tem enfrentado grandes desafios nos últimos anos: pandemia, surtos como o de infecção intestinal, tragédias como o acidente com o ônibus da UFSM. Esses episódios exigem uma rede fortalecida e pronta para responder rapidamente. Temos buscado esse fortalecimento de forma constante.
Verdadeiramente – Quais são as principais metas da gestão municipal para a área da saúde mental nos próximos anos? Há previsão de alguma ampliação de serviços ou implementação de novas políticas?
Guilherme Ribas – As principais metas envolvem o fortalecimento dos recursos humanos e a aproximação entre a saúde mental e a atenção primária. Queremos retomar alguns dispositivos que existiam anteriormente e ampliar o diálogo nos territórios.
O paciente não pode ser visto apenas como responsabilidade de um serviço; ele faz parte de uma rede. Precisamos de uma rede articulada, onde os profissionais dialoguem sobre cada caso, reduzindo a medicalização e as internações recorrentes.
”Nosso objetivo é garantir que cada paciente tenha um plano terapêutico singular bem estruturado, e que a rede funcione de forma integrada para dar conta dessa complexidade” – Guilherme Ribas, secretário de saúde de Santa Maria.
Verdadeiramente – Como as políticas federais e estaduais de saúde impactam a rede de saúde mental de Santa Maria? Como se dá essa articulação em termos de planejamento, financiamento e alinhamento com as diretrizes nacionais?
Guilherme Ribas – Cada novo governo traz mudanças nas políticas públicas, e os municípios precisam se adaptar a essa lógica.
Mas não basta vontade política local, é preciso orçamento. A implementação de qualquer serviço depende de financiamento. Por isso, ao elaborar o plano municipal de saúde ou a programação anual, buscamos alinhar as diretrizes locais com as políticas nacionais, para garantir que os serviços sejam sustentáveis.
Hoje, a contrapartida do município chega a 60 ou 70% do valor de cada serviço. Isso é preocupante. A gestão federal cria as diretrizes e os municípios executam, mas muitas vezes sem recursos suficientes.
A articulação com o CONASEMS (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde) é fundamental para garantir que as políticas estejam próximas da realidade da ponta, porque quem executa é o município, não Brasília.
Precisamos de mais investimento e sincronismo entre os entes federativos, para garantir que a responsabilidade compartilhada não recaia apenas sobre os municípios.
Verdadeiramente – Dentro do orçamento da saúde, qual é a prioridade dada à saúde mental?
Guilherme Ribas – Hoje, a principal prioridade são os recursos humanos. Também estamos trabalhando para garantir recursos destinados aos Serviços Residenciais Terapêuticos e para o fortalecimento das equipes.
Mas é importante dizer que temos outras áreas igualmente prioritárias, como a atenção primária e a urgência e emergência. São quase 900 servidores diretos, fora os indiretos. Por isso, precisamos definir prioridades com muito cuidado.
Uma meta futura é implementar uma equipe de consultório na rua. Essa equipe volante atenderia pessoas em situação de rua que circulam por diferentes pontos da cidade e não têm vínculo com um território específico.
A ideia é identificar as demandas dessa população, encaminhá-las à rede e tentar estabelecer vínculos, seja com um serviço de saúde, com uma família ou com uma moradia.
Esse serviço não seria exclusivo da saúde mental, mas inevitavelmente dialogaria com ela, dada a complexidade dos casos atendidos.
Verdadeiramente – O que a Secretaria de Saúde faz em prol da saúde mental de crianças e adolescentes? Há projetos em parceria com a Secretaria Municipal de Educação?
Guilherme Ribas – Temos o Programa Saúde na Escola, que atua em mais de 80 instituições de ensino. Agora, com as novas diretrizes de saúde, queremos trazer com mais força a temática da saúde mental para dentro das escolas.
Desde a pandemia, observamos muitas crianças e adolescentes com dificuldades de socialização. Muitos não conseguiam mais sair de casa, interagir presencialmente. A tecnologia, embora útil, também gera isolamento.
Por isso, trabalhamos para fortalecer a parceria entre saúde e educação. Queremos promover não só capacitações, mas também qualificações que permitam aos profissionais da educação identificar sinais de sofrimento psíquico e encaminhar adequadamente esses estudantes.
Essa é uma das nossas prioridades. Estamos sempre reavaliando os caminhos da política de saúde mental. Sabemos que os profissionais precisam estar motivados e preparados, porque lidam com questões muito profundas. E se não tiverem apoio, acabam adoecendo também.



