Criada em 2011 pelo Ministério da Saúde, a RAPS organiza, integra e amplia os serviços de saúde mental no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Sua função é promover, prevenir, tratar e reabilitar pessoas com transtornos mentais e com necessidades decorrentes do uso prejudicial de álcool e outras drogas, desde os casos mais leves até os mais graves. Para isso, ela atua seguindo algumas premissas básicas:

    •  O respeito aos direitos das pessoas, garantindo que cada uma possa ser cuidada com dignidade, liberdade e autonomia;
    • O cuidado humanizado, justo, igualitário e aberto para todos que necessitem;
    • O combate ao preconceito e os estigmas que ainda existem em relação a quem enfrenta problemas de saúde mental ou do uso de drogas;
    • A adoção de uma estratégia de Redução de Danos, que busca diminuir os impactos negativos do uso de substâncias sem julgamento, acolhendo e respeitando cada usuário.

A implementação da RAPS representou um avanço importante na consolidação de um novo modelo de atenção psicossocial no Brasil, pautado nos princípios da Reforma Psiquiátrica e na substituição progressiva do sistema hospitalocêntrico, que priorizava os tratamentos psiquiátricos dentro dos hospitais e com internações prolongadas,  por cuidados comunitários e em liberdade.

Estrutura 

A RAPS é composta por uma variedade de serviços oficialmente reconhecidos pelo Ministério da Saúde para atuar no cuidado em saúde mental. Eles incluem unidades básicas (postos de saúde), centros especializados (CAPS e Policlínicas), hospitais com leitos psiquiátricos, serviços de urgência (SAMU e prontos-socorros) entre outros dispositivos que, juntos, formam uma rede articulada e complementar. Esses pontos se organizam em dois grandes níveis de cuidado: a atenção primária e a atenção especializada.

A atenção primária, ou básica, é a que está mais próxima das pessoas no dia a dia. Ela acontece em espaços como as Unidades Básicas de Saúde (UBS), os postos da Estratégia Saúde da Família (ESF), os Consultórios na Rua e as Academias da Saúde. Nesses locais, os profissionais identificam situações de sofrimento psíquico, oferecem apoio inicial e fazem, quando necessário, o encaminhamento para serviços especializados.

Já a atenção especializada é voltada para casos mais graves e complexos. Ela acontece nos CAPS, Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), ambulatórios e policlínicas de saúde mental, unidades de acolhimento, hospitais gerais com leitos psiquiátricos e serviços de urgência como as Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs). Esses pontos oferecem cuidado mais intensivo e contínuo, com equipes multiprofissionais e estrutura para acolher e acompanhar de perto os usuários.

Para facilitar a compreensão, confira na tabela abaixo os principais níveis de assistência da RAPS, seus serviços, funções e público a que cada um se destina:

 

Nível de Atenção Serviços Funções/Objetivos A quem se destina
🟢 Atenção Primária à Saúde (APS) – Unidades Básicas de Saúde (UBS)
– Estratégia Saúde da Família (ESF)
– Consultórios na Rua (CNR)
– Acolhimento inicial
– Promoção e prevenção em saúde mental
– Detecção precoce de casos
– Apoio matricial
– Encaminhamento à rede especializada
Toda a população, com foco em casos leves a moderados e usuários em situação de vulnerabilidade social
🔵 CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) – CAPS I, CAPS II, CAPS III
– CAPS AD e CAPS AD III
– CAPS i (infantil)
– Atendimento especializado e intensivo
– Acolhimento de crise (24h nos CAPS III e AD III)
– Medicação assistida
– Reabilitação psicossocial
Pessoas com transtornos mentais graves e persistentes; usuários de álcool e outras drogas; crianças e adolescentes
🔵 Ambulatórios / Policlínicas de Saúde Mental – Ambulatórios especializados municipais ou estaduais
– Policlínicas regionais
– Atendimento ambulatorial programado
– Diagnóstico, medicação e psicoterapia
– Suporte à APS e à regulação
Casos leves a moderados que não requerem cuidado intensivo; pacientes com transtornos estabilizados
🔵 Urgência e Emergência – SAMU 192
– UPAs 24h
– Prontos-socorros
– CAPS III e AD III (acolhimento 24h)
– Atendimento imediato em crise aguda
– Contenção e estabilização
– Encaminhamento à rede
Pessoas em sofrimento psíquico intenso ou risco à vida
🔵 Atenção Hospitalar – Leitos psiquiátricos em hospitais gerais
– Hospitais psiquiátricos (em substituição progressiva)
– Internações curtas
– Intervenção em crises graves
– Alta programada e reintegração à RAPS
Casos agudos que não podem ser atendidos em outros serviços
🔵 Atenção Residencial Transitória – Unidades de Acolhimento Adulto (UAA) e Infantojuvenil (UAI)
– Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT)
– Acolhimento temporário ou moradia protegida
– Apoio à desinstitucionalização
Usuários em situação de vulnerabilidade social e sem rede de apoio
🔵 Reabilitação Psicossocial – Centros de Convivência e Cultura
– Oficinas terapêuticas
– Projetos de trabalho e renda
– Programa De Volta Para Casa (PVC)
– Inclusão social, cultural e produtiva
– Fortalecimento de vínculos e autonomia
– Estímulo à autonomia
– Reinserção social e comunitária
– Prevenção de reinternações
Pessoas em processo de reinserção social e usuários com histórico de longa permanência em hospitais psiquiátricos

Legenda: 🟢Atenção Primária 🔵 Atenção Especializada

Expansão dos serviços e aumento do investimento público

De acordo com a última edição do relatório Saúde Mental em Dados, publicada em fevereiro de 2024 pelo Ministério da Saúde, há 6.379 pontos de atenção habilitados, espalhados por todas as regiões do país. Esses pontos representam os serviços oficialmente reconhecidos para atuar no cuidado em saúde mental, tanto da atenção básica quanto da especializada.

Do total de dispositivos habilitados, 603 foram criados entre 2023 e 2024, o que representa um crescimento superior a 10% em relação a 2022. Essa evolução também se refletiu no orçamento: a RAPS recebeu um aumento de 35% no investimento público, o que corresponde a um acréscimo de mais de R$ 614 milhões em recursos federais. Além disso, no mesmo período, o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destinou cerca de R$ 437 milhões para a construção de 202 novas unidades de CAPS em 188 municípios.

No Rio Grande do Sul,  conforme o relatório, a rede de atenção à saúde mental se expandiu, com cobertura superior à média nacional. Em dezembro de 2024, o estado contava ao todo com 388 pontos de atenção habilitados, entre os quais 221 CAPS de diferentes tipos, o que resultou em um Indicador de Cobertura de 1,64 CAPS por 100 mil habitantes, superando o índice nacional de 1,13. Dentre os 126 municípios elegíveis para CAPS, 111 (88%) possuíam o serviço habilitado.

Na atenção hospitalar, o território gaúcho registrou 113 Serviços Hospitalares de Referência em Saúde Mental (SHRS), com 621 leitos psiquiátricos, alcançando uma cobertura de 127%, a maior entre os estados com leitos habilitados.

O estado contabilizou ainda 35 Residenciais Terapêuticos com capacidade para acolher 244 moradores, 7 UAs, sendo 4 para adultos e 3 para o público infantojuvenil. Além disso, houve uma redução no número de hospitais psiquiátricos, passando de 6 em 2014 para 5 em 2024, com diminuição também nos leitos SUS nessas instituições, o que representa um passo adiante no processo de desinstitucionalização.

Em Santa Maria, além dos pontos de atenção primária,  a RAPS conta com quatro CAPS, um SRT e duas policlínicas: a Policlínica Acolhe Santa Maria e a Policlínica de Saúde Mental, que também abriga o Ambulatório Transcender. Ainda estão disponíveis 55 leitos psiquiátricos, 30 na Unidade de Saúde Mental do Hospital Universitário (HUSM) e 25 na Unidade Madre Madalena no Hospital Casa de Saúde. 

Já em Pelotas, a rede é composta por oito CAPS, que incluem unidades dos tipos II, Ad III e i, além de dois SRTs, duas UAs, uma adulta e outra infantojuvenil, e um CNR. A rede também integra clínicas especializadas, ambulatórios de saúde mental e leitos psiquiátricos hospitalares, além dos pontos da atenção primária, como as UBS. O município de Rio Grande, por sua vez, contabiliza três CAPS, de tipologia II, ad e i, um SRT, além de policlínicas, ambulatórios especializados e leitos psiquiátricos em hospitais gerais. Ambos os municípios dispõem ainda dos pontos pertencentes à atenção primária, como as UBS e ESFs. 

De acordo com a coordenadora de saúde mental de Santa Maria, Caroline Salvati, a RAPS do município conta com uma equipe multidisciplinar composta por cerca de 65 servidores, com diferentes níveis de formação. Entre os profissionais de nível superior, destacam-se médicos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos, assistentes sociais e professores de diversas áreas, como educação física, educação artística, pedagogia e psicopedagogia. Já os profissionais de nível médio incluem técnicos em saúde mental, agentes redutores de danos e técnicos em enfermagem. 

Ela destaca que a maioria dos servidores já possui qualificação específica, como residência em saúde mental, mas que o município busca de maneira constante estratégias de educação continuada. Segundo a coordenadora, mais do que a formação técnica, o atendimento em saúde mental exige um olhar humanizado. “Não existe eficiência sem acolhimento. A maior parte do trabalho em saúde mental é escuta. Nós só conseguimos algum resultado se a pessoa se sentir acolhida”, afirma. 

Caroline Salvati é a coordenadora de Saúde Mental do município de Santa Maria

Desafios e propostas para o futuro

Apesar dos avanços da RAPS em todo o país, o número de pessoas que buscam apoio em saúde mental pelo SUS cresce a cada ano. De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2022, foram contabilizados 22,7 milhões de atendimentos, número que supera a população total de Minas Gerais, o segundo estado mais populoso do país, de acordo com o último Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2023, o número saltou para 27,9 milhões, um aumento de 23%. Já em 2024, apenas no primeiro semestre, o sistema já registrava 13,9 milhões de atendimentos.

Essa realidade também se reflete em Santa Maria, onde mais de 40 mil atendimentos foram realizados no último ano, número que representa cerca de 14% da população do município, estimada em mais de 282 mil habitantes em 2024. Segundo Caroline, o crescimento da demanda tem relação direta com os efeitos da pandemia de COVID-19. “Depois da pandemia, houve aumento em todos os segmentos, tanto de usuários de substâncias psicoativas quanto de pessoas com transtornos mais leves, como ansiedade, mas principalmente no atendimento infantil. Muitas crianças que nasceram ou cresceram em meio ao isolamento hoje apresentam grandes dificuldades de socialização”, relata. 

O coordenador do CAPS infantil O Equilibrista, Robson Pereira, confirma o fenômeno, e observa que o impacto: “não se resume à pandemia em si, mas aos efeitos colaterais provocados na população como um todo, sendo a infância uma das faixas etárias que mais sofre as consequências, que vão desde o aumento da violência familiar, potencializada pelo confinamento, até quadros depressivos graves, automutilações e comportamentos suicidas”.

 

Robson Pereira é enfermeiro e atua na coordenação do CAPSi – O Equilibrista

A consequência da grande busca por atendimentos é a sobrecarga dos serviços, que não conseguem acompanhar o ritmo da demanda. “É uma pressão imensa, principalmente se considerarmos a população total do município, que é de 280 mil pessoas. O CAPS Prado Veppo, por exemplo, tem um giro mensal de 1.200 pessoas para uma equipe de oito servidores”, analisa Caroline. Ela explica que, embora haja um esforço constante para ampliar e qualificar a estrutura da rede, é preciso que as respostas sejam mais eficientes. 

Esse, inclusive, é um dos maiores desafios enfrentados pelo CAPS ad Companhia do Recomeço, em Santa Maria. Segundo o psicólogo e coordenador do serviço, Douglas Casarotto, a equipe está desfalcada e não contempla nem o número mínimo de profissionais previsto pelo Ministério da Saúde. “Faltam psicólogos, técnicos de nível médio e profissionais de enfermagem, o que compromete o atendimento integral aos usuários”, relata. Além da escassez de pessoal, a estrutura física do espaço também é insuficiente, o que afeta diretamente práticas importantes, como oficinas e outras atividades terapêuticas coletivas.

Douglas Casarotto é psicólogo e coordenador do CAPS Cia do Recomeço em Santa Maria

Na policlínica Santa Maria Acolhe, o problema se repete. De acordo com o psicanalista e coordenador do local, Volnei Dassoler, a partir de 2024 o número mensal de atendimentos praticamente dobrou em comparação a anos anteriores. Contudo, a equipe de profissionais permanece a mesma, o que precariza a qualidade do serviço prestado. “Hoje nós atendemos cerca de 80 a 90 novos pacientes por mês, fora as consultas remotas feitas pelo WhatsApp. Isso dificulta muito a nossa capacidade de resposta, principalmente na ocorrência de eventos extraordinários como desastres”, lamenta.

Volnei Dassoler é o coordenador responsável pela Policlínica Santa Maria Acolhe

Além da falta de pessoal e da estrutura limitada, Caroline aponta também a necessidade de fortalecer a articulação com a atenção primária. Muitas demandas que hoje chegam aos CAPS, como renovação de receitas e atendimentos de escuta inicial, poderiam ser resolvidas nas unidades básicas de saúde, desafogando os serviços de alta complexidade. “Estamos pensando em estratégias de matriciamento e encontros de rede na atenção primária para capacitar e qualificar esses espaços diluindo de forma qualificada essa demanda”, explica.

O secretário municipal de Saúde de Santa Maria, Guilherme Ribas, concorda que existem dificuldades a serem superadas na RAPS de Santa Maria. No entanto, ele salienta que o município vem investindo na melhoria da estrutura física, na ampliação das equipes e no fortalecimento dos vínculos com a atenção primária. “Saúde mental exige renovação contínua. É preciso qualificar os serviços e cuidar também dos trabalhadores para que o atendimento chegue com qualidade a quem precisa”, afirma.

Guilherme Ribas é o Secretário de Saúde de Santa Maria; ele ocupa o cargo desde 2020

Para enfrentar os problemas a gestão pública busca novos investimentos. Segundo Caroline, a cidade foi cadastrada no PAC para a construção de uma nova sede para um futuro CAPS do tipo III, um centro que funcionará 24 horas por dia. A expectativa é que, com a nova estrutura física, os servidores aprovados no concurso público realizado no fim do ano passado sejam convocados para formar a equipe, evitando a sobrecarga dos profissionais que já atuam nos quatro CAPS existentes. Ela também aposta na criação de Centros de Convivência, espaços nos bairros onde os pacientes possam participar de atividades terapêuticas e de convivência social, como uma das metas para aliviar a pressão sobre os serviços especializados.

A coordenadora ressalta que a prefeitura também estuda desenvolver ações voltadas ao cuidado da saúde mental dos próprios trabalhadores, como encontros entre as equipes, momentos de escuta e atividades de formação continuada, a fim de fortalecer o suporte a quem atua diretamente no atendimento. “Cuidar dos profissionais é essencial para lidar com a intensidade da demanda e manter a qualidade do atendimento”,  analisa.

Caroline acrescenta ainda a parceria com as instituições de ensino superior, como um fator fundamental para a renovação dos serviços de saúde mental de Santa Maria: “o auxílio das universidades, através das residências e dos estagiários, ajuda a oxigenar o atendimento e traz muitos efeitos positivos, inclusive na saúde mental dos servidores”, pontua

Para Ribas, o fortalecimento da saúde mental exige compromisso permanente, tanto do município quanto das esferas federal e estadual. Ele avalia que a atualização dos repasses financeiros e a integração entre os serviços são essenciais para garantir a sustentabilidade da rede. “O fortalecimento da saúde mental passa por recursos humanos qualificados, aproximação com a atenção primária e investimento real. É preciso olhar para a saúde mental de forma integrada, sem deixar que o esgotamento dos serviços ou dos profissionais comprometa o atendimento”, conclui.

Confira aqui a entrevista completa com o secretário Guilherme Ribas sobre as políticas públicas de saúde mental para Santa Maria.

Como acessar a RAPS

Reprodução: RADIS/Fiocruz

O acesso aos serviços da RAPS pode ser feito de duas formas: por iniciativa do próprio usuário ou por encaminhamento de outros setores da rede de saúde e áreas interligadas, como a Assistência Social, Educação, Justiça e Segurança Pública. Em geral, a porta de entrada costuma ser a unidade de saúde mais próxima da residência. Nesses locais, os profissionais da atenção primária realizam o acolhimento inicial e, quando necessário, encaminham a pessoa para serviços especializados.

Em casos de urgência, a população pode acionar o SAMU (telefone 192) ou procurar atendimento em UPAs ou prontos-socorros. Serviços como CAPS e algumas policlínicas também podem ser acessados por iniciativa própria do usuário. No entanto, locais como UAs, SRTs e leitos psiquiátricos exigem encaminhamento formal e não funcionam com demanda espontânea.

Os serviços da RAPS são gratuitos e feitos pelo SUS, bastando o usuário apresentar um documento com foto e o Cartão Nacional de Saúde (CNS), quando disponível. Nenhuma pessoa, seja brasileira ou estrangeira, será recusada ou deixada sem atendimento. 

Em Santa Maria, Caroline Salvati explica que o acesso varia conforme o local e o tipo de serviço. Segundo ela, alguns pontos funcionam em formato de “porta aberta”, ou seja, não exigem encaminhamento prévio. É o caso dos CAPS, da Policlínica Acolhe Santa Maria e do Ambulatório Transcender, onde o usuário pode se dirigir diretamente. Nesses espaços, a equipe realiza o acolhimento, avalia a demanda apresentada e faz o direcionamento adequado.

Já na Policlínica de Saúde Mental o fluxo é regulado. Aqui, o usuário precisa primeiro procurar a UBS de sua região, onde será atendido por um clínico geral. Caso haja necessidade de atendimento especializado, o encaminhamento é feito por meio do sistema de regulação da prefeitura.

De acordo com a coordenadora, há um canal de comunicação ativa entre os serviços de urgência e emergência e os demais pontos de atenção do município, a fim de facilitar o acompanhamento e a continuidade do cuidado dos usuários. 

Além dos canais institucionais, como o prontuário eletrônico e o e-mail da coordenação, os profissionais também contam com um grupo de WhatsApp que conecta as equipes. “O grupo funciona como uma ponte rápida de comunicação. Quando um paciente com demanda de saúde mental chega a um serviço de urgência, a equipe pode verificar na hora se ele já está em acompanhamento e qual o melhor serviço para garantir a continuidade do tratamento”, destaca Caroline.

Veja no fluxograma abaixo como acessar os serviços da RAPS conforme cada tipo:

TIPO DE ACESSO TIPO DE SERVIÇO COMO FUNCIONA
Atendimento de urgência

– SAMU (192)

– UPAs

– Prontos-Socorros

– CAPS III e AD III

Em situações emergenciais, o usuário aciona o SAMU ou procura o pronto atendimento. Há integração entre a urgência e os demais pontos da RAPS para assegurar a continuidade do cuidado.
Demanda Espontânea

– UBS

– ESF

– CAPS

– Policlínicas

– Ambulatórios

– CNR

O usuário procura diretamente o serviço, passa por um acolhimento inicial, onde a equipe avalia a demanda e efetua o direcionamento adequado.
Encaminhamento Obrigatório

– Unidades de Acolhimento (UAs)

– Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs)

– Leitos Psiquiátricos

– Algumas Policlínicas, como a Policlínica de Saúde Mental em Santa Maria

Acesso apenas com encaminhamento feito via UBS ou dentro da própria RAPs de um ponto para outro.

 

Onde buscar ajuda especializada

Em Santa Maria*:

SANTA MARIA ACOLHE
Demanda espontânea de usuários a partir de 12 anos sem vinculação prévia com outro serviço especializado da RAPS, em crise emocional aguda e com relação direta e recente com quadros de trauma, luto, covid e ao contexto suicida (entende-se por contexto suicida: ideação, tentativa ou pensamento).
Endereço: Rua Conrado Hoffman, 277
Telefone: (55) 3174-1582 – Horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira das 08h às 12h e das 13h às 17h.

AMBULATÓRIO TRANSCENDER
Referência para população LGBTTQIAPN+, para esclarecimentos, acompanhamento e encaminhamentos no âmbito individual, familiar, social e comunitário.                        Endereço: Rua dos Andradas, 1.397, Centro (entre as ruas Serafim Valandro e Duque de Caxias, anexo à Policlínica de Saúde Mental)
Telefone: (55) 3174-1594 – Horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h.
E-mail: ambulatoriotranscender@gmail.com

CAPS II Prado Veppo
Atende pessoas com transtornos mentais graves
Endereço: Avenida Fernando Ferrari, 1684
Fones: (55)  991542464 – Horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira das 08h às 18h.

CAPS ad II Caminhos do Sol
Atende pessoas com transtornos decorrentes do uso abusivo de álcool e outras drogas
Endereço: Rua Euclides da Cunha, 1695
Fone: (55) 3174-1582 – Horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira das 08h às 18h.

CAPS ad II Cia do Recomeço
Atende pessoas com transtornos decorrentes do uso abusivo de álcool e outras drogas
Endereço: Rua General Neto, 579
Fone: (55) 3174-1582 – Horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira das 08h às 18h.

CAPS i II – O Equilibrista
Atende Crianças e Adolescentes com Transtornos Mentais
Endereço: Rua Conrado Hoffmann, nº 100
Fone: (55) 3174-1582 – Horários de funcionamento: de segunda-feira à sexta-feira das 08h às 18h.

*Informações retiradas do site da prefeitura municipal de Santa Maria.

Em Pelotas:

CAPS II Baronesa
Endereço: Avenida Domingos de Almeida, 1381
Fone: (53) 3272-1030 

CAPS II Castelo
Endereço: Rua Lobo da Costa, 1059
Fone: (53) 3227-6465 

CAPS II Escola
Endereço: Rua Rua Félix da Cunha, 451
Fone: (53) 3229-2923 

CAPS II Fragata
Endereço: Avenida Duque de Caxias, 342
Fone: (53) 3281-1081

CAPS II Porto
Endereço: Rua Alberto Rosa, 450
Fone: (53) 3278-2068

CAPS II Zona Norte
Endereço: Avenida Fernando Osório, 5.615​
Fone: (53) 3273-6301

CAPS ad III (atenção a usuários de álcool e outras drogas, com leitos para acolhimento noturno)
Endereço: Praça José Bonifácio, 1
Fone: (53) 3222-3350

CAPS i Canguru (atendimento infantojuvenil até 18 anos)
Endereço: Rua Andrade Neves, 1.229
Fone: (53) 3222-6290

Em Rio Grande:

CAPS II Conviver
Endereço: Rua Conde De Porto Alegre, 193
Fone: (53) 3232-3258

CAPS ad Rio Grande (atendimento para pacientes com uso abusivo de álcool e drogas)
Endereço: Rua Conde De Porto Alegre, 193
Fone: (53) 3231-7375

CAPS i Serelepe (atendimento infantojuvenil até 18 anos)
Endereço: Marcílio Dias, 636
Fone: (53) 3233-3239

Reportagens sobre o tema:

Painel online apresenta mapeamento dos serviços de saúde mental no RS

Com foco na saúde mental, Santa Maria investe em novos serviços

SMS – Prefeitura investe R$ 1,37 milhão em saúde mental com o primeiro Residencial Terapêutico do Município

Acolhimento e informação: quando buscar ajuda em um serviço de saúde mental de Santa Maria

SUS promoveu quase 14 milhões de atendimentos psicológicos em 2024 | CNN Brasil

RS tem quase cinco vezes mais leitos de saúde mental do que exigido pelo Ministério da Saúde, mas atendimento é precário – Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul

 

Sites:

Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) — Ministério da Saúde

Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)

Saúde Mental em Dados – Edição nº 13 | Fevereiro de 2025

https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-mental

Sus e a Saúde Mental

RAPS e CAPS: O que são e como funcionam no Brasil? – Desinstitute

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Criada para ampliar o acesso à saúde mental no SUS, a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) avança no país, mas enfrenta desafios para atender a crescente demanda por atendimentos.

Após mais de duas décadas de uso abusivo de cocaína e álcool, Lara*, nome fictício de uma usuária que prefere não ser identificada, de 40 anos, chegou ao limite: expulsa de casa pela mãe, sem comida e pedindo dinheiro nas ruas de Santa Maria. “Fui muito bem criada, me formei, fiz pós-graduação, tinha um ótimo salário e, de repente, me vi pedindo esmola para ter o que comer”, conta.

Até que, em um momento de desespero, e com o orgulho deixado para trás, decidiu procurar ajuda no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ad Companhia do Recomeço. “Eu já não estava mais dominando a minha cabeça. Então eu disse para mim mesma que ia encarar isso de frente. Daí eu vim aqui, e o pessoal foi, assim…fantástico…fantástico”, relata, emocionada.

Aquele momento foi uma virada de chave para Lara. Aos poucos ela passou a frequentar as oficinas terapêuticas e a participar dos acolhimentos e encontrou ali não apenas escuta, mas pertencimento. Há 34 dias sem recaídas, ela reflete: “Metade fui eu, metade foi esse lugar. Eles têm pouco, mas fazem milagres. Todo mundo fala muito mal do SUS, mas isso aqui é o SUS. Nossa, Deus do céu, se não fosse o SUS…”.

O caso de Lara, embora duro, não é isolado. Ele representa uma entre tantas histórias que passam, todos os dias, pelos pontos de atenção da RAPS, e mostra como esse serviço tem sido essencial para garantir cuidado e dignidade a milhares de pessoas em sofrimento psíquico no Brasil.

Criada em 2011 pelo Ministério da Saúde, a RAPS organiza, integra e amplia os serviços de saúde mental no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Sua função é promover, prevenir, tratar e reabilitar pessoas com transtornos mentais e com necessidades decorrentes do uso prejudicial de álcool e outras drogas, desde os casos mais leves até os mais graves. Para isso, ela atua seguindo algumas premissas básicas:

    •  O respeito aos direitos das pessoas, garantindo que cada uma possa ser cuidada com dignidade, liberdade e autonomia;
    • O cuidado humanizado, justo, igualitário e aberto para todos que necessitem;
    • O combate ao preconceito e os estigmas que ainda existem em relação a quem enfrenta problemas de saúde mental ou do uso de drogas;
    • A adoção de uma estratégia de Redução de Danos, que busca diminuir os impactos negativos do uso de substâncias sem julgamento, acolhendo e respeitando cada usuário.

A implementação da RAPS representou um avanço importante na consolidação de um novo modelo de atenção psicossocial no Brasil, pautado nos princípios da Reforma Psiquiátrica e na substituição progressiva do sistema hospitalocêntrico, que priorizava os tratamentos psiquiátricos dentro dos hospitais e com internações prolongadas,  por cuidados comunitários e em liberdade.

Estrutura 

A RAPS é composta por uma variedade de serviços oficialmente reconhecidos pelo Ministério da Saúde para atuar no cuidado em saúde mental. Eles incluem unidades básicas (postos de saúde), centros especializados (CAPS e Policlínicas), hospitais com leitos psiquiátricos, serviços de urgência (SAMU e prontos-socorros) entre outros dispositivos que, juntos, formam uma rede articulada e complementar. Esses pontos se organizam em dois grandes níveis de cuidado: a atenção primária e a atenção especializada.

A atenção primária, ou básica, é a que está mais próxima das pessoas no dia a dia. Ela acontece em espaços como as Unidades Básicas de Saúde (UBS), os postos da Estratégia Saúde da Família (ESF), os Consultórios na Rua e as Academias da Saúde. Nesses locais, os profissionais identificam situações de sofrimento psíquico, oferecem apoio inicial e fazem, quando necessário, o encaminhamento para serviços especializados.

Já a atenção especializada é voltada para casos mais graves e complexos. Ela acontece nos CAPS, Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), ambulatórios e policlínicas de saúde mental, unidades de acolhimento, hospitais gerais com leitos psiquiátricos e serviços de urgência como as Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs). Esses pontos oferecem cuidado mais intensivo e contínuo, com equipes multiprofissionais e estrutura para acolher e acompanhar de perto os usuários.

Para facilitar a compreensão, confira na tabela abaixo os principais níveis de assistência da RAPS, seus serviços, funções e público a que cada um se destina:

 

Nível de Atenção Serviços Funções/Objetivos A quem se destina
🟢 Atenção Primária à Saúde (APS) – Unidades Básicas de Saúde (UBS)
– Estratégia Saúde da Família (ESF)
– Consultórios na Rua (CNR)
– Acolhimento inicial
– Promoção e prevenção em saúde mental
– Detecção precoce de casos
– Apoio matricial
– Encaminhamento à rede especializada
Toda a população, com foco em casos leves a moderados e usuários em situação de vulnerabilidade social
🔵 CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) – CAPS I, CAPS II, CAPS III
– CAPS AD e CAPS AD III
– CAPS i (infantil)
– Atendimento especializado e intensivo
– Acolhimento de crise (24h nos CAPS III e AD III)
– Medicação assistida
– Reabilitação psicossocial
Pessoas com transtornos mentais graves e persistentes; usuários de álcool e outras drogas; crianças e adolescentes
🔵 Ambulatórios / Policlínicas de Saúde Mental – Ambulatórios especializados municipais ou estaduais
– Policlínicas regionais
– Atendimento ambulatorial programado
– Diagnóstico, medicação e psicoterapia
– Suporte à APS e à regulação
Casos leves a moderados que não requerem cuidado intensivo; pacientes com transtornos estabilizados
🔵 Urgência e Emergência – SAMU 192
– UPAs 24h
– Prontos-socorros
– CAPS III e AD III (acolhimento 24h)
– Atendimento imediato em crise aguda
– Contenção e estabilização
– Encaminhamento à rede
Pessoas em sofrimento psíquico intenso ou risco à vida
🔵 Atenção Hospitalar – Leitos psiquiátricos em hospitais gerais
– Hospitais psiquiátricos (em substituição progressiva)
– Internações curtas
– Intervenção em crises graves
– Alta programada e reintegração à RAPS
Casos agudos que não podem ser atendidos em outros serviços
🔵 Atenção Residencial Transitória – Unidades de Acolhimento Adulto (UAA) e Infantojuvenil (UAI)
– Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT)
– Acolhimento temporário ou moradia protegida
– Apoio à desinstitucionalização
Usuários em situação de vulnerabilidade social e sem rede de apoio
🔵 Reabilitação Psicossocial – Centros de Convivência e Cultura
– Oficinas terapêuticas
– Projetos de trabalho e renda
– Programa De Volta Para Casa (PVC)
– Inclusão social, cultural e produtiva
– Fortalecimento de vínculos e autonomia
– Estímulo à autonomia
– Reinserção social e comunitária
– Prevenção de reinternações
Pessoas em processo de reinserção social e usuários com histórico de longa permanência em hospitais psiquiátricos

Legenda: 🟢Atenção Primária 🔵 Atenção Especializada

Expansão dos serviços e aumento do investimento público

De acordo com a última edição do relatório Saúde Mental em Dados, publicada em fevereiro de 2024 pelo Ministério da Saúde, há 6.379 pontos de atenção habilitados, espalhados por todas as regiões do país. Esses pontos representam os serviços oficialmente reconhecidos para atuar no cuidado em saúde mental, tanto da atenção básica quanto da especializada.

Do total de dispositivos habilitados, 603 foram criados entre 2023 e 2024, o que representa um crescimento superior a 10% em relação a 2022. Essa evolução também se refletiu no orçamento: a RAPS recebeu um aumento de 35% no investimento público, o que corresponde a um acréscimo de mais de R$ 614 milhões em recursos federais. Além disso, no mesmo período, o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destinou cerca de R$ 437 milhões para a construção de 202 novas unidades de CAPS em 188 municípios.

No Rio Grande do Sul,  conforme o relatório, a rede de atenção à saúde mental se expandiu, com cobertura superior à média nacional. Em dezembro de 2024, o estado contava ao todo com 388 pontos de atenção habilitados, entre os quais 221 CAPS de diferentes tipos, o que resultou em um Indicador de Cobertura de 1,64 CAPS por 100 mil habitantes, superando o índice nacional de 1,13. Dentre os 126 municípios elegíveis para CAPS, 111 (88%) possuíam o serviço habilitado.

Na atenção hospitalar, o território gaúcho registrou 113 Serviços Hospitalares de Referência em Saúde Mental (SHRS), com 621 leitos psiquiátricos, alcançando uma cobertura de 127%, a maior entre os estados com leitos habilitados.

O estado contabilizou ainda 35 Residenciais Terapêuticos com capacidade para acolher 244 moradores, 7 UAs, sendo 4 para adultos e 3 para o público infantojuvenil. Além disso, houve uma redução no número de hospitais psiquiátricos, passando de 6 em 2014 para 5 em 2024, com diminuição também nos leitos SUS nessas instituições, o que representa um passo adiante no processo de desinstitucionalização.

Em Santa Maria, além dos pontos de atenção primária,  a RAPS conta com quatro CAPS, um SRT e duas policlínicas: a Policlínica Acolhe Santa Maria e a Policlínica de Saúde Mental, que também abriga o Ambulatório Transcender. Ainda estão disponíveis 55 leitos psiquiátricos, 30 na Unidade de Saúde Mental do Hospital Universitário (HUSM) e 25 na Unidade Madre Madalena no Hospital Casa de Saúde. 

Já em Pelotas, a rede é composta por oito CAPS, que incluem unidades dos tipos II, Ad III e i, além de dois SRTs, duas UAs, uma adulta e outra infantojuvenil, e um CNR. A rede também integra clínicas especializadas, ambulatórios de saúde mental e leitos psiquiátricos hospitalares, além dos pontos da atenção primária, como as UBS. O município de Rio Grande, por sua vez, contabiliza três CAPS, de tipologia II, ad e i, um SRT, além de policlínicas, ambulatórios especializados e leitos psiquiátricos em hospitais gerais. Ambos os municípios dispõem ainda dos pontos pertencentes à atenção primária, como as UBS e ESFs. 

De acordo com a coordenadora de saúde mental de Santa Maria, Caroline Salvati, a RAPS do município conta com uma equipe multidisciplinar composta por cerca de 65 servidores, com diferentes níveis de formação. Entre os profissionais de nível superior, destacam-se médicos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos, assistentes sociais e professores de diversas áreas, como educação física, educação artística, pedagogia e psicopedagogia. Já os profissionais de nível médio incluem técnicos em saúde mental, agentes redutores de danos e técnicos em enfermagem. 

Ela destaca que a maioria dos servidores já possui qualificação específica, como residência em saúde mental, mas que o município busca de maneira constante estratégias de educação continuada. Segundo a coordenadora, mais do que a formação técnica, o atendimento em saúde mental exige um olhar humanizado. “Não existe eficiência sem acolhimento. A maior parte do trabalho em saúde mental é escuta. Nós só conseguimos algum resultado se a pessoa se sentir acolhida”, afirma. 

Caroline Salvati é a coordenadora de Saúde Mental do município de Santa Maria

Desafios e propostas para o futuro

Apesar dos avanços da RAPS em todo o país, o número de pessoas que buscam apoio em saúde mental pelo SUS cresce a cada ano. De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2022, foram contabilizados 22,7 milhões de atendimentos, número que supera a população total de Minas Gerais, o segundo estado mais populoso do país, de acordo com o último Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2023, o número saltou para 27,9 milhões, um aumento de 23%. Já em 2024, apenas no primeiro semestre, o sistema já registrava 13,9 milhões de atendimentos.

Essa realidade também se reflete em Santa Maria, onde mais de 40 mil atendimentos foram realizados no último ano, número que representa cerca de 14% da população do município, estimada em mais de 282 mil habitantes em 2024. Segundo Caroline, o crescimento da demanda tem relação direta com os efeitos da pandemia de COVID-19. “Depois da pandemia, houve aumento em todos os segmentos, tanto de usuários de substâncias psicoativas quanto de pessoas com transtornos mais leves, como ansiedade, mas principalmente no atendimento infantil. Muitas crianças que nasceram ou cresceram em meio ao isolamento hoje apresentam grandes dificuldades de socialização”, relata. 

O coordenador do CAPS infantil O Equilibrista, Robson Pereira, confirma o fenômeno, e observa que o impacto: “não se resume à pandemia em si, mas aos efeitos colaterais provocados na população como um todo, sendo a infância uma das faixas etárias que mais sofre as consequências, que vão desde o aumento da violência familiar, potencializada pelo confinamento, até quadros depressivos graves, automutilações e comportamentos suicidas”.

 

Robson Pereira é enfermeiro e atua na coordenação do CAPSi – O Equilibrista

A consequência da grande busca por atendimentos é a sobrecarga dos serviços, que não conseguem acompanhar o ritmo da demanda. “É uma pressão imensa, principalmente se considerarmos a população total do município, que é de 280 mil pessoas. O CAPS Prado Veppo, por exemplo, tem um giro mensal de 1.200 pessoas para uma equipe de oito servidores”, analisa Caroline. Ela explica que, embora haja um esforço constante para ampliar e qualificar a estrutura da rede, é preciso que as respostas sejam mais eficientes. 

Esse, inclusive, é um dos maiores desafios enfrentados pelo CAPS ad Companhia do Recomeço, em Santa Maria. Segundo o psicólogo e coordenador do serviço, Douglas Casarotto, a equipe está desfalcada e não contempla nem o número mínimo de profissionais previsto pelo Ministério da Saúde. “Faltam psicólogos, técnicos de nível médio e profissionais de enfermagem, o que compromete o atendimento integral aos usuários”, relata. Além da escassez de pessoal, a estrutura física do espaço também é insuficiente, o que afeta diretamente práticas importantes, como oficinas e outras atividades terapêuticas coletivas.

Douglas Casarotto é psicólogo e coordenador do CAPS Cia do Recomeço em Santa Maria

Na policlínica Santa Maria Acolhe, o problema se repete. De acordo com o psicanalista e coordenador do local, Volnei Dassoler, a partir de 2024 o número mensal de atendimentos praticamente dobrou em comparação a anos anteriores. Contudo, a equipe de profissionais permanece a mesma, o que precariza a qualidade do serviço prestado. “Hoje nós atendemos cerca de 80 a 90 novos pacientes por mês, fora as consultas remotas feitas pelo WhatsApp. Isso dificulta muito a nossa capacidade de resposta, principalmente na ocorrência de eventos extraordinários como desastres”, lamenta.

Volnei Dassoler é o coordenador responsável pela Policlínica Santa Maria Acolhe

Além da falta de pessoal e da estrutura limitada, Caroline aponta também a necessidade de fortalecer a articulação com a atenção primária. Muitas demandas que hoje chegam aos CAPS, como renovação de receitas e atendimentos de escuta inicial, poderiam ser resolvidas nas unidades básicas de saúde, desafogando os serviços de alta complexidade. “Estamos pensando em estratégias de matriciamento e encontros de rede na atenção primária para capacitar e qualificar esses espaços diluindo de forma qualificada essa demanda”, explica.

O secretário municipal de Saúde de Santa Maria, Guilherme Ribas, concorda que existem dificuldades a serem superadas na RAPS de Santa Maria. No entanto, ele salienta que o município vem investindo na melhoria da estrutura física, na ampliação das equipes e no fortalecimento dos vínculos com a atenção primária. “Saúde mental exige renovação contínua. É preciso qualificar os serviços e cuidar também dos trabalhadores para que o atendimento chegue com qualidade a quem precisa”, afirma.

Guilherme Ribas é o Secretário de Saúde de Santa Maria; ele ocupa o cargo desde 2020

Para enfrentar os problemas a gestão pública busca novos investimentos. Segundo Caroline, a cidade foi cadastrada no PAC para a construção de uma nova sede para um futuro CAPS do tipo III, um centro que funcionará 24 horas por dia. A expectativa é que, com a nova estrutura física, os servidores aprovados no concurso público realizado no fim do ano passado sejam convocados para formar a equipe, evitando a sobrecarga dos profissionais que já atuam nos quatro CAPS existentes. Ela também aposta na criação de Centros de Convivência, espaços nos bairros onde os pacientes possam participar de atividades terapêuticas e de convivência social, como uma das metas para aliviar a pressão sobre os serviços especializados.

A coordenadora ressalta que a prefeitura também estuda desenvolver ações voltadas ao cuidado da saúde mental dos próprios trabalhadores, como encontros entre as equipes, momentos de escuta e atividades de formação continuada, a fim de fortalecer o suporte a quem atua diretamente no atendimento. “Cuidar dos profissionais é essencial para lidar com a intensidade da demanda e manter a qualidade do atendimento”,  analisa.

Caroline acrescenta ainda a parceria com as instituições de ensino superior, como um fator fundamental para a renovação dos serviços de saúde mental de Santa Maria: “o auxílio das universidades, através das residências e dos estagiários, ajuda a oxigenar o atendimento e traz muitos efeitos positivos, inclusive na saúde mental dos servidores”, pontua

Para Ribas, o fortalecimento da saúde mental exige compromisso permanente, tanto do município quanto das esferas federal e estadual. Ele avalia que a atualização dos repasses financeiros e a integração entre os serviços são essenciais para garantir a sustentabilidade da rede. “O fortalecimento da saúde mental passa por recursos humanos qualificados, aproximação com a atenção primária e investimento real. É preciso olhar para a saúde mental de forma integrada, sem deixar que o esgotamento dos serviços ou dos profissionais comprometa o atendimento”, conclui.

Confira aqui a entrevista completa com o secretário Guilherme Ribas sobre as políticas públicas de saúde mental para Santa Maria.

Como acessar a RAPS

Reprodução: RADIS/Fiocruz

O acesso aos serviços da RAPS pode ser feito de duas formas: por iniciativa do próprio usuário ou por encaminhamento de outros setores da rede de saúde e áreas interligadas, como a Assistência Social, Educação, Justiça e Segurança Pública. Em geral, a porta de entrada costuma ser a unidade de saúde mais próxima da residência. Nesses locais, os profissionais da atenção primária realizam o acolhimento inicial e, quando necessário, encaminham a pessoa para serviços especializados.

Em casos de urgência, a população pode acionar o SAMU (telefone 192) ou procurar atendimento em UPAs ou prontos-socorros. Serviços como CAPS e algumas policlínicas também podem ser acessados por iniciativa própria do usuário. No entanto, locais como UAs, SRTs e leitos psiquiátricos exigem encaminhamento formal e não funcionam com demanda espontânea.

Os serviços da RAPS são gratuitos e feitos pelo SUS, bastando o usuário apresentar um documento com foto e o Cartão Nacional de Saúde (CNS), quando disponível. Nenhuma pessoa, seja brasileira ou estrangeira, será recusada ou deixada sem atendimento. 

Em Santa Maria, Caroline Salvati explica que o acesso varia conforme o local e o tipo de serviço. Segundo ela, alguns pontos funcionam em formato de “porta aberta”, ou seja, não exigem encaminhamento prévio. É o caso dos CAPS, da Policlínica Acolhe Santa Maria e do Ambulatório Transcender, onde o usuário pode se dirigir diretamente. Nesses espaços, a equipe realiza o acolhimento, avalia a demanda apresentada e faz o direcionamento adequado.

Já na Policlínica de Saúde Mental o fluxo é regulado. Aqui, o usuário precisa primeiro procurar a UBS de sua região, onde será atendido por um clínico geral. Caso haja necessidade de atendimento especializado, o encaminhamento é feito por meio do sistema de regulação da prefeitura.

De acordo com a coordenadora, há um canal de comunicação ativa entre os serviços de urgência e emergência e os demais pontos de atenção do município, a fim de facilitar o acompanhamento e a continuidade do cuidado dos usuários. 

Além dos canais institucionais, como o prontuário eletrônico e o e-mail da coordenação, os profissionais também contam com um grupo de WhatsApp que conecta as equipes. “O grupo funciona como uma ponte rápida de comunicação. Quando um paciente com demanda de saúde mental chega a um serviço de urgência, a equipe pode verificar na hora se ele já está em acompanhamento e qual o melhor serviço para garantir a continuidade do tratamento”, destaca Caroline.

Veja no fluxograma abaixo como acessar os serviços da RAPS conforme cada tipo:

TIPO DE ACESSO TIPO DE SERVIÇO COMO FUNCIONA
Atendimento de urgência

– SAMU (192)

– UPAs

– Prontos-Socorros

– CAPS III e AD III

Em situações emergenciais, o usuário aciona o SAMU ou procura o pronto atendimento. Há integração entre a urgência e os demais pontos da RAPS para assegurar a continuidade do cuidado.
Demanda Espontânea

– UBS

– ESF

– CAPS

– Policlínicas

– Ambulatórios

– CNR

O usuário procura diretamente o serviço, passa por um acolhimento inicial, onde a equipe avalia a demanda e efetua o direcionamento adequado.
Encaminhamento Obrigatório

– Unidades de Acolhimento (UAs)

– Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs)

– Leitos Psiquiátricos

– Algumas Policlínicas, como a Policlínica de Saúde Mental em Santa Maria

Acesso apenas com encaminhamento feito via UBS ou dentro da própria RAPs de um ponto para outro.

 

Onde buscar ajuda especializada

Em Santa Maria*:

SANTA MARIA ACOLHE
Demanda espontânea de usuários a partir de 12 anos sem vinculação prévia com outro serviço especializado da RAPS, em crise emocional aguda e com relação direta e recente com quadros de trauma, luto, covid e ao contexto suicida (entende-se por contexto suicida: ideação, tentativa ou pensamento).
Endereço: Rua Conrado Hoffman, 277
Telefone: (55) 3174-1582 – Horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira das 08h às 12h e das 13h às 17h.

AMBULATÓRIO TRANSCENDER
Referência para população LGBTTQIAPN+, para esclarecimentos, acompanhamento e encaminhamentos no âmbito individual, familiar, social e comunitário.                        Endereço: Rua dos Andradas, 1.397, Centro (entre as ruas Serafim Valandro e Duque de Caxias, anexo à Policlínica de Saúde Mental)
Telefone: (55) 3174-1594 – Horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h.
E-mail: ambulatoriotranscender@gmail.com

CAPS II Prado Veppo
Atende pessoas com transtornos mentais graves
Endereço: Avenida Fernando Ferrari, 1684
Fones: (55)  991542464 – Horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira das 08h às 18h.

CAPS ad II Caminhos do Sol
Atende pessoas com transtornos decorrentes do uso abusivo de álcool e outras drogas
Endereço: Rua Euclides da Cunha, 1695
Fone: (55) 3174-1582 – Horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira das 08h às 18h.

CAPS ad II Cia do Recomeço
Atende pessoas com transtornos decorrentes do uso abusivo de álcool e outras drogas
Endereço: Rua General Neto, 579
Fone: (55) 3174-1582 – Horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira das 08h às 18h.

CAPS i II – O Equilibrista
Atende Crianças e Adolescentes com Transtornos Mentais
Endereço: Rua Conrado Hoffmann, nº 100
Fone: (55) 3174-1582 – Horários de funcionamento: de segunda-feira à sexta-feira das 08h às 18h.

*Informações retiradas do site da prefeitura municipal de Santa Maria.

Em Pelotas:

CAPS II Baronesa
Endereço: Avenida Domingos de Almeida, 1381
Fone: (53) 3272-1030 

CAPS II Castelo
Endereço: Rua Lobo da Costa, 1059
Fone: (53) 3227-6465 

CAPS II Escola
Endereço: Rua Rua Félix da Cunha, 451
Fone: (53) 3229-2923 

CAPS II Fragata
Endereço: Avenida Duque de Caxias, 342
Fone: (53) 3281-1081

CAPS II Porto
Endereço: Rua Alberto Rosa, 450
Fone: (53) 3278-2068

CAPS II Zona Norte
Endereço: Avenida Fernando Osório, 5.615​
Fone: (53) 3273-6301

CAPS ad III (atenção a usuários de álcool e outras drogas, com leitos para acolhimento noturno)
Endereço: Praça José Bonifácio, 1
Fone: (53) 3222-3350

CAPS i Canguru (atendimento infantojuvenil até 18 anos)
Endereço: Rua Andrade Neves, 1.229
Fone: (53) 3222-6290

Em Rio Grande:

CAPS II Conviver
Endereço: Rua Conde De Porto Alegre, 193
Fone: (53) 3232-3258

CAPS ad Rio Grande (atendimento para pacientes com uso abusivo de álcool e drogas)
Endereço: Rua Conde De Porto Alegre, 193
Fone: (53) 3231-7375

CAPS i Serelepe (atendimento infantojuvenil até 18 anos)
Endereço: Marcílio Dias, 636
Fone: (53) 3233-3239

Reportagens sobre o tema:

Painel online apresenta mapeamento dos serviços de saúde mental no RS

Com foco na saúde mental, Santa Maria investe em novos serviços

SMS – Prefeitura investe R$ 1,37 milhão em saúde mental com o primeiro Residencial Terapêutico do Município

Acolhimento e informação: quando buscar ajuda em um serviço de saúde mental de Santa Maria

SUS promoveu quase 14 milhões de atendimentos psicológicos em 2024 | CNN Brasil

RS tem quase cinco vezes mais leitos de saúde mental do que exigido pelo Ministério da Saúde, mas atendimento é precário – Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul

 

Sites:

Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) — Ministério da Saúde

Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)

Saúde Mental em Dados – Edição nº 13 | Fevereiro de 2025

https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-mental

Sus e a Saúde Mental

RAPS e CAPS: O que são e como funcionam no Brasil? – Desinstitute

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