A transformação do cuidado com a saúde mental em Santa Maria – RS
O trem da exclusão
Em outra época, a estação ferroviária de Santa Maria, tão cheia de idas e vindas, também era cenário de despedidas silenciosas – partidas sem volta para muitos que viviam com o sofrimento psíquico. Até a metade do século XX, a cidade não contava com serviços especializados em saúde mental. Nesse período, pessoas em crise psiquiátrica eram recolhidas pela Brigada Militar e mantidas em celas, na própria estação, até a chegada da chamada “Máquina Mão-Pelada” – um trem que os conduzia à capital, Porto Alegre. O vagão, conhecido como “Carro 18” ou “Carro dos Loucos”, encaminhava essas pessoas para o isolamento social. Algo semelhante ao que faziam com pessoas que eram mandadas para o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena – o Hospital Colônia, como contado pela jornalista Daniela Arbex no seu livro “Holocausto Brasileiro”, que insipirou o documentário homônimo.
Primeiros passos para o cuidado
Esse cenário começou a mudar na década de 1950. Conforme registrado no Álbum de Memórias do HUSM, foi nessa época que Santa Maria começou a dar os primeiros passos em direção ao cuidado com a saúde mental, com a vinda do neuropsiquiatra Oscar Schelp e do psiquiatra Denizard Souza. Vindos da capital gaúcha, os profissionais vieram para atuar na recém inaugurada Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A partir daí os pacientes passaram a ser internados na Unidade Clínica do Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo (HCAA).
Em 1970, a clínica Professor Paulo Guedes abriu suas portas e ofereceu, pela primeira vez, internações psiquiátricas em Santa Maria, mesmo que apenas particulares. O funcionamento da clínica, no entanto, durou apenas três ou quatro anos.
O Hospital Psiquiátrico
Longe do centro da cidade, o Hospital Psiquiátrico de Santa Maria foi inaugurado em maio de 1974, com 20 leitos, para atender à comunidade por meio de internações. A estrutura foi a primeira instituição hospitalar a funcionar dentro do campus da UFSM – antes mesmo da realocação do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) – e a primeira instalada em um campus universitário na América Latina.

Hospital Psiquiátrico da Santa Maria, no Campus da UFSM. | Fonte: Departamento de Arquivo Geral da UFSM – fotógrafo não identificado
Embora tenha funcionado por dois anos como uma instituição independente, logo foi incorporado ao HUSM, que mais tarde se consolidaria como referência em diversas áreas da saúde. Hoje, o local é oficialmente conhecido como Unidade de Saúde Mental (USME).
Enfermeira de formação e atual recreacionista na unidade, Maria Ester Vidal Maffioletti vivenciou de perto as transformações provocadas pela implementação da Reforma Psiquiátrica.
Funcionária desde 1980 na, hoje, USME, ela relembra como era a rotina antes das mudanças. “A enfermagem naquela época, além das coisas de enfermagem, também fazia atividades com os pacientes. A gente tinha oficinas de praxiterapia, de horta e jardim, carpintaria, recreação e cultura – que era um setor de jogos e também com atividades culturais, como Dia do Gaúcho, Dia das Mães, essas coisas. A gente sempre fazia algo para inserir o paciente”.
Segundo Maria Ester, o hospital psiquiátrico nunca adotou o modelo manicomial, ou seja, nunca teve como proposta manter pacientes internados por tempo indeterminado. Ao contrário, desde o antigo hospital, os internos eram incentivados a participar de oficinas terapêuticas disponíveis durante o período de internação.“A gente chaveava os quartos para eles não ficarem dormindo, porque tinham que fazer alguma atividade. E todos eles participavam. Mesmo aqueles que não podiam por algum motivo – ou porque estavam agitados, ou por outras razões – ficavam na unidade, mas não ficavam dormindo. Isso meio que obrigava, entre aspas, o paciente a fazer algo”.

Pacientes da unidade psiquiátrica realizando atividades nas hortas, em 1980, no pátio externo da Unidade de Saúde Mental | Fonte: Departamento de Arquivo Geral da UFSM – fotógrafo não identificado
A recreacionista também destacou que, durante muitos anos, a unidade contou com recursos específicos para viabilizar as atividades terapêuticas desenvolvidas com os pacientes.“Naquela época, a gente tinha um suplemento de fundo da universidade que podia ser usado para comprar material para essas atividades. Hoje em dia já não tem mais. E a gente comprava bola de pingue-pongue, linha, lã, agulha, cartolina, lápis de cor… essas coisas do dia a dia.” Segundo ela, esses investimentos foram fundamentais para garantir o atendimento mais humanizado e antimanicomial – algo que, com o tempo, foi se perdendo. “No meu entendimento, a gente acabou desconstruindo uma coisa que já estava pronta.”
Além das atividades realizadas dentro do perímetro hospitalar, Maria Ester relembra com carinho os passeios organizados pelo setor de recreação e cultura – práticas que, segundo ela, faziam parte do cuidado ampliado e que hoje são inexistentes. “A Sócio (setor de recreação e cultura) também promovia passeios. A gente ia na Coca-Cola, ia na Base Aérea, na Cidade dos Meninos, fazia piquenique… Muitas vezes a gente ia nesses balneários como o Três Barras e passava o dia inteiro lá… Os passeios eram sempre autorizados pelo médico, tudo era avaliado em equipe e programado com antecedência pra dar certo”.
Também relembra o protagonismo que os próprios pacientes, que se organizavam em grupos operativos, onde discutiam o planejamento das atividades terapêuticas semanais. Segundo ela, havia um esforço constante da equipe para estimular a autonomia e resgatar a parte saudável de cada um, respeitando seus limites e capacidades.
“Era tudo pensado para eles participarem de verdade. Claro que a gente fazia a mediação, porque às vezes surgia algo que não dava pra fazer. Mas, dentro do possível, a gente trabalhava com a parte saudável do paciente. Porque o paciente psiquiátrico não é só o transtorno. As pessoas pensam que ele tá sempre doente, fora da realidade, mas não é assim. Ele tem uma parte saudável — e era isso que a gente buscava nas atividades: resgatar essa parte que tá bem, que pode decidir”.

Pacientes reunidos em grupos operativos para soluções coletivas para os desafios da unidade | Fonte: Departamento de Arquivo Geral da UFSM – fotógrafo não identificado
Com o tempo, essas ações e os apoios financeiros começaram a ser cortados aos poucos. “Um espaço aqui, outro ali… Fomos perdendo. Essas oficinas foram diminuindo… até terminarem”, lamenta Maria. Atualmente, algumas atividades seguem em andamento, como meditação, cinoterapia, café com música e atividade física, organizadas pela equipe multiprofissional e distribuídas ao longo da semana.

Quadro de horário das atividades semanais da USME |Foto: Maria Eduarda Baldin
Em meio a paredes brancas da unidade, um grande mural colorido chama a atenção: uma arara azul, pintada com traços vivos, torna-se destaque no espaço. A arte foi feita por alunos do Centro de Artes e Letras (CAL). Ao redor da ave, folhas e flores tropicais complementam a pintura, trazendo mais vida e cor para o ambiente. A USME também mantém espaços de convivência, como uma pequena biblioteca, jogos e materiais para colorir, que ajudam a tornar o tempo de internação dos pacientes menos monótono.
Para Maria Ester, uma das principais melhorias após a Reforma Psiquiátrica foi o aumento no número de profissionais atuando na unidade. Ela acredita que a presença de uma equipe multiprofissional contribui significativamente para o atendimento das demandas dos pacientes. Ainda assim, lamenta a perda de autonomia dos usuários com suas próprias rotinas.
Como funciona a internação hoje
A USME funciona vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado segue os preceitos do artigo 4º da lei 10.216, que determina que a internação só deve ocorrer quando os recursos extra hospitalares forem insuficientes para garantir a segurança e o bem-estar da pessoa. Isso significa que o acolhimento em leito hospitalar é reservado apenas em situações graves, em que há risco para si ou para os outros – e sempre com o objetivo de ser o mais breve possível.
Os encaminhamentos para a USME acontecem por meio do Sistema de Gerenciamento de Interações (GERINT), a partir da avaliação clínica e psiquiátrica de pacientes da rede municipal de saúde mental e da área abrangida pela 4ª Coordenadoria Regional de Saúde que estejam em sofrimento psíquico agudo. A internação deve ser acompanhada por um familiar responsável, e já na admissão a equipe médica realiza uma escuta atenta, define os primeiros cuidados, solicita exames e verifica os critérios diagnósticos.
Algumas condições, como transtorno de personalidade antissocial ou dependência química de substâncias, não são contempladas pela estrutura da USME por questões de segurança e convivência com outros pacientes em situação de vulnerabilidade. Ainda assim, cada caso é avaliado com atenção, e o serviço mantém um olhar comprometido com a segurança de quem precisa de cuidado. Para internações voluntárias, é necessário o preenchimento de um termo de consentimento assinado pelo próprio paciente.
Segundo a chefe da USME, Taiane Klein dos Santos, a unidade costuma ter entre 25 a 30 pacientes internados. “O tempo de internação depende de cada caso; existem variáveis determinantes, como a estabilização dos sintomas e das medicações”, explica Taiane.
Hospital Dia e o Clubinho
O pátio onde anteriormente eram realizadas as oficinas terapêuticas ainda existe e hoje está anexo ao Hospital Dia, unidade destinada ao cuidado intermediário entre a internação e o atendimento ambulatorial. O Hospital Dia oferece procedimentos clínicos, terapêuticos e diagnósticos que requerem permanência de até 12 horas. Em dezembro de 2024 foi instituído no HUSM o Hospital Dia de Saúde Mental, que propõe a desinstitucionalização do cuidado ao investir em práticas que favorecem a autonomia e o vínculo comunitário com os pacientes, algo que vai de encontro ao que foi proposto pela Reforma Psiquiátrica.
Como parte desse processo de transformação no cuidado com a saúde mental, surgiu o Clube da Amizade, carinhosamente chamado de “Clubinho”. Criado pela enfermeira Dolores Reginato Chagas, com apoio das técnicas de enfermagem Maria de Lourdes Pinheiro e Silvana Lazzarotto, o espaço busca ampliar a qualidade de vida de jovens e adultos que estão em tratamento terapêutico por meio de atividades que favorecem a inserção social e a adesão ao tratamento. Os pacientes, acompanhados por profissionais do hospital, recebem medicações e participam de ações educativas, lúdicas e laborais, com foco na psicomotricidade e no fortalecimento de vínculos afetivos.
Com 40 anos de experiência na enfermagem e há 22 anos atuando na Unidade Psiquiátrica, Sandra Regina Aquistapasse hoje trabalha no Hospital Dia de Saúde Mental e ressalta que há diferenças entre o Hospital Dia e o Clube da Amizade, embora ambos funcionem no mesmo contexto de cuidado em saúde mental. Segundo ela, no Hospital Dia, as ações terapêuticas são organizadas em um projeto formal da instituição, com objetivos definidos e executados por uma equipe multiprofissional. Os pacientes são admitidos oficialmente, recebem o atendimento necessário ao longo do dia e recebem alta ao fim do período, sem necessidade de internação integral. O tempo de permanência varia conforme o quadro clínico de cada pessoa. Já o Clubinho funciona como um espaço complementar, focado na convivência e nas práticas de cuidado contínuo, menos formal, mas essencial para o processo terapêutico e reintegração social.
Galeria de Imagens do Hospital Dia
No hospital Casa de Saúde, a Unidade Madre Madalena, começou a funcionar no período pós Reforma Psiquiátrica, em 2011. O espaço oferece 25 leitos de internação e atualmente está com 100% de ocupação. O perfil assistencial é voltado para pacientes em processo de desintoxicação por uso de álcool e outras drogas, encaminhados por meio do sistema de regulação de leitos (GERINT), a partir das portas de urgência e emergência ou dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). A unidade também oferece tratamento psicológico para adolescentes.
O tempo médio de internação é de 21 dias, podendo ser estendido em casos em que há dificuldade ou ausência de apoio familiar. Durante a internação, os pacientes são tratados de forma individualizada, usam suas próprias roupas e participam de atividades que os estimulam à reorganização pessoal. Após a alta, aqueles que pertencem a outros municípios da região são referenciados para o serviço de saúde mental local.
Reportagem: Luiza Ventura
Fotos: Maria Eduarda Baldin
Revisão: Mariângela Recchia




