Angústia, insônia e sensação constante de insegurança são alguns dos sintomas que afetam quem sofre com o fenômeno

“Tenho percebido mudanças cada vez mais rápidas no clima, com eventos extremos se tornando mais frequentes e intensos. Isso me preocupa e me faz pensar no que ainda podemos enfrentar. É como se estivéssemos em uma corrida contra o tempo – e isso me tira o sono”. 

O desabafo é do estudante universitário Juliano Carvalho, de 28 anos, morador de Santa Maria. Ele não foi diretamente atingido pelas enchentes de 2024, mas diz sentir, cada vez mais, os efeitos emocionais de viver em um planeta em desequilíbrio.

Juliano não está sozinho. Relatos como os dele têm se tornado cada vez mais frequentes, principalmente entre os jovens. Eles ilustram um fenômeno relativamente novo que vem sendo chamado de ecoansiedade, ou ansiedade climática.

Juliano mostra preocupação diante das mudanças climáticas

“É uma reação emocional caracterizada por apreensão, preocupação, ansiedade e medo diante das ameaças ambientais que desestabilizam o presente e comprometem o futuro”, define a psicóloga Clarissa Tochetto.

Segundo a especialista, a ecoansiedade pode afetar significativamente o bem-estar das pessoas, provocando uma sensação constante de insegurança e desamparo, além de sintomas físicos como aceleração dos batimentos cardíacos, respiração ofegante, tremores e insônia.

 

Um fenômeno que cresce

Embora não haja uma data precisa para o surgimento do termo, estima-se que ele tenha começado a circular em ambientes acadêmicos no início dos anos 2000, impulsionado pelo aumento das discussões sobre as mudanças no clima. A partir de 2017, porém, com a publicação do relatório Mental Health and Our Changing Climate: Impacts, Implications, and Guidance (Saúde Mental e Nosso Clima em Transformação: Impactos, Implicações e Orientações), da Associação Americana de Psiquiatria (APA), o conceito passou a ganhar maior visibilidade e reconhecimento, tanto por instituições e profissionais de saúde quanto pelo público em geral. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, valida os efeitos da crise climática na saúde mental e recomenda que governos estejam preparados para enfrentá-los. Segundo a entidade, eventos extremos como enchentes, secas e queimadas afetam diretamente o equilíbrio psicológico das populações e exigem respostas integradas entre as áreas da saúde, meio ambiente e assistência social.

A preocupação com os efeitos psíquicos da crise climática também tem sido tema de diversas pesquisas nos últimos anos. 

Em 2018, uma sondagem realizada pelo instituto norte-americano Harris Poll, intitulada Nearly three in four millennials experience eco-anxiety (Quase três em cada quatro millennials vivenciam ecoansiedade), apontou que 72% dos estadunidenses, com idades entre 18 e 34 anos, sentiam ansiedade ou medo em relação ao futuro do planeta. Poluição, aquecimento global e desastres naturais estavam entre os principais fatores de preocupação.

Já em 2021, uma investigação feita pela revista The Lancet Planetary Health, que ouviu mais de 10 mil pessoas entre 16 e 25 anos, em 10 países, incluindo o Brasil,  mostrou que 59% dos entrevistados estava extremamente ou muito preocupado com as mudanças climáticas. Entre os brasileiros, esse índice foi ainda mais alto: 86%. Sentimentos como impotência, raiva, tristeza e traição foram os mais mencionados.

No Rio Grande do Sul, estudos semelhantes também vêm sendo realizados. Desde outubro de 2024, por exemplo, a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) conduz uma pesquisa com jovens da Coorte de 2004 para avaliar os impactos das enchentes na saúde mental incluindo a análise da ecoansiedade. 

Nem toda reação é doença

Apesar da crescente popularização, a ecoansiedade não é reconhecida como transtorno mental na medicina. Ela, por exemplo, não aparece de forma específica no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), da APA, nem na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da OMS.

De acordo com Clarissa, esse é um ponto importante: embora a ecoansiedade possa provocar sintomas físicos e psíquicos, como insônia, taquicardia e sensação de desamparo, isso não significa, por si só, que haja um transtorno instalado. “Ela pode ser debilitante em alguns momentos, mas, em muitos casos, é uma reação compreensível diante do contexto que estamos vivendo”, explica.

Essa mesma perspectiva é compartilhada pelo psicanalista Volnei Dassoler, coordenador da Policlínica Santa Maria Acolhe. Para ele, emoções como medo, ansiedade ou pensamentos repetitivos diante de novas chuvas são respostas legítimas a uma experiência traumática coletiva, e não necessariamente sinais de adoecimento.“Quando nomeamos rapidamente esses sentimentos, corremos o risco de transformar reações humanas compreensíveis em transtornos. Nem todo sofrimento precisa virar diagnóstico”, afirma.

Dassoler alerta para o perigo de individualizar um sofrimento que tem raízes sociais e ambientais. Segundo ele, nomear essas experiências pode deslocar o olhar das causas estruturais para o indivíduo, como se o problema estivesse exclusivamente nele. “Estamos falando de um trauma coletivo. O medo que fica depois de uma enchente, por exemplo, não é irracional, ele tem história, tem causa. E, muitas vezes, passa com o tempo”, observa.

Na avaliação do médico psiquiatra Vitor Crestani Calegaro, embora a ecoansiedade não configure um novo diagnóstico, ela é um fenômeno real que em alguns casos pode evoluir para quadros mais graves, como transtorno de ansiedade generalizada ou transtorno do pânico. Ele destaca que nem todas as respostas emocionais exigem intervenção clínica, mas é preciso atenção aos sinais. “O que diferencia uma reação compreensível de um transtorno é a duração, a intensidade e o impacto que causa. Há casos que precisam de tratamento, sim”, enfatiza.

Caminhos para o cuidado

Para os especialistas, o combate ao fenômeno não deve se limitar ao atendimento clínico, mas incluir estratégias que acolham o sofrimento, atuando na prevenção e na promoção da saúde mental coletiva.

Calegaro vê a confiança nas instituições públicas como um fator fundamental para o enfrentamento do medo. “A sensação de desamparo aumenta a insegurança. Dá a impressão de que estamos por nossa conta”, observa. E esse sentimento, segundo ele, acaba alimentando o receio de que novas tragédias venham a ocorrer.

Dassoler, por sua vez,  ressalta a importância de criar espaços de escuta e vínculo que acolham as crises antes que se transformem em urgências hospitalares, fortalecendo redes comunitárias e políticas públicas capazes de dar respostas concretas. Para ele, mais do que medicalizar o sofrimento, é fundamental ampliar a rede de apoio e garantir condições para que ele possa ser elaborado coletivamente.

E para quem convive com o medo constante das mudanças ambientais, Clarissa recomenda: “busque apoio em redes comunitárias, reduza o consumo excessivo de notícias, mantenha hábitos saudáveis e, sempre que necessário, procure ajuda especializada”. 

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