Um ano após a tragédia, atingidos pela enchente de 2024 ainda carregam marcas psicológicas profundas e mostram a importância do cuidado continuado

O barulho da chuva nunca mais foi o mesmo para os gaúchos. O som que antes anunciava o frio ou acalmava o sono passou a despertar alerta, angústia e medo. Entre o fim de abril e o início de maio de 2024, a água que antes era calma virou destruição: mudou a rotina, afetou lares e tirou a segurança de inúmeras famílias.

Segundo a Defesa Civil do Rio Grande do Sul, a enchente que atingiu o estado alcançou 478 municípios, o equivalente a 96% das cidades, afetando mais de 2,3 milhões de pessoas e provocando a morte de 184. No auge da catástrofe, cerca de 79 mil moradores ficaram desalojados após terem suas casas levadas ou destruídas pela força da água. Ao menos 1.328 pessoas permaneceram vivendo em abrigos temporários até dezembro daquele ano. 

Na capital, o temporal foi extremo. Segundo a MetSul Meteorologia, só no sábado, 27 de abril, choveu o equivalente a 43 milímetros em apenas seis horas, ou 43 litros de água por metro quadrado. O mau tempo causou alagamentos, paralisações no trânsito e interrompeu as operações no Aeroporto Salgado Filho, que permaneceu fechado por cinco meses.    

A região sul do estado também foi duramente atingida. Em Pelotas, por exemplo, moradores de bairros como a Colônia Z3, um dos mais afetados, ainda hoje lidam com os danos, principalmente emocionais, causados pela enchente.

Impactos em Santa Maria

Naqueles mesmos dias finais do mês de abril, Santa Maria também começava a sentir os primeiros sinais daquela que seria a maior tragédia climática do estado. A água não dava trégua, os alertas se multiplicavam, e o cenário começava a mudar: bairros alagados, aulas suspensas, moradores sendo retirados de suas casas às pressas, desmoronamentos em áreas de risco. Ainda não se sabia a dimensão do que estava por vir, mas já era possível perceber os impactos do temporal no corpo, na rotina e, principalmente, no emocional das pessoas.

Somente entre 25 de abril e 31 de maio, o município registrou 835,8 milímetros de chuva, segundo a estação pluviométrica do Bairro Lorenzi, monitorada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O volume  acumulado ultrapassou metade da média anual esperada para a cidade. O dia mais crítico foi 1º de maio, com um total de 213,6 mm em 24 horas – o maior índice já registrado na localidade, superando a marca histórica de 1984.

A força da enxurrada afetou diretamente mais de 12 mil moradores. Aproximadamente 1.300 ficaram desalojados e buscaram refúgio na casa de parentes, enquanto cerca de 300 foram acolhidos em estruturas montadas pela prefeitura, no Centro Desportivo Municipal (CDM), na região central, na Igreja Santa Catarina e na Associação Beneficente Antônio Mendes Filho (ABAMF), ambos no Bairro Itararé. 

Pessoas em situação de rua também foram recebidas em locais como o salão da Igreja Batista Independente, no Bairro Nossa Senhora do Rosário. Nesses locais, foram oferecidos colchões, roupas de cama, itens de higiene e alimentação, até o dia 7 de junho, quando o último abrigo, no CDM, foi desativado. O impacto também foi trágico em vidas: cinco pessoas morreram em decorrência de deslizamentos de terra, em regiões como o distrito de Arroio Grande e o Bairro Itararé.

Depois da água, o vazio físico e emocional

Nem todas as famílias que precisaram deixar seus lares passaram pelos abrigos públicos. Irene Marques, moradora do bairro Campestre, em Santa Maria, foi uma delas. Cuidadora de idosos e mãe de Felipe, de 13 anos, ela precisou sair de sua residência no fim de abril, quando a água começou a invadir sua rua. Acolhida temporariamente por sua irmã, ela enfrentou dias de incerteza e espera. 

“Eu estava trabalhando quando começou a chover forte. Me ligaram dizendo que a água estava entrando em casa, mas quando consegui chegar lá, já era tarde. No outro dia voltei e não consegui nem abrir a porta. Tinha perdido tudo. Fiquei paralisada. Meu marido tinha acabado de falecer. Era só eu e meu filho. Foi muito difícil”

Ela conta que ficou semanas sem conseguir retornar à moradia. E, quando conseguiu, encontrou o local destruído. “Se eu não estivesse trabalhando, eu não sei o que seria de mim. Eu fiquei sem nada”, desabafa. 

O pátio da casa de Irene ficou coberto por lama e destroços

A história de Irene revela uma dimensão menos visível dos desastres: a que fica depois que a água baixa. O impacto emocional de toda perda vivida vai muito além dos danos físicos. A psicóloga Melissa Couto, referência na área de emergências e desastres, explica que nesse tipo de situação o que se instala é um sentimento de desconexão com tudo aquilo que antes dava sentido e estabilidade à vida. “A gente vive um ciclo de luto. Quando se perde tudo que era nosso o que vem depois é um rompimento com o mundo presumido.” 

Segundo Clarissa Tochetto, também psicóloga e especialista em psicoterapia cognitivo-comportamental, nos dias que seguem uma tragédia, é comum as pessoas apresentarem reações agudas ao estresse, que em um primeiro momento podem ser adaptativas, auxiliando na tomada de decisões e na sobrevivência. Porém, nem todos conseguem se recuperar sozinhos. “Muitos moradores que perderam suas casas, pertences e referências enfrentam quadros de estresse desadaptativo, que paralisam e podem evoluir para transtornos mais graves, como depressão e transtorno de estresse pós-traumático”, alerta.

O deslocamento forçado, realidade de várias famílias que tiveram que buscar abrigos improvisados, agravam ainda mais o sofrimento emocional. “Perder a casa é muito mais do que perder um bem material. Ali estão memórias, identidade, segurança. Quando isso desaparece, o que fica é uma sensação profunda de desamparo e impotência”, explica Clarissa. Por isso ela enfatiza a importância do acolhimento qualificado: “O primeiro contato com pessoas em sofrimento precisa ser feito por profissionais preparados, com escuta ativa e sensibilidade.”

O psiquiatra especialista em saúde mental em contextos de crise e professor do Departamento de Neuropsiquiatria da UFSM, Vitor Crestani Calegaro, salienta que o atendimento inicial deve ser focado no presente. “É acolher sem revitimizar. É perguntar: o que você precisa agora?”, explica. A escuta, segundo ele, precisa ser direcionada ao que a pessoa está vivenciando naquele momento, evitando que ela reviva o acontecimento trágico. Isso reduz o risco de retraumatização e ajuda a organizar o cuidado.

Ele ressalta que os primeiros cuidados psicológicos não se limitam àqueles oferecidos pelos profissionais da saúde mental. “São ações práticas, de apoio concreto e imediato, como ajudar alguém a recuperar documentos, encontrar um familiar, acessar o próprio dinheiro. Às vezes um sobrevivente perdeu tudo. Então ele precisa ser reconhecido como cidadão de novo. Isso faz toda diferença”, aponta. O psiquiatra também chama atenção para a importância de garantir o descanso. “Dormir é fundamental. A insônia é esperada nessas situações, mas ela só piora tudo. A pessoa precisa recuperar minimamente o sono e o funcionamento do corpo para começar a se reorganizar”, afirma. 

Ainda assim, Irene diz que em nenhum momento recebeu atendimento psicológico por parte do poder público. E mesmo tendo consciência de que algo não estava bem, ela não conseguiu buscar ajuda por conta própria. “Eu precisava estar forte para o meu filho, para trabalhar, para reconstruir a casa. Não tinha tempo, nem cabeça para pensar em mim”, relata.

Melissa observa que esse é um comportamento comum em grande parte dos atingidos. “As comunidades mais vulneráveis, que não recebem apoio psicossocial contínuo, tendem a sofrer maiores danos emocionais. Essas populações geralmente não estão preparadas para lidar com o que vem depois, e também não têm tempo ou recursos para ativar fatores de resiliência”, explica.  Ela destaca que o sofrimento emocional não desaparece com o tempo. 

“As crises acontecem, todo mundo se solidariza. Mas o tempo passa e todos voltam para suas vidas. A dor dessas pessoas permanece” .

Calegaro reforça que, com o passar das semanas, o impacto psicológico tende a se intensificar, especialmente quando falta acompanhamento. “Em termos de saúde pública, é super importante reconhecer que não é só no calor da hora. O cuidado tem que ser contínuo, porque com o tempo a pessoa vai tentando dar sentido ao que viveu, e aí surgem dúvidas, culpas, pensamentos que vão se ligando e agravando a imagem que ela tem de si mesma.”

Esse processo, de acordo com o psiquiatra, pode, em alguns casos, desencadear quadros mais graves, como o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). “Esse transtorno não surge com uma data marcada. Ele pode se manifestar semanas após o evento, e se configura quando a pessoa não melhora, ou piora com o passar do tempo, mantendo uma resposta emocional sustentada e crônica ao trauma”, explica Calegaro. Segundo ele, o TEPT envolve alterações profundas na forma como o corpo e a mente reagem ao estresse. “A pessoa permanece em estado de vigilância constante, como se o perigo ainda estivesse presente. Isso corrói a sensação de segurança e pode comprometer funções básicas do cotidiano”, descreve.

Mas, enquanto a rotina retorna para muitos, quem foi atingido ainda tenta entender como seguir em meio aos escombros do que restou, não só por fora, mas também por dentro. Hoje, mais de um ano após a tragédia, Irene confessa que ainda não se sente segura. “Quando começa a chover, já fico nervosa, com medo de tudo acontecer de novo. Meu filho também muda, fica quieto, pergunta se vai alagar. É como se a gente vivesse sempre em alerta”, lamenta. Por isso, mais do que respostas imediatas, é preciso reconhecer que a dor não termina quando a água baixa. 

“A verdade é que não tem nenhuma solução bem estabelecida que valha para todos e para todas as situações. O ser humano é naturalmente resiliente. É o tempo que vai dizer a extensão do trauma, mas o cuidado em saúde mental deve ser contínuo”, pontua Calegaro.

O papel da Policlínica Santa Maria Acolhe durante e após a tragédia

Em Santa Maria, um dos espaços que tenta dar continuidade ao atendimento da população é a policlínica Santa Maria Acolhe. Integrante da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do município, o serviço foi criado em 2013 como resposta ao incêndio da Boate Kiss, o serviço nasceu marcado pela urgência do cuidado e, ao longo da última década, consolidou-se como referência no atendimento psicossocial em situações de crise e tragédias coletivas, sejam elas climáticas, humanas ou acidentais. 

Em 2024, mais uma vez, a equipe foi mobilizada diante das enchentes que afetaram Santa Maria. A atuação da policlínica, como explica o coordenador Volnei Dassoler, se deu em dois tempos: de maneira emergencial, durante e logo após a tragédia e posteriormente no acolhimento e acompanhamento dos casos encaminhados.

Inicialmente, logo após o desastre, o foco da resposta esteve centrado na atenção básica e na oferta de suporte às necessidades imediatas da população afetada. “Num desastre como esse, saúde mental é garantir moradia, comida, segurança. É o cuidado em dar uma estrutura mínima para o sujeito não desabar”, afirma.

Dassoler conta que, embora não estivesse diretamente inserida no Comitê de Crise (grupo temporário de gerenciamento de situações emergenciais de crise) criado pela prefeitura da cidade, a equipe da Acolhe atuou presencialmente nos abrigos municipais do Centro Desportivo Municipal (CDM) e da Igreja Santa Catarina, no bairro Itararé, junto às Equipes de Saúde da Família (ESF). 

O objetivo era avaliar se havia necessidade de intervenções mais especializadas. Porém, de acordo com o coordenador, boa parte dos abrigados apresentava reações emocionais esperadas diante do impacto, como insônia, ansiedade, episódios de choro e confusão, sem caracterização de um adoecimento mental propriamente dito.

Ainda assim, alguns casos mais graves foram encaminhados ao serviço, especialmente familiares de vítimas dos deslizamentos e pessoas com histórico de sofrimento psíquico prévio, que vivenciaram uma piora nos sintomas após o desastre. “Muita gente já vinha em tratamento por ansiedade, depressão ou luto. E a enchente, com tudo que ela trouxe de perda e instabilidade, foi um gatilho. Em muitos casos, houve agravamento do quadro clínico”, relata.

De acordo com o coordenador, entre 10 e 15 pessoas foram acolhidas de maneira regular nas semanas seguintes ao desastre, com atendimentos realizados por psicólogos e médicos da equipe, além de prescrição de medicação em alguns casos. Dessas, uma pessoa permanece em acompanhamento até hoje: trata-se de um familiar de uma das vítimas fatais da enchente.  

Um dos maiores desafios enfrentados naquele período, segundo Dassoler, foi lidar com a expectativa de resposta imediata, tanto por parte da população quanto da imprensa. “Diante de uma tragédia de grandes proporções como as enchentes, normalmente cria-se uma forte cobrança por números, diagnósticos e estatísticas que possam traduzir a dimensão do sofrimento coletivo”, comenta. 

No entanto, ele ressalta que nem todo impacto emocional exige atendimento especializado. Muitas pessoas preferiram recorrer a redes de apoio informais, como a fé, a família ou a comunidade, uma escolha legítima e que, para o coordenador, precisa ser respeitada. “O papel do poder público é garantir que o cuidado esteja disponível, não impor que ele aconteça”, explica.

Hoje, mais de um ano depois, a Acolhe ainda atende casos relacionados à enchente, inclusive de pessoas que só agora passaram a manifestar sofrimento mais intenso. “O trauma tem tempos diferentes. Para alguns, ele se apresenta de forma imediata. Para outros, ele amadurece no silêncio. É por isso que o cuidado em saúde mental precisa ser contínuo e atento”, finaliza o coordenador.

E não foram apenas os adultos que enfrentaram os impactos emocionais da tragédia. Crianças e adolescentes moradores das áreas atingidas também carregam lembranças difíceis e, muitas vezes, silenciam seu sofrimento.

Em Santa Maria, o projeto Tecendo Redes de Resiliência, da UFSM, atuou diretamente em escolas da rede pública para oferecer apoio psicológico e fortalecer a resiliência dos estudantes. As ações foram realizadas entre maio e dezembro de 2024 e revelaram como, mesmo entre os mais jovens, o trauma pode surgir de perdas diretas ou ser reativado por memórias anteriores. Para conhecer melhor a iniciativa, leia a reportagem completa.

Nem todos os abalos emocionais, porém, estão ligados à vivência do desastre. O medo constante frente à possibilidade de novos eventos extremos tem impactado o bem-estar de quem, mesmo não tendo sido atingido diretamente, sente os efeitos da crise climática. Esse fenômeno, cada vez mais comum, tem nome: ecoansiedade. Para entender como ela se manifesta e quais estratégias podem ajudar a lidar com esse sentimento, confira a matéria que preparamos sobre o tema.

Como acessar a policlínica

A Policlínica Santa Maria Acolhe fica localizada na Rua Conrado Hoffmann, nº 277, em Santa Maria (RS). O serviço funciona de segunda a sexta-feira, com atendimentos presenciais das 8h às 12h e das 13h às 18h. 

Não é necessário encaminhamento nem agendamento prévio. Também há a opção de atendimento remoto pelo WhatsApp, no número (55) 99164-4154.

Texto: Daniele Lopes Vieira e Isadora Bortolotto
Edição: Mariangela Recchia

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