“Para uma parcela considerável, perceber que seus conflitos internos não eram algo tão incomum, fez com que enxergassem esses mesmos conflitos de uma maneira mais otimista”, afirma professor responsável.
Promover saúde mental às crianças e adolescentes de forma lúdica e acessível: esse é o principal objetivo do projeto “Saúde Mental em Cena”, desenvolvido na Universidade Federal de Pelotas pelos cursos de Medicina e Teatro. Com início em 2022, a iniciativa surgiu da necessidade urgente de prevenir e identificar precocemente problemas relacionados à saúde mental no ambiente escolar, especialmente no Ensino Fundamental e Médio.

Projeto “Saúde Mental em Cena” promove reflexão e expressão sobre saúde mental de forma lúdica, aproximando educação, arte e promoção da vida. Foto: Divulgação
Coordenado pelos professores Dinarte Ballester, do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina, e Marina de Oliveira, do curso de Teatro do Centro de Artes da UFPel, o projeto busca construir pontes entre educação, arte e cuidado. A ideia é simples, mas potente: utilizar a linguagem teatral para tratar de temas muitas vezes delicados, como sofrimento psíquico e de que forma buscar ajuda quando necessário.
“A parceria com o Teatro foi fundamental para encontrar uma linguagem acessível para trabalhar com educação para saúde com crianças e adolescentes, tratando de temas mais sérios de um modo lúdico”, explica Dinarte. A abordagem acontece em encontros que combinam rodas de conversa e jogos teatrais, criando um espaço seguro para reflexão, expressão e movimento. Em 6 encontros de noventa minutos, alunos são convidados a pensar, sentir e se expressar corporalmente sobre temas que, muitas vezes, não encontram espaço na rotina escolar tradicional. Segundo Marina, participaram do projeto cerca de 40 alunos ao todo. “Os alunos nem sempre eram os mesmos, nas rodas. Cada roda tinha aproximadamente 20 alunos. Ela é pensada idealmente para esse número, já que a ideia é haver um espaço efetivo de troca, em roda”, afirma a professora.
Físico, racionalidade e intuição
Os encontros foram feitos através de Jogos Teatrais, modalidade sistematizada por Viola Spolin, diretora de teatro norte-americana. A dinâmica trabalha questões como físico, racionalidade e intuição de maneira integrada, a fim de que os estudantes não apenas reflitam sobre saúde mental, mas vivenciem corporalmente a experiência, desenvolvendo percepção, escuta e expressão de maneira lúdica e sensível.
De acordo com o cronograma que prevê seis rodas de conversa, o primeiro encontro conta com uma meditação guiada, na qual os alunos são convidados a se auto-perceber e, após, uma brincadeira em que o propósito é entender a relação do estudante com o próximo. Em um segundo encontro, são trabalhadas questões como estigmas atribuídos à saúde mental. Posteriormente, em um terceiro momento, a equipe trata do tema de modo mais amplo e, no quarto encontro, de transtornos como ansiedade e depressão – mais recorrentes em ambiente escolar, segundo Marina. Nos últimos dois encontros, são discutidos o cuidado com a saúde mental e a importância de buscar ajuda quando necessário.
Segundo Marina de Oliveira, “ficou nítido que o casamento entre os jogos teatrais e a saúde mental é muito fértil. Observamos que os adolescentes, depois de alguns jogos, ficaram mais receptivos. Conseguimos instaurar uma atmosfera de cumplicidade, o que tornou possível que eles conversassem mais tranquilamente sobre o tema”. Ainda de acordo com a professora, o foco do projeto não é voltado ao atendimento individual ou à terapia em grupo, mas a discutir modos de promoção da saúde mental e gerar acolhimento.
Para Joaquim Dias, professor de história no Colégio Municipal Pelotense há 16 anos e coordenador do projeto de teatro da escola, as oficinas foram muito positivas para os alunos. “Para muitos, as oficinas foram um espaço seguro, onde sentiram-se confortáveis em conversar sobre saúde mental. As dinâmicas aliviaram o estranhamento inicial e proporcionavam que pudessem se expressar com mais confiança. Para uma parcela considerável, perceber que seus conflitos internos não eram algo tão incomum, fez com que enxergassem esses mesmos conflitos de uma maneira mais otimista”, afirmou o professor.

Iniciativa da UFPel une Medicina e Teatro para levar acolhimento e informação a crianças e adolescentes, criando espaços de diálogo e escuta nas escolas. | Foto: Divulgação
Formação de professores
O projeto também inclui a formação de professores como facilitadores dessas atividades. Após a validação do método com estudantes do Colégio Municipal Pelotense, duas oficinas foram realizadas para profissionais da Secretaria Municipal de Educação de Pelotas, com o intuito de multiplicar e consolidar a metodologia no sistema de ensino local.
A iniciativa é, ainda, um exemplo de interdisciplinaridade na prática. Participam do Saúde Mental em Cena estudantes dos cursos de Medicina, Teatro, Letras, Cinema, Psicologia, Nutrição e Terapia Ocupacional da UFPel. No site oficial do projeto, a equipe disponibiliza ao público um possível roteiro de atividades educativas em saúde mental que pode ser aplicado e, principalmente, adaptado conforme as necessidades de demais escolas.




