“Precisamos pensar que todos temos um pouco de loucura, um pouco de criatividade — somos todos atravessados por diversas experiências. Está tudo bem não estar bem”. 

O Projeto CAPS na Rua é um evento itinerante, realizado uma vez por mês, pela Rede de Apoio Psicossocial (RAPS) da Prefeitura Municipal de Pelotas. A iniciativa busca quebrar  estigmas relacionados à saúde mental, por meio da exposição de trabalhos produzidos nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Uma das idealizadoras do projeto, a apoiadora técnica do RAPS de Pelotas, Clarissa de Souza Cardoso, explica nesta entrevista a proposta desse espaço aberto ao público, realizado nas ruas da cidade, que leva para fora dos muros institucionais a produção e a voz dos usuários dos CAPS.

Projeto VerdadeiraMente (VD): Como e quando surge o projeto?

Clarissa Cardoso:  A ideia do “CAPS na Rua” surgiu a partir de conversas com outros profissionais da Rede de Atenção Psicossocial. Durante esses diálogos, foi identificada a importância dos eventos como forma de integração entre comunidade, usuários, alunos e trabalhadores dos CAPS. Diante disso, e inspirados em outras iniciativas de rua realizadas anteriormente, decidimos criar o evento com o objetivo de dar visibilidade às ações desenvolvidas nos serviços.

VD: O evento continua sendo mensal? Quantos e quais CAPS já sediaram o evento? 

Clarissa Cardoso: O evento ocorre mensalmente, geralmente na última sexta-feira de cada mês, sempre no entorno de um dos prédios dos CAPS. A proposta é contemplar todos os serviços, totalizando oito edições, cada uma em um local diferente. As duas primeiras edições foram no CAPS Porto e no CAPS Escola (essa última realizada no Mercado Público, por ser uma área central). O município conta com seis CAPS tipo II, um CAPS Infantojuvenil e um CAPS Álcool e Drogas.

VD: A parceria com a Barraca da Saúde foi algo factual ou será fixa em todos CAPS na rua? 

Clarissa Cardoso: Nós formamos várias parcerias. Quando a gente fez a reunião de apresentação do projeto, em 10 de março com o grupo de trabalho permanente da Secretaria de Cultura, chamamos as demais secretarias. Nós formamos várias parcerias como o Fórum Gaúcho de Enfermagem, o Coletivo de Mulheres que Ouvem Vozes, Associação de Usuários de Saúde Mental de Pelotas (AUSSMPE) e a Barraca da Saúde, que foi uma das que sempre pensamos em contemplar. A barraca é um projeto super importante, que leva orientações, informações para a comunidade, e tem a participação de estudantes, que são uma grande diferença na qualidade do cuidado, das ações. Então para nós é fundamental a participação deles, a gente quer que eles possam participar sempre que possível, quando as agendas forem compatíveis.

VD: Como é pensada a programação? 

Clarissa Cardoso:  Cada CAPS possui um perfil de comunidade e atividades próprias, o que torna cada edição do evento única: O CAPS Porto se destaca pelo coral e oficinas de fotografia, já o Baronesa possui professores de teatro e desenvolve práticas artísticas, o Zona Norte tem uma horta comunitária, O Castelo realiza práticas integrativas como meditação, yoga, chás e auriculoterapia.

VD: Quais são as ações pensadas para os eventos? 

Clarissa Cardoso: Sempre buscamos levar os trabalhos desenvolvidos pelos usuários do CAPS da edição, então tem Oficinas de marcenaria, tem a Retrate com oficinas de produção e geração de renda por meio de artesanatos, a Barraca da saúde, Aulões de dança, brinquedos e atividades lúdicas com a Secretaria de Esporte Lazer e juventude (SELJ), além da exposição de artistas usuários dos serviços.

VD: A comunidade tem sido receptiva com o projeto?

Clarissa Cardoso: O evento já mostrou aumento na procura espontânea pelos serviços, como resultado da divulgação e distribuição de folders. A organização realiza escuta contínua de feedbacks para melhorar o evento e o atendimento, mas a participação varia de acordo com o local: enquanto o CAPS Porto teve mais adesão dos serviços, o CAPS Escola (realizado no centro) teve maior envolvimento da comunidade.

VD: Qual o objetivo e importância do evento?

Clarissa Cardoso: O evento é pensado para quebrar esse estigma de que, para acessar o CAPS, a pessoa precisa ser “louca”. Muitas vezes, as pessoas acabam não se sentindo no direito ou nem confortáveis para pedir ajuda, justamente por conta desses estereótipos que existem em torno dos CAPS. Precisamos pensar que todos temos um pouco de loucura, um pouco de criatividade — somos todos atravessados por diversas experiências. Está tudo bem não estar bem. E quando nos encontramos nesses espaços, há uma potencialidade de cuidado muito maior do que quando estamos sozinhos. Existe a cultura manicomial, de isolamento, tratamentos de choque, ficar trancado em hospitais psiquiátricos, mas a gente quer levar para o evento a cultura de que tu podes sim procurar atendimento psiquiátrico e voltar para casa, levando uma vida normal junto a esse apoio.

A equipe de saúde mental da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) de Pelotas é composta pela coordenadora Luciane Kantorski, pelas apoiadoras técnicas Dariane Portela, Clarissa de Souza Cardoso e Mytzly Dutra, somando a nutricionista Letícia Brum, a oficial administrativa Berenice Moreira e a estagiária Júlia Lemos.

Quando a arte vira cuidado: O que pensam os organizadores e os usuários sobre a iniciativa

Após a entrevista com a Clarissa, ocorreram mais dois eventos de CAPS na Rua, sendo nas unidades Baronesa e Zona Norte. A 5° edição foi realizada no CAPS Fragata, no dia 21 de agosto, a próxima será em 25 de setembro, no CAPS AD (álcool e drogas), dia 10 de outubro será a vez do CAPS i (infantojuvenil). A última programação ficará a cargo do CAPS Castelo no dia 5 de dezembro.

A edição Fragata contou com diversas atividades, tendo como destaque a oficina de arteterapia e a apresentação dos Los Loucos, grupo musical do CAPS Porto. Foram divulgadas e vendidas algumas das produções dos usuários, como guardanapos bordados e pintados, tapeçarias, tricô e pinturas em telas, buscando retroalimentar a oficina. Eliane Pinheiro, educadora social do Caps Fragata e responsável atualmente pelas oficinas de arteterapia, destaca: “Eu estou aqui para aprender, não para ensinar […] é muito gratificante trabalhar aqui, me faz crescer.” O grupo é considerado uma grande família: há contato frequente entre todos os participantes e um verdadeiro acolhimento. “Se a pessoa quiser ir somente para pintar e não estiver afim de conversar, tudo bem, vai quando pode.”

Kelen Ferreira Rodrigues, aluna de enfermagem da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e estagiária do CAPS, compartilhou que algumas ações presentes na edição, como venda de flores, brechó, ação sobre educação sexual, o projeto Conta Comigo, coletivo Hildete Bahia, barraca da saúde, produtos da horta do CAPS Fragata (produzidos por usuários e vendidos para gerar renda ou retroalimentar projetos). oficina de dança, brinquedos infláveis e oficina de Tai Chi Chuan. “Ter esse evento é muito interessante para vivenciarmos isso. Quando falamos no CAPS, é na reinserção do usuário na sociedade. Então, como fazemos isso se não formos para a rua, se não vermos ele cotidianamente? […] é extremamente importante ter esse ambiente”, declara Kelen.

Patrícia Ilha é usuária do Caps há 14 anos e diz: “Quando a gente está pintando ali, abrimos a mente […] é muito importante. O CAPS ajuda a perceber o que temos capacidade de fazer. Depois de tudo pronto, quando a gente canta aqui, a gente chega em casa e pensa: ‘eu tive capacidade de fazer isso’. A gente conversa, dá um sorriso, um abraço, aquilo acrescenta na vida da gente”. Outros usuários do CAPS também afirmaram a importância de ver suas ideias coloridas no tecido, da alegria e emoção de ver o trabalho exposto no evento, que os problemas ficam em casa, que lá é um ambiente que traz a sensação de acolhimento e leveza.

Conheça o projeto Barraca da Saúde

A Barraca da Saúde é um projeto de extensão que surgiu a partir do curso de enfermagem da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), mas que conta com a parceria de alunos e professores de outros 17 cursos. Através dele, são desenvolvidas práticas interdisciplinares voltadas para prevenção de riscos e agravos na saúde da comunidade da Zona Sul, por meio de intervenções realizadas em eventos, principalmente, no qual o projeto disponibiliza uma agenda para que os locais entrem em contato e solicitem as ações.

As atividades e serviços são pensadas conforme a disponibilidade dos alunos participantes e da população, como foi feito no CAPS na Rua. Normalmente é feita a verificação de pressão arterial, ações alusivas à nutrição, voltadas para a alimentação, ou sobre cuidados odontológicos. Dentro do recorte de saúde mental, são realizadas dinâmicas que a população possa falar sobre os seus sentimentos, além de fornecer informações sobre os serviços de saúde mental disponíveis no município de Pelotas.

De acordo com a professora e enfermeira, Lieni Fredo Herreira, o CAPS na Rua teve objetivamente atividades com enfoque na saúde mental da população, para que fosse refletido os problemas os quais a comunidade enfrenta no dia a dia e o peso disso na vida destes indivíduos.

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