Manuais da Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) mostram que comunicar com responsabilidade ajuda a salvar vidas. A psiquiatra Martha Noal, do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM/UFSM), defende a informação ética como forma de prevenção.

Desde o ano 2000, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a maneira como a imprensa noticia casos de suicídio pode influenciar a ocorrência de novos episódios. O manual “Prevenção do Suicídio: um guia para profissionais da mídia foi o primeiro a estabelecer parâmetros para uma comunicação segura e responsável, com orientações que seguem válidas mais de duas décadas depois.

Entre as recomendações, estão: não divulgar detalhes sobre método e local, evitar manchetes sensacionalistas, omitir cartas ou bilhetes deixados pela vítima e não simplificar o suicídio como resposta a um único evento. O documento também enfatiza que jornalistas devem mostrar que o suicídio pode ser prevenível, dar visibilidade a fatores de proteção, como o acesso ao tratamento e o apoio social, e divulgar serviços de ajuda, como o número 188 do Centro de Valorização da Vida (CVV).

“A mídia pode tanto estimular novos casos (efeito Werther) quanto contribuir para a proteção da vida (efeito Papageno)”, afirma o manual, destacando o poder da palavra e da imagem na prevenção” Organização Mundial da Saúde (OMS).

No Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) reforçam essas orientações na publicação “Comportamento Suicida: Conhecer para Prevenir, atualizada em 2019. O texto define a imprensa como parceira estratégica no “mutirão em defesa da vida”, desde que as coberturas evitem a espetacularização. Os manuais da ABP sugerem substituir expressões estigmatizantes, como “suicídio bem-sucedido”, por “morte por suicídio”, e não associar o ato à covardia, coragem ou fraqueza, pois isso reforça o tabu.

A cartilha também recomenda consultar fontes técnicas e científicas, dar contexto epidemiológico e sempre incluir falas que demonstrem esperança, acolhimento e possibilidade de tratamento. A OMS e a ABP convergem num ponto essencial: falar de suicídio não é o problema, o problema é como se fala.

Nas redes sociais, o desafio se amplia. A cartilha “Como falar sobre Saúde Mental e setembro Amarelo nas Redes Sociais, lançada pela ABP em 2023, orienta influenciadores e criadores de conteúdo a usarem linguagem empática, não julgadora e a oferecer caminhos de busca de ajuda. Sugere evitar hashtags ligadas a métodos ou frases de impacto que romantizem a dor. Entre as boas práticas, está checar a origem de conteúdos compartilhados, especialmente vídeos e depoimentos pessoais que possam gerar identificação perigosa entre adolescentes e jovens adultos.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), por sua vez, inclui o relacionamento com a mídia entre as quatro intervenções prioritárias de prevenção ao suicídio, junto à restrição de meios letais, à capacitação de profissionais e ao acompanhamento de pessoas em risco. No guia “Viver a Vida, a OPAS defende parcerias entre governos, jornalistas e plataformas digitais para criar narrativas que valorizem a vida, combatam o estigma e promovam o diálogo público sobre saúde mental com base em evidências científicas.

“A comunicação pode salvar vidas ou ampliá-las em risco”, alerta o documento, sublinhando a importância de campanhas informativas e do uso de linguagem ética também nas redes” ressalta a publicação desenvolvida pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

Essas recomendações se aplicam não apenas à cobertura jornalística, mas a todo espaço de fala pública de portais de notícias a perfis pessoais com alcance significativo. A responsabilidade é compartilhada: comunicar é também cuidar.

“Falar de suicídio exige responsabilidade”

As diretrizes internacionais encontram eco na prática local. No dia 22 de setembro de 2025, bolsistas e voluntários do Projeto Verdadeiramente participaram de uma capacitação sobre pósvenção e cobertura responsável de suicídio, ministrada pela psiquiatra Martha Helena Oliveira Noal, médica psiquiátrica no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM/UFSM) e referência nacional em prevenção. O encontro ocorreu no Espaço Nise da Silveira, no Complexo Multicultural Antiga Reitoria da universidade. 

Psiquiatra Martha Noal e extensionistas do Projeto VerdadeiraMente durante atividade em Santa Maria.

Durante a conversa, a psiquiatra reforçou que a divulgação de casos factuais de suicídio não contribui para a prevenção e pode, ao contrário, aumentar a vulnerabilidade de grupos já fragilizados. Ela explicou que a cobertura midiática de episódios recentes tende a gerar repercussões emocionais em comunidades inteiras, podendo despertar sentimentos de culpa, medo e identificação em pessoas em risco.

“Noticiar casos factuais de suicídio pode gerar mais riscos do que benefícios. A imprensa não deve dar visibilidade a esses episódios, porque isso aumenta a chance de imitação, expõe famílias em luto e reforça a ideia de culpabilizar instituições ou comunidades inteiras”, alertou.

Segundo Martha, o jornalismo tem papel essencial tanto na prevenção quanto na pósvenção – etapa que envolve o acolhimento de familiares, colegas e comunidades impactadas. Para ela, a comunicação deve ser um espaço de diálogo, não de espetacularização. “Precisamos de reportagens que mostrem que há tratamento, que o sofrimento tem saída, que pedir ajuda é possível”, disse.

A médica também destacou outras rotas possíveis para o jornalismo: valorizar histórias de pessoas que buscaram ajuda e encontraram apoio, dar visibilidade a iniciativas culturais e educacionais de promoção da qualidade de vida. Cita como exemplo os projetos Comunidade de Fala e CineMental, desenvolvidos no Programa de Extensão Espaço Nise da Silveira, onde se faz prevenção do suicídio pela inclusão e rompimento de estigmas e discriminações sociais e através da educação em saúde. “Para prevenir suicídios não se precisa necessariamente falar sobre suicídio. Desenvolver habilidades de resolução de problemas, como uma oficina de teatro ou esportes na adolescência, é uma das formas de proteger os jovens”, afirma.  

“A cobertura responsável deve sempre evitar detalhes de métodos, não usar imagens ou manchetes sensacionalistas e, sobretudo, abrir espaço para informação baseada em evidências.”, reforçou.

Martha vê com preocupação a manutenção da campanha Setembro Amarelo. A psiquiatra defende a divulgação do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, mas não do mês inteiro. “O Brasil é o único país do mundo que tem um mês de destaque para a prevenção do suicídio, o que não se mostrou eficaz nem saudável. Sensibiliza familiares enlutados, estimula divulgações inadequadas e o uso mercantilista do tema, além de não ter alcançado efetividade na redução das taxas de suicídio”.

Assim como nos manuais da OMS e da OPAS, Martha defende que o papel da mídia é agir com profissionalismo, rigor e sensibilidade inclusive para entender quando não divulgar é uma das formas eficazes de prevenir novos casos.  

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