Nos anos 1990, ela liderou o primeiro projeto de redução de danos na cidade que chegou a registrar o maior número de casos do estado, deixando um legado de cuidado e prevenção que ainda inspira profissionais de saúde.

Martha Souza atuou na linha de frente do enfrentamento ao HIV/Aids em Santa Maria nos anos 1990, período em que a cidade registrou o maior número de casos do estado.

VerdadeiraMente: Martha, como começou sua relação com o enfrentamento à Aids?

Martha Souza: Em 1986, eu trabalhava em uma pequena cidade do interior do Paraná quando atendi meu primeiro paciente com Aids. O rapaz chegou em estado grave e morreu pouco depois. No velório, ninguém quis sequer colocar o corpo no caixão. Aquilo me marcou profundamente. Ali eu disse: “essa briga também é minha. Nunca mais parei”.

VD: E como foi o retorno a Santa Maria?

Martha Souza: Quando voltei, nos anos 1990, a cidade vivia um momento muito difícil. Santa Maria registrava a maior proliferação do vírus HIV no Rio Grande do Sul. Então, ajudamos a criar a Comissão Municipal de Controle à Aids e começamos a organizar campanhas educativas. O maior desafio era vencer o preconceito. Infelizmente, estamos em 2025 e esse permanece o maior desafio.

VD: Na época, não existiam redes sociais nem internet para divulgar informações. Como vocês faziam esse trabalho?

Martha Souza: Era tudo no braço (risos). A gente produzia folders explicativos sobre HIV e outras ISTs, participava de programas de rádio e TV, ia em escolas, universidades, hospitais e postos de saúde. Também fazíamos rodas de conversa em bairros mais periféricos, explicando sobre prevenção com preservativos, cuidados com seringas e a importância da testagem. Eu costumo brincar que não sei se em Santa Maria teve alguma escola em que eu não tenha passado.

VD: E foi daí que surgiu o projeto de redução de danos?

Martha Souza: Sim. Em 1999, lideramos o primeiro projeto itinerante de redução de danos do Brasil. Percorremos nove municípios da região central do Estado. A ideia nasceu da urgência em conter o avanço do HIV entre pessoas usuárias de drogas injetáveis.

VD: Como esse projeto funcionava na prática?

Martha Souza: A equipe oferecia seringas esterilizadas em troca das usadas, além de kits de prevenção com preservativos, lubrificantes e materiais educativos. Acompanhamos cada pessoa com orientação médica e escuta acolhedora. Também organizamos oficinas de higiene e grupos de apoio para familiares. A prevenção não era só sobre as drogas, era sobre o corpo, a mente e a comunidade.

VD: E os resultados vieram?

Martha Souza: Vieram, sim. Em poucos anos, a proporção de casos de HIV ligados ao uso de drogas caiu de 13% para 3%. Era impossível não fazer nada. Não dava pra fingir que não víamos o problema.

VD: Mesmo assim, o projeto enfrentou resistência, certo?

Martha Souza: Bastante. Muita gente dizia que a gente estava “defendendo a promiscuidade”, porque falávamos abertamente sobre prevenção e sexualidade, temas que eram e ainda são grandes tabus. Mas eu sempre defendi que a iniciativa era, na verdade, uma forma de espalhar informação e garantir que as pessoas, inclusive as dependentes químicas, tivessem acesso a meios de transformar suas vidas. O projeto de redução de danos funcionava justamente para isso: oferecer cuidado, orientação e condições para que, com o tempo, a pessoa conseguisse abandonar o uso de drogas. Quanto mais informação correta, menos violência, menos gravidez indesejada, mais responsabilidade. A informação evita doenças.

VD: Você também acompanhou de perto o fortalecimento do movimento LGBTQIA+ em Santa Maria. Como esse trabalho se conectou à sua atuação?

Martha Souza: Totalmente. O movimento LGBTQIA+ foi um dos mais atingidos e perseguidos durante a pandemia de HIV/Aids. Nosso trabalho ajudou a aproximar essas pessoas do sistema de saúde e a criar espaços de acolhimento. Vi mulheres trans retomarem os estudos, conquistarem profissões, reconstruírem suas vidas com dignidade. Isso é o que mais me orgulha.

VD: E o reconhecimento veio também pela Câmara de Vereadores.

Martha Souza: Sim, fui homenageada com o título de Cidadã Benemérita. Mas, sinceramente, eu não sei se é um legado meu. É um legado nosso. Nós nos abraçamos e fomos juntos.

VD: Hoje, olhando para tudo que viveu, o que você diria às novas gerações?

Martha Souza: Eu diria que, para cuidar da saúde mental dos outros, precisamos cuidar da nossa. Que a união entre as pessoas se fortaleça, que olhem na cara do preconceito e riam, e sigam em frente, mostrando que toda luta é significativa e faz diferença.

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