A Casa 13 de Maio e a Farmácia do HUSM oferecem acolhimento e orientação segura para quem vive com ISTs e busca cuidado em Santa Maria.

Fachada do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM). Foto: Maria Eduarda Baldin
Dentro do HUSM, a Farmácia DI (sigla para Doenças Infectocontagiosas) é responsável pela dispensação de medicamentos antirretrovirais e acompanhamento de pessoas que vivem com HIV e hepatites B e C. O serviço é referência para 35 municípios da região central do Rio Grande do Sul e mantém, hoje, cerca de 1.249 pacientes ativos.
No local, os atendimentos são mensais e incluem orientação individualizada sobre o uso correto dos remédios, horários, possíveis interações e efeitos colaterais. “Nosso trabalho é garantir que o paciente se sinta acolhido, entenda a importância do tratamento e saiba que não está sozinho”, explica a farmacêutica responsável Aline Santos.
Um dos maiores desafios é manter o tratamento em dia. Por isso, a farmácia realiza uma busca ativa: ligações e contatos com pacientes que atrasam a retirada dos medicamentos. “Quando alguém falta há mais de 30 dias, entramos em contato para entender o motivo. Às vezes é esquecimento, às vezes vergonha ou medo do preconceito. A gente tenta trazer a pessoa de volta com acolhimento”, afirma a farmacêutica.
A adesão é essencial porque o tratamento contínuo permite que o vírus fique indetectável no sangue, impedindo a transmissão. “Hoje, quem toma corretamente o antirretroviral vive com qualidade de vida e sem risco de transmitir o HIV”, reforça.

Medicamento utilizado atualmente no tratamento do HIV. Foto: Renan Silveira
O avanço dos medicamentos também facilitou a rotina dos pacientes. O chamado ‘coquetel’, antes formado por vários comprimidos, deu lugar a um único comprimido por dia, com muito menos efeitos colaterais. “O avanço é enorme. O tratamento ficou mais simples e mais seguro”, comenta Aline.
Apesar dos avanços, o estigma, que é uma forma de rotular e discriminar as pessoas, ainda é um obstáculo. “Muita gente tem dificuldade de aceitar o diagnóstico por medo de ser julgada. Alguns evitam o tratamento com receio de que alguém descubra”, conta a profissional.
Para reduzir o impacto psicológico, a equipe tenta garantir privacidade total, com um ambiente reservado e atendimento humanizado. Ainda assim, a farmacêutica reconhece que faltam profissionais de Psicologia e Serviço Social na unidade: “Um psicólogo faria toda a diferença. Muitos chegam abalados e precisam de escuta antes de tudo”.
Como acessar o serviço
O atendimento é gratuito e voltado a pacientes encaminhados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Quem recebe diagnóstico positivo para HIV ou hepatites pode procurar o HUSM diretamente ou ser encaminhado pela Casa 13 de Maio e pelas secretarias municipais de saúde da região.
Após a primeira consulta médica, o tratamento é iniciado na Farmácia, que segue acompanhando o paciente com orientação e distribuição mensal dos medicamentos.
Casa 13 de Maio: Referência Municipal
Fundada ainda na década de 1990, a Casa 13 de Maio, em Santa Maria, nasceu como uma resposta à crise provocada pela Aids e se tornou um dos principais serviços de referência no atendimento a pessoas com HIV e outras ISTs na região central do Estado. Ligada à rede pública de saúde, a instituição reúne uma equipe multidisciplinar com médicos infectologistas, enfermeiros, farmacêuticos, nutricionistas, assistentes sociais e psicólogos, todos dedicados ao mesmo objetivo: oferecer tratamento, acolhimento e dignidade a quem vive com essas infecções.

Há quase 30 anos, a Casa 13 de Maio é referência no acolhimento de pessoas com ISTs em Santa Maria. Foto: Renan Silveira
Entre os serviços oferecidos, o acompanhamento psicológico é um dos pilares. A psicóloga Danieli Brum de Souza, que integra a equipe da instituição, explica que o impacto emocional do diagnóstico pode ser devastador: “O diagnóstico por si só já traz um sofrimento muito parecido com o luto, pela perda da boa saúde e pelo medo do que virá. Além disso, há o preconceito muitas vezes dentro da própria família e o receio de como as pessoas vão reagir”.
Segundo Danieli, o sofrimento mental de quem recebe o diagnóstico vai além do medo da doença. A rejeição e o estigma fazem com que muitos pacientes sintam culpa, vergonha e isolamento, o que pode levar a quadros de depressão e ansiedade. “A gente trabalha muito com a desconstrução da própria pessoa, que também já carrega um preconceito prévio sobre a IST. O acompanhamento psicológico ajuda a lidar com essa dor emocional e a reconstruir a autoestima”, afirma.
O atendimento na Casa 13 de Maio é contínuo e inclui apoio psicológico, médico e social, além da dispensação gratuita de medicamentos e ações de prevenção como testagens e orientação sobre PrEP e PEP. O espaço também funciona como um ambiente de escuta e acolhimento, buscando humanizar o cuidado e combater o preconceito que ainda ronda o HIV e outras infecções.
“Nosso trabalho é mostrar que o HIV não define ninguém. A pessoa continua sendo quem sempre foi, só precisa de acompanhamento e respeito”, completa Danieli.
A Casa 13 de Maio fica na Rua Silva Jardim, n° 1.280, Bairro Nossa Senhora do Rosário, em Santa Maria.




