Pesquisador explica os efeitos do exercício físico na mente. Estudantes relatam melhora no bem-estar após participar de projetos na UFSM.
A relação entre exercício físico e saúde mental tem sido, com cada vez mais frequência, alvo de pesquisas na literatura científica, sobretudo no âmbito das universidades brasileiras. O Brasil, durante anos, tem ocupado os primeiros lugares em pesquisas que evidenciam diagnósticos ou relatos de sintomas provenientes da ansiedade e depressão. De acordo com o relatório global World Mental Health Day 2024, o Brasil é o 4º país mais estressado do mundo, em pesquisa divulgada pelo Instituto Ipsus.
Além disso, dados recentes do Ministério da Previdência Social apontam que o país registrou, em 2024, o maior número de afastamentos do trabalho por ansiedade e depressãso nos últimos dez anos. Fato que evidencia o impacto crescente do adoecimento mental na vida produtiva da população.
Embora o levantamento se refira ao conjunto de trabalhadores brasileiros, especialistas alertam que esse contexto também se reflete no ambiente universitário. Pressões acadêmicas, incertezas profissionais, dificuldades financeiras e desafios emocionais fazem com que estudantes estejam igualmente vulneráveis ao sofrimento psíquico. Nesse cenário, iniciativas de pesquisa, prevenção e cuidado em saúde mental dentro das universidades tornam-se estratégicas, não apenas para o bem estar dos estudantes, mas também como investimento em uma sociedade mais saudável a longo prazo.
Em levantamento divulgado pela Fapesp e coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os relatos de depressão (51%) e ansiedade (42%) tiveram prevalência entre alunos da UFSM e outras oito universidades públicas brasileiras. O número sinaliza que, entre os 748 entrevistados, um em cada quatro apresentou sinais de ansiedade grave ou depressão moderada.
No entanto, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com base na ciência, tem apostado no exercício físico como grande aliado do autocuidado e prevenção. O esporte, ofertado na instituição para alunos e servidores de forma gratuita, acaba agindo como uma poderosa ferramenta para o bem-estar.
Durante a produção do seu trabalho de conclusão de curso (TCC), a ex-aluna de Educação Física Estela Cantarelli Moro, de 24 anos, vivenciou um período de ansiedade intenso, provocado pelos compromissos acadêmicos e pelas exigências do TCC. Foi nesse contexto que ela passou a participar de aulas de yoga ministradas pela ex-doutoranda do Programa de Pós Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana (PPGDCH), Carla Emilia Rossato. A prática se tornou um ponto de equilíbrio em meio ao estresse. “Foi bem importante pra mim”, relata. Segundo Estela, as aulas ajudaram a “relaxar e se recompor mentalmente” durante um dos momentos mais importantes da graduação.

Prática de yoga desenvolvida no campus.
Experiência semelhante vivida pela estudante de Terapia Ocupacional, Fernanda Toillier, de 21 anos. Em meio à rotina intensa de estudos, ela encontrou no yoga um espaço de pausa, autocuidado e convivência. “Influenciou muito no meu bem-estar”, afirma. Além do relaxamento, Fernanda destaca que a prática em grupo favoreceu a criação de vínculos e ajudou a combater o isolamento, um problema comum entre estudantes que lidam com altos níveis de estresse.
A pesquisa de Carla abordou os “Efeitos do Yoga sobre o Equilíbrio Postural, Estresse Oxidativo e Qualidade de Vida de Universitários com Sintomas de Ansiedade e Depressão”. Segundo ela, o estudo buscou na yoga “investigar intervenções não farmacológicas, em um cenário no qual predomina a busca pela promoção da saúde que incentiva abordagens integrativas e acessíveis”. A pesquisadora reforça que esse movimento é fundamental no contexto universitário, diante da alta prevalência de sofrimento psíquico existente. Os resultados do estudo demonstraram que o programa gerou efeitos positivos na redução de sintomas de ansiedade e depressão, além de elevar os índices de qualidade de vida dos participantes. “Nosso estudo confirma a eficácia do yoga como uma intervenção terapêutica viável que possa minimizar o sofrimento psíquico no ambiente acadêmico”, ressalta.
Mas afinal, como a atividade física age no corpo?
O que explica a ciência
Os relatos refletem uma realidade cada vez mais frequente: sofrimento psíquico, estresse e adoecimento emocional. A combinação de fatores como distância da família, mudanças bruscas de rotina, avaliações constantes e pressão por desempenho tornam o ambiente universitário um espaço de alta vulnerabilidade ao adoecimento mental. Diante desse cenário, a atividade física tem sido uma das estratégias de enfrentamento a esses desafios, e de cuidado emocional e prevenção.
Para explicar como o exercício atua na saúde mental, a reportagem do VerdadeiraMente ouviu o pesquisador Felipe Schuch, ex professor da UFSM e uma das principais referências internacionais na área. Coordenador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Exercício Físico e Saúde Mental, Schuch integra o seleto grupo dos sete pesquisadores que mais influenciaram políticas públicas globais, segundo levantamento da Overton/Agência Bori. Atualmente, o pesquisador é professor em Melbourne, na Austrália, mas mantém seus programas de pós-graduação na UFSM. Seus estudos orientam decisões em saúde pública e reforçam o exercício físico como uma ferramenta acessível e baseada em evidências para a promoção da mente saudável.

Professor Felipe Schuch durante uma palestra. Foto: Arquivo Pessoal
Segundo Schuch, “ser fisicamente ativo faz com que a pessoa reduza os sintomas”. Isso ocorre porque o movimento estimula as sinapses (pontos de contato e comunicação entre neurônios) e fazem o organismo liberar neurotransmissores e hormônios associados ao prazer, à motivação e ao bem-estar. Entre eles estão a serotonina, dopamina e adrenalina. Também ntram em ação substâncias como as endorfinas, responsáveis pela sensação de alívio e prazer, além dos endocanabinoides, que são hormônios produzidos pelo próprio corpo, e possuem efeitos semelhantes à Cannabis. Esses efeitos ajudam a reduzir a dor e a ansiedade.
Outro mecanismo importante é a liberação do BDNF, fator neurotrófico (marcador de regeneração neuronal) derivado do cérebro. Esse hormônio evidencia um componente de crescimento dos neurônios, que atua como um “fertilizante” para o órgão. O professor explica que, em pessoas que possuem estresse elevado, depressão ou transtornos mentais, a perda de neurônios é maior e o cérebro acaba reduzindo de tamanho. No entanto, por meio da atividade física, o BDNF favorece o crescimento e a conexão entre os neurônios, contribuindo para a regeneração cerebral.
Além disso, a prática constante contribui para o controle do estresse ao regular os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, e reduzir processos inflamatórios associados à piora dos sintomas emocionais. O professor explica que esses benefícios podem ser percebidos tanto imediatamente quanto a longo prazo.
“Por exemplo, após uma sessão de exercício, é comum observar melhora do humor por algumas horas. Já a prática contínua, como por exemplo a musculação por três vezes na semana, promove mudanças duradouras no funcionamento do cérebro, ajudando a reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida”, explica o professor.
A reportagem também questionou Schuch sobre a maneira adequada para começar a praticar esporte quando se é sedentário. “Todo movimento conta”, ressaltou o professor. Para ele, só o fato de caminhar em um ambiente aberto, para tomar uma água e tirá-lo da cama, reduzindo o sedentarismo, já será o primeiro estágio. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 150 minutos de atividade por semana, porém, neste caso, “75 minutos já podem fazer diferença”, acrescenta.
Quem dispõe de mais tempo e tem maiores condições de praticar exercício, terá maiores benefícios. Entretanto, o professor aponta que “não é necessário realizar grandes quantidades”. Ele ainda enfatiza o que é mais importante para a constância: “encontrar uma atividade em que haja conexão e sentido”.
Os efeitos descritos pela ciência se refletem diretamente nas experiências de Estela e Fernanda, que encontraram no movimento uma forma de cuidado emocional, pausa e reconexão consigo mesmas e com os outros.
No entanto, Schuch enfatiza que, embora comprovadas as evidências de que a atividade física tenha eficácia no combate a transtornos psíquicos, ela jamais deverá substituir a procura por outros tratamentos, como o acompanhamento psicológico profissional: “Eu discordo completamente de qualquer intervenção que possa substituir qualquer outra intervenção. Muitas vezes, elas precisam de complementos. Uma só delas, em alguns casos, não irá funcionar”. Para ele, é muito importante saber qual é a melhor intervenção, para cada pessoa, naquele determinado momento.
Além disso, Schuch coordenou na UFSM o Estudo Nacional de Saúde Mental nas Universidades (Enasam-U). Dividido em duas etapas, a pesquisa tem como objetivo mapear a prevalência de condições de saúde mental no ambiente universitário, desconsiderando associações imediatas com fatores externos ou estilo de vida. A UFSM está entre as 10 universidades da região Sul que estão participando do estudo. A primeira etapa ocorreu em outubro de 2025. No total, 50 universidades públicas serão contempladas para a conclusão da pesquisa que tem como lema: “Por uma comunidade acadêmica saudável”.
Na tabela abaixo estão disponíveis os trabalhos mais recentes do professor e pesquisador:

UFSM promove esporte gratuito para comunidade, alunos e servidores
Além de ser um espaço de produção científica, a UFSM também promove o acesso à atividade física por meio de diversos programas gratuitos de esporte e exercício físico voltados a estudantes, servidores e a comunidade. As iniciativas atendem diferentes públicos e objetivos, promovendo saúde, bem-estar e qualidade de vida. As participações são todas gratuitas, ampliando o acesso a ações que unem ciência, movimento e cuidado com a saúde mental da comunidade acadêmica. Abaixo estão as atividades oferecidas pela universidade:
Como escolher o programa
Verifique se o público atendido corresponde ao seu vínculo com a UFSM, observe as modalidades oferecidas, os horários disponíveis e se há exigência de atestado médico. Considere também seus objetivos — como reduzir o estresse, melhorar o condicionamento físico ou socializar.
Movimenta: Programa de promoção de saúde Integral dos servidores da UFSM
MOVIMENTA: PROGRAMA DE PROMOÇÃO DA SAÚDE INTEGRAL DOS(AS) SERVIDORES(AS) DA UFSM
Responsável: Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (PROGEP)
Público: Servidores docentes e técnico-administrativos em educação ativos e aposentados da UFSM
Atividades: Corrida orientada; Ginástica laboral; Oficina de jardinagem; Padel; Pilates; Pilates online; Ritmos; Treinamento funcional; Treinamento de força; Vôlei; Yoga; Aikido (parceria com o Esporte Universitário); Atividades cognitivas e funcionais (parceria com o curso de Terapia Ocupacional) e Coral (Campus FW).
Onde acontece: Campus da UFSM (prédio 48c, Biblioteca Central, Sala de Ensaios, Centro de Convenções) e no prédio da Antiga Reitoria
Inscrições: As inscrições são realizadas através do Portal de Agendamentos da UFSM
Contato: 55 99615-8496 (WhatsApp) - movimenta@ufsm.br
Esporte Universitário
Responsável: Centro de Educação Física e Desportos (CEFD)
Público: Alunos
Atividades: Natação; Hidroginástica; Treinamento funcional; Pilates solo; Yoga; Dança fitness (ritmos latinos); Ginástica de academia; Futsal; Futebol; Vôlei; Basquete; Padel; Tênis; Dança de salão; Alongamento; Orientação; Atletismo; Grupo de corrida e caminhada orientada; Arte circense; Kendô, Judô, Jiu-jítsu; Taekwondo; Kung-fu; Capoeira; Musculação; Aikido; Meditação e Boxe chinês.
Onde acontece: Campus da UFSM
Inscrições: As inscrições são realizadas através do Portal do Aluno; Para se inscrever é necessário acompanhar os editais e os formulários lançados
Contato: esporteuniversitarioufsm@gmail.com
Corpo + e Dança +
Responsável: Centro de Educação Física e Desportos (CEFD)
Público: Qualquer pessoa com idade acima de 40 anos e idosos (60 anos ou mais) *levar atestado médico que libere a participação
Atividades: Ginástica e dança
Onde acontece: No Complexo Didático e Artístico (CDA), ao lado do CEFD
Quando: Todas as quintas-feiras das 15h30min às 17h30min
Programa Segundo Tempo
PROGRAMA SEGUNDO TEMPO (PST)
Programa Segundo Tempo - Universitário e Programa Segundo Tempo - Paradesporto
Responsável: Centro de Educação Física e Desportos (CEFD)
Público: Discentes da UFSM de nível médio, superior e pós-graduação (PST - Universitário)
Pessoas com deficiência (PST - Paradesporto)
Atividades: NÚCLEO UNIVERSITÁRIO
- Yoga: Segunda e quarta-feira das 11h30 às 13h;
- Voleibol misto: Terça e sexta-feira das 18h às 19h30;
- Ritmos/ginástica: Terça e quinta-feira;
– Turma 1: das 17h30 às 18h30;
– Turma 2: das 18h30 às 19h30;
- Treinamento funcional: Segunda, quarta e sexta-feira;
– Turma 1: das 17h30 às 18h30;
– Turma 2: das 18h30 às 19h30;
– Turma 3: das 19h30 às 20h30.
- Hidroginástica: Terça e quinta-feira das 11h30 às 13h.
Núcleo Paradesporto
NÚCLEO PARADESPORTO
Basquete em Cadeira de Rodas: Quarta-feira das 17h30 às 19h30;
Sexta-feira das 16h30 às 19h30;
Goalball: Segunda-feira das 17h30 às 19h30;
Sexta-feira das 13h30 às 16h30;
Escola/Instituição Especial: Segundas e Quintas feiras
Turma 1: Segunda-feira: 8h às 11h;
Turma 2: Quinta-feira: 8h as 11h.
Onde acontece: No campus da UFSM, e em escolas parceiras do projeto (PST-paradesporto)
Inscrições: As inscrições para as atividades acontecem via questionário disponibilizado no Portal do Aluno
Contato: pst.cefd@ufsm.br - @pstufsm no Instagram




