Nas situações em que o sofrimento psíquico se manifesta de forma aguda, como em surtos, tentativas de suicídio ou crises graves de ansiedade, o tempo de resposta é essencial para salvar vidas e evitar agravamentos. É nesse momento que entra em ação o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), desempenhando um papel fundamental no acolhimento imediato e no encaminhamento seguro de pessoas em crise. O atendimento qualificado e humanizado prestado pelas equipes do SAMU tem sido um importante elo entre a urgência emocional e o acesso à rede pública de saúde mental.
O aumento desse tipo de ocorrência vem sendo observado especialmente após a pandemia de Covid-19 e reflete uma realidade nacional: a saúde mental se tornou uma das principais demandas nos serviços de urgência e emergência do Sistema Único de Saúde (SUS). Frente a esse cenário, o SAMU de Santa Maria tem buscado se adaptar por meio de capacitações mensais, parcerias e estratégias de atendimento humanizado.
O SAMU é um serviço público e gratuito, vinculado ao SUS, que atua 24 horas por dia no atendimento pré-hospitalar de urgências clínicas, traumáticas e psiquiátricas. Através do número 192, a população pode acionar uma central de regulação que avalia cada caso e envia, se necessário, uma equipe especializada para prestar o atendimento no local da ocorrência.
Criado como parte da Política Nacional de Atenção às Urgências, o SAMU faz parte da Rede de Assistência Pré-Hospitalar Móvel do Ministério da Saúde, e é coordenado, em âmbito nacional, pela Secretaria de Atenção Especializada à Saúde (SAES).

Nilvo Garcia da Rosa, coordenador administrativo do SAMU de Santa Maria, e colega da equipe de suporte avançado. Foto: João Vitor
A nova face das urgências: um olhar do SAMU de Santa Maria
Nos últimos anos, o perfil das ocorrências mudou significativamente. Segundo Nilvo Garcia da Rosa, coordenador administrativo do SAMU de Santa Maria, aproximadamente um terço dos atendimentos mensais envolve situações de crise emocional, surtos, intoxicação por álcool e drogas ou tentativas de suicídio.
“Hoje temos entre 300 e 400 atendimentos mensais relacionados a surtos. E não são só quadros psiquiátricos clássicos. Muitas vezes, a chamada é por briga familiar, intoxicação, ou uma crise intensa causada por uso de substâncias. Tudo isso acaba caindo no escopo da saúde mental”, explica.
Antes da pandemia, o número de atendimentos com esse perfil era menor. Segundo o coordenador, a proporção de casos de trauma físico, que antes representava cerca de 35% das chamadas, caiu para algo em torno de 20%. O que cresceu foi a demanda por acolhimento psicológico imediato, muitas vezes em situações de alto risco.
A resposta do SAMU: técnica e sensibilidade
Para lidar com essas situações complexas, a equipe do SAMU de Santa Maria passa por capacitações mensais. Na primeira quinta-feira de cada mês, são realizadas reuniões com os profissionais para tratar de temas diversos, incluindo o atendimento em saúde mental.
“Já fizemos capacitações sobre surtos, contenção de pacientes agitados e até sobre os riscos para a equipe em atendimentos psiquiátricos. Um episódio grave, de uma colega que faleceu durante um atendimento em outra cidade, nos fez redobrar a atenção sobre segurança e preparo emocional para essas situações”, relata Garcia da Rosa.
A abordagem é sempre norteada por dois princípios: segurança e humanização. É preciso preservar a integridade física do paciente, da equipe e das pessoas ao redor, mas também é essencial oferecer acolhimento, escuta e cuidado sem julgamento.
“A gente não pode chegar com agressividade. Muitas vezes o paciente está fragilizado, a família também está em crise. O nosso desafio é manter a calma, oferecer ajuda e, ao mesmo tempo, proteger a todos”, completa Garcia da Rosa.
Quem são os pacientes?
Entre os principais perfis atendidos, Garcia da Rosa destaca casos de conflitos familiares, pessoas em uso abusivo de álcool ou drogas, surtos psicóticos e tentativas de suicídio. Em alguns casos, a equipe chega ao local e identifica que o chamado não era exatamente um surto, mas uma situação de violência doméstica ou desentendimento.
“Tudo isso se mistura. A linha entre crise emocional e outras formas de vulnerabilidade é muito fina. Por isso, o SAMU é chamado. A urgência está ali, mesmo quando não é visível”, afirma Garcia da Rosa.
Da crise ao cuidado contínuo
O papel do SAMU é prestar o primeiro atendimento e levar o paciente à porta de entrada da rede de saúde, que, em Santa Maria, são a UPA 24 horas ou o Pronto Atendimento do Patronato. A partir daí, o paciente pode ser encaminhado para um CAPS, internação hospitalar ou serviço especializado.
“A gente não leva diretamente ao CAPS porque, para o SAMU, essa é uma unidade de menor complexidade. O primeiro atendimento precisa ser em uma unidade com maior estrutura”, explica Garcia da Rosa.
Quando a segurança também precisa de apoio
Muitas das ocorrências exigem apoio da Brigada Militar para garantir a segurança da equipe e do paciente. Essa parceria é considerada fundamental para o sucesso dos atendimentos.
“Hoje temos uma relação muito boa com a Brigada. Isso melhorou muito. Eles garantem a segurança em situações de risco, como surtos graves, tentativas de autoextermínio e contenção de pacientes em crise”, diz Garcia da Rosa.
O SAMU de Santa Maria também investiu em equipamentos de contenção humanizados, acolchoados e seguros, que evitam lesões durante o atendimento de pacientes agitados.
Uma rede ainda em construção
Apesar dos avanços, o aumento na demanda é um desafio. O crescimento das crises emocionais desde a pandemia preocupa, especialmente por se tratar de doenças crônicas, que exigem tratamento contínuo, estrutura familiar e acompanhamento por profissionais de saúde.
“A saúde mental não se trata em uma noite. É um cuidado para a vida toda. Quando um elo dessa rede se rompe, seja a falta de medicamento, a ausência de apoio familiar ou a demora no atendimento, a pessoa descompensa de novo”, reflete Garcia da Rosa.
Experiência e resiliência na cidade Universitária
A cidade de Santa Maria tem histórico de traumas coletivos, como a tragédia da Boate Kiss, em 2013, e, desde então, investe em iniciativas para fortalecer a rede de atenção psicossocial. Um exemplo é o Programa Acolhe, criado para atender os familiares das vítimas da tragédia e hoje ampliado para atender outras demandas da população.
“Santa Maria vem tentando se estruturar melhor para lidar com essas situações. Claro que ainda há muito o que avançar, mas o fato de termos vivido grandes crises coletivas fez com que a cidade levasse esse tema mais a sério”, pontua Garcia da Rosa.
A população pode e deve acionar o SAMU sempre que houver uma situação de risco iminente: crises emocionais intensas, comportamento suicida, surtos, tentativas de autoagressão ou episódios de agitação extrema. Em todos esses casos, o número a ser ligado é o 192.
Já em situações menos urgentes, o ideal é buscar apoio nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde, serviços municipais de acolhimento em saúde mental ou o apoio emocional ofertado pelo Centro de Valorização da Vida (CVV – 188).
Texto: Rômulo Oliveira Tondo
Fotos: João Vitor
Transcição: Adriele de Farias e João Vitor





