Projeto da UFSM promoveu acolhimento emocional em escolas afetadas por desastres climáticos em 2024.

Em 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou uma das piores tragédias climáticas de sua história, com enchentes e deslizamentos de terra que devastaram comunidades e deixaram marcas profundas, especialmente nas crianças e adolescentes. Para mitigar os impactos psicológicos desses desastres, o projeto Tecendo Redes de Resiliência, coordenado pela professora Jana Gonçalves Zappe, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), levou apoio emocional a estudantes de três escolas de Santa Maria diretamente afetadas. As ações, realizadas entre maio e dezembro de 2024, buscaram promover resiliência por meio de atividades lúdicas e intervenções sistemáticas. 

Resiliência é a capacidade de um indivíduo se adaptar e se recuperar de situações difíceis, estresse, adversidades ou traumas, mantendo um bom funcionamento emocional e psicológico.

A iniciativa surgiu em um contexto de suspensão das atividades acadêmicas na UFSM, devido às enchentes e à greve universitária, o que permitiu à equipe direcionar esforços para atender comunidades em vulnerabilidade. O projeto focou em crianças e adolescentes de escolas próximas a áreas de risco, como a Vila Canário, no Morro Cechella, onde um deslizamento resultou na morte de uma estudante e sua mãe. “A proposta foi oferecer recursos para que as crianças pudessem lidar da melhor maneira possível com as consequências dos desastres”, explica a professora Jana.

Integrantes do projeto Tecendo Redes de Resiliência, da UFSM, levaram acolhimento emocional e atividades lúdicas a crianças e adolescentes de escolas de Santa Maria afetadas pelas enchentes de 2024 | Foto: Divulgação/ Jana Gonçalves Zappe

As intervenções ocorreram em duas fases. Na primeira, quase todos os estudantes e professores das três escolas participaram de atividades amplas de acolhimento. Na segunda, cerca de 90 estudantes, aproximadamente 30 por escola, receberam intervenções mais prolongadas e sistemáticas, voltadas para aqueles mais diretamente impactados. As atividades, realizadas de duas a três vezes por semana, utilizavam dinâmicas lúdicas, como brincadeiras, para engajar crianças e facilitar a superação de experiências traumáticas.

Os relatos coletados durante o projeto revelaram o impacto das enchentes nas crianças e adolescentes. Alguns descreviam experiências diretas, como evacuações, participação em operações de resgate ou acolhimento de familiares e membros da comunidade em suas casas. Outros traziam memórias desencadeadas pelo contexto dos desastres. “O que mais apareceu foram relatos de luto, de perdas, não diretamente das enchentes, mas de situações que as enchentes mobilizaram, como a morte de um familiar ou eventos traumáticos anteriores”, destaca Zapp.

Um desafio significativo foi a ausência de psicólogos e assistentes sociais nas escolas atendidas, apesar da lei federal que prevê a presença desses profissionais. Para contornar essa limitação, o projeto identificou pessoas-referência, como professores, para acolher demandas de saúde mental e articulou encaminhamentos para serviços externos, como o Acolhe Saúde, para casos de risco como autolesão ou comportamentos suicidas, além da clínica-escola de psicologia da UFSM e unidades de CRAS e CREAS. Protocolos foram deixados para que as escolas continuassem as intervenções de forma autônoma, mas a falta de profissionais especializados comprometeu a continuidade.

Veja mais momentos do projeto Tecendo Redes de Resiliência

Foto: Divulgação/ Jana Gonçalves Zappe

Narrativas locais também emergiram como um obstáculo. Na Vila Canário, moradores resistem a reconhecer a área como de risco, influenciados por histórias de que a classificação seria uma estratégia para remover a população e construir um “condomínio de luxo”. Outra narrativa sugere que o deslizamento no Morro Cechella foi causado por desmatamento intencional, com corte de raízes de árvores. “Essas histórias, ouvidas de crianças e professores, têm um impacto direto nas consequências psicológicas”, observa Zappe, destacando como essas crenças afetam a percepção de segurança e a recuperação emocional.

O projeto foi encerrado em dezembro de 2024, sem previsão de continuidade, devido à retomada das atividades acadêmicas regulares na UFSM. A falta de recursos e tempo inviabilizou a manutenção das ações, apesar do impacto positivo e da receptividade nas escolas. “Gostaríamos muito de dar continuidade, mas não conseguimos conciliar com nossas demandas acadêmicas”, lamenta Jana. Ainda assim, o Tecendo Redes deixa um legado de acolhimento, reforçando a importância de profissionais de saúde mental nas escolas e da articulação com redes de assistência social para enfrentar os impactos de desastres climáticos.

Onde buscar ajuda psicológica para crianças e adolescentes em Santa Maria

Embora iniciativas como o Tecendo Redes de Resiliência tenham oferecido apoio temporário nas escolas, o cuidado contínuo com a saúde mental de crianças e adolescentes é garantido pela Rede Pública de Atenção Psicossocial (RAPS). 

Em Santa Maria, o principal serviço voltado a esse público é o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i) – O Equilibrista, localizado na Rua Conrado Hoffmann, nº 100. O serviço funciona de segunda a sexta-feira, com atendimentos presenciais das 8h às 18h. Os números de telefone para contato são: (55) 3174-1582 e (55) 99148-5594.

Para atendimento não é necessário encaminhamento nem agendamento prévio.

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