Aplicada sob anestesia e com acompanhamento médico, a técnica é um recurso terapêutico eficaz utilizado no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM/UFSM) para o tratamento de casos graves e resistentes.

A eletroconvulsoterapia (ECT), no passado popularmente conhecida pelo termo eletrochoque, começou a ser utilizada no final da década de 1930, com os estudos de Ugo Cerletti e Lucio Bini. Nos anos de 1950, surgiram os primeiros medicamentos psiquiátricos, no entanto, a intervenção ainda era amplamente aplicada não só para tratamento, mas também como método de punição a pacientes que apresentavam comportamentos considerados rebeldes – prática denunciada em obras como o livro Holocausto Brasileiro, da jornalista e escritora brasileira Daniela Arbex. Durante séculos, pessoas consideradas ‘loucas’ foram trancafiadas em manicômios e submetidas a uma série de abusos. Foi apenas nas décadas de 1970 e 1980, com o início da Reforma Psiquiátrica, que essa realidade começou a se transformar.

Hoje, a prática de ECT é indicada para tratamentos psiquiátricos específicos. Com o avanço da ciência e da psiquiatria, a ECT evoluiu para um procedimento seguro, rápido e indolor, totalmente oposto da representação difundida em filmes, séries e de como era aplicado nos seus primeiros anos. 

Indicações, riscos e frequência da eletroconvulsoterapia 

A eletroconvulsoterapia não é a primeira opção de tratamento indicada por um médico psiquiatra, mas surge como uma alternativa quando todas as tentativas anteriores de intervenção não mostram resultados. Antes de ser encaminhado para a terapia, o paciente passa por uma série de avaliações que verificam a eficácia dos tratamentos farmacológicos convencionais. 

Regulamentada desde 2002 pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em casos em que as medicações não são suficientes, a ECT pode ser indicada, principalmente para pessoas com transtorno de humor bipolar, esquizofrenia e depressão resistentes. Considera-se resistente à medicação o paciente que utilizou dois ou mais medicamentos, em doses adequadas e pelo tempo recomendado pelo médico, mas ainda assim não apresentou melhora significativa para manter uma vida cotidiana satisfatória.

Mas afinal, como funciona esse procedimento? A ECT é um procedimento ambulatorial, ou seja, não exige internação hospitalar do paciente. A técnica consiste na aplicação de um estímulo elétrico de baixa intensidade por alguns milissegundos na região da cabeça do paciente. A sessão é realizada sob efeito de anestesia geral, geralmente associada ao uso de medicação (hipnóticos e miorrelaxantes), o que torna necessário que o paciente esteja acompanhado. Também é necessário que o paciente fique em observação após o procedimento, o que pode variar de minutos até uma ou duas horas. Todo o processo, que envolve a presença de um médico anestesiologista e um psiquiatra, dura em média de 10 a 15 minutos desde a entrada do paciente na sala até a recuperação. 

O tratamento não se resume a uma única aplicação. A frequência varia de acordo com a gravidade da doença, mas o protocolo inicial costuma prever 12 sessões, realizadas de duas a três vezes por semana. Após esse período, a equipe médica avalia a resposta do paciente ao tratamento. Caso haja melhora significativa, o protocolo pode ser prolongado, conforme necessidade clínica. 

Sala onde o procedimento é realizado | Foto: Mariângela Recchia/Ebeserh

A eletroconvulsoterapia é considerada um procedimento seguro, apresentando riscos semelhantes aos de qualquer outra intervenção que envolve sedação. Os efeitos colaterais imediatos mais frequentes da ECT são dor de cabeça, náusea e vômito, que variam conforme o anestésico utilizado. Antes de iniciar o tratamento, é necessário que o paciente assine um termo de consentimento, também entregue a um familiar, no qual constam informações detalhadas sobre a técnica e seus possíveis efeitos.

É importante destacar que a ECT ajuda a eliminar os sintomas de transtornos mentais, permitindo que o paciente viva de forma mais equilibrada e preserve sua qualidade de vida, assim como a de seus familiares. No entanto, isso não significa cura: a técnica não elimina a doença, apenas contribui para melhorar a convivência e o bem-estar do paciente.

“O procedimento é bem rápido, mas depende de conseguir  o acesso venoso para fazer a sedação, da anestesia fazer efeito e do tempo de recuperação. Às vezes, um paciente demora mais tempo para se recuperar, por causa dos efeitos do anestésico ou por causa da sensibilidade individual da pessoa”, explica o médico psiquiatra da unidade de Saúde Mental do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM/UFSM), Bernardo Dias Cechella, onde o tratamento é utilizado há mais de uma década.

Como a ECT atua? 

De acordo com o professor Mauricio Scopel Hoffmann, chefe do Departamento de Neuropsiquiatria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pesquisador associado da London School of Economics and Political Science (LSE), a melhora clínica observada em pacientes submetidos à ECT está relacionada a uma série de processos fisiológicos desencadeados pela passagem da corrente elétrica no cérebro. Segundo ele, o tratamento com ECT ajuda o cérebro a “se organizar de novo”.

Mauricio explica que embora nem todos os mecanismos sejam totalmente compreendidos, sabe-se que o estímulo elétrico provoca uma despolarização maciça dos neurônios, resultando em uma hiperexcitação cerebral com liberação de glutamato, principal neurotransmissor excitatório. Em seguida, ocorre uma fase de hiperpolarização mediada pelo neurotransmissor GABA, de ação inibitória, que induz um estado de “silêncio” cerebral temporário.  

Em resumo, ele explica que, quando a corrente elétrica passa pelo cérebro, ela faz com que os neurônios, que são as células que transmitem informações, fiquem muito excitadas por um instante. Logo depois, o cérebro entra em um momento de calma, como se ficasse em silêncio por alguns segundos. Esse movimento de agitação e depois descanso faz com que as partes do cérebro voltem a trabalhar juntas, reorganizando conexões entre áreas que, em transtornos mentais, costumam estar dessincronizadas, quase como quando reiniciamos um computador para que ele volte a funcionar melhor.

Com o passar das sessões, o cérebro também começa a produzir substâncias que ajudam as células a crescerem e se conectarem de novo, deixando-o mais saudável. 

“A ECT é indicada, sobretudo, para casos graves e resistentes a outros tratamentos, como depressões refratárias e estados de catatonia – em que o paciente pode ficar mudo, imóvel e sem responder a estímulos. Em muitos desses casos, poucas sessões são suficientes para que o paciente apresente melhora significativa, voltando a falar, e melhorando o humor e até mesmo se afastando de pensamentos de morte. O tratamento também se mostra eficaz em quadros de esquizofrenia, principalmente na redução de alucinações e outros sintomas psicóticos”, destaca Mauricio.

Os estigmas 

Mesmo sendo uma prática defendida pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), este tratamento é frequentemente alvo de preconceito e de representações exageradas e falsas. Em 2018, a Rede Globo de Televisão reforçou esse cenário ao exibir, na novela “O Outro Lado do Paraíso”, a cena em que a personagem Sophia (Marieta Severo) recebia o tratamento de eletrochoque como castigo por ser psicopata e criminosa. Na ocasião, a ABP reagiu emitindo uma nota de repúdio que classificou a representação como um desserviço à população. Tais retratações fantasiosas são prejudiciais: elas disseminam medo e desinformação, o que pode levar pacientes a recusar um método terapêutico eficaz e necessário para a sua saúde.

Disponibilidade no HUSM 

O procedimento está disponível no Hospital Universitário há pelo menos 15 anos, sendo o único hospital no interior do Rio Grande do Sul que oferece o tratamento.

Preceptor da ECT há 3 anos no HUSM, Bernardo conta que a maioria dos pacientes sai satisfeita com os resultados e que as famílias percebem uma melhora significativa na qualidade de vida, sobretudo em casos graves em que outros tratamentos não tiveram efeito. Muitos pacientes que não conseguiam retomar suas atividades sociais ou familiares alcançaram recuperação, fazendo da ECT um recurso terapêutico de grande impacto no hospital.

Médico confere os equipamentos de apoio antes do procedimento | Foto: Mariângela Recchia/ Ebeserh

Por décadas, pacientes do Hospital Colônia de Barbacena, no Brasil, sofreram com o uso abusivo do eletrochoque, aplicado como forma de represália e responsável por provocar dores, lesões e traumas profundos. Em contraste com esse passado marcado pela violência, a eletroconvulsoterapia disponível hoje em alguns serviços de saúde representa uma alternativa eficaz para pacientes que não encontram melhora em outros tratamentos psiquiátricos. Os estudos são consensuais ao mostrarem a evidência de eficácia do procedimento, que mostra uma melhora clínica importante em pacientes resistentes a outros tratamentos psiquiátricos. 

 

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