A exposição e a adultização digital colocam a infância em risco e exigem diálogo e limites no ambiente familiar.

Foto: Antonio Castellano / unsplash
Quando o youtuber e influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, publicou um vídeo denunciando perfis nas redes sociais que sexualizavam e expunham crianças, o assunto rapidamente se tornou um dos mais comentados do país. Apesar de discutido há anos por especialistas e entidades de proteção à infância, o tema ganhou nova visibilidade após a repercussão do vídeo. Reacendeu o debate sobre exposição infantil e adultização digital, duas questões diferentes, mas que acabam andando juntas no ambiente online.
Em Santa Maria, Pelotas e Rio Grande, a proteção desse público é realizada pelas Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). No estado, as DPCAs integram a estrutura da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, que conta com unidades especializadas em diferentes municípios. Em nível nacional, a rede de proteção inclui órgãos como o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e os Conselhos Tutelares, que atuam na prevenção, investigação e acolhimento de vítimas.
A exposição infantil acontece quando pais, responsáveis ou produtores de conteúdo compartilham em excesso a rotina de crianças na internet, muitas vezes em busca de engajamento ou lucro. Já a adultização digital aparece quando menores passam a imitar atitudes, modos de falar e aparências típicas de adultos, influenciados pelas redes e pela lógica de visibilidade. A estratégia faz com que, quem chama mais atenção e gera mais curtidas, apareça com mais frequência para o público.
Conteúdos que violem direitos das crianças podem ser denunciados de forma anônima pelo Disque 100 ou diretamente nas plataformas, usando as ferramentas de denúncia.

De acordo com a SaferNet Brasil, organização que monitora e recebe denúncias de crimes e violações de direitos humanos na internet, entre 1º de janeiro e 31 de julho de 2025 foram registradas 49.336 denúncias de abuso e exploração sexual infantil online no Brasil, um aumento de quase 19% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os casos representam 64% das notificações de crimes cibernéticos no país e mostram como a violência digital contra menores vem crescendo, agora potencializada pelo uso de inteligência artificial para manipular e criar imagens de abuso.
A preocupação com esse tipo de conteúdo também aparece na opinião pública. Um levantamento da Ipsos-Ipec, divulgado pela Jovem Pan mostra que a maioria dos brasileiros apoia medidas de proteção, como a remoção de conteúdos que incentivem a adultização de crianças e adolescentes e o monitoramento do uso das redes por pais e responsáveis.
Para entender como as próprias plataformas digitais contribuem para ampliar a exposição infantil, o Verdadeiramente ouviu a professora e pesquisadora Georgia Cruz, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante da ReCria, Rede de Pesquisa em Comunicação, Infâncias e Adolescências.
Os algoritmos das redes sociais são sistemas usados pelas plataformas para decidir o que aparece no feed de cada usuário. Eles funcionam a partir de métricas como curtidas, comentários, compartilhamentos e tempo de visualização. Quanto maior o engajamento de um conteúdo, mais ele é recomendado e exibido para outras pessoas, ampliando seu alcance.
Nesse cenário, Georgia explica que “muitos dos algoritmos das plataformas digitais são programados de modo a aumentar o tempo de permanência do usuário”. Segundo ela, conteúdos que despertam emoções fortes tendem a se sair melhor nesse sistema, e vídeos com crianças costumam gerar esse tipo de reação, o que faz com que sejam mais compartilhados e divulgados para outras pessoas.
A pesquisadora destaca que a própria estrutura das plataformas estimula esse ciclo. “A arquitetura das plataformas estimula o compartilhamento de conteúdos com crianças, fazendo com que tenham mais chances de viralização”, afirma. Ao perceberem que esses vídeos geram mais curtidas e visualizações, criadores de conteúdo acabam repetindo o formato, ampliando a exposição infantil.
Georgia também chama atenção para o modelo de negócios das redes sociais, baseado na coleta de dados, visualizações e anúncios. “A economia da atenção se beneficia tanto dos dados produzidos sobre e pelas crianças quanto do engajamento de outras faixas de público que esses conteúdos atraem”, explica. Nesse modelo, segundo ela, a proteção infantil tende a não ser prioridade, já que não contribui diretamente para o lucro das plataformas.
Ela reforça que o problema da adultização e da sexualização de crianças não é novo, mas se torna mais grave no ambiente digital. “O que esses estudos demonstram é que, com o digital, há uma complexificação desse tema, já que ocorre uma mudança de escala”, afirma. Segundo a pesquisadora, a internet facilita tanto a apropriação quanto a difusão dessas imagens, além de poder facilitar a conexão entre redes de abusadores e pedófilos.
Além disso, a lógica de visibilidade coloca crianças e adolescentes em situação de maior vulnerabilidade. A exposição constante pode abrir espaço para cyberbullying, assédios e outras formas de violência, além de comprometer a privacidade e o desenvolvimento emocional.
Georgia reforça que qualquer conteúdo envolvendo crianças deve partir do princípio do melhor interesse da criança. É preciso refletir se aquele material preserva a intimidade, se não expõe a criança ao constrangimento e quem terá acesso a esse conteúdo. “Uma vez que está na internet, é muito difícil que aquela imagem ou aquele vídeo deixe de circular”, conclui.
Um exemplo recente desse fenômeno é o caso do influenciador Hytalo Santos, que ganhou repercussão nacional após as denúncias feitas por Felca e veículos de comunicação sobre a forma como menores de idade apareciam em seus vídeos. Os jovens viviam em uma casa sob responsabilidade do influenciador, que dizia oferecer acolhimento e suporte. Na prática, segundo relatos e investigações, o ambiente funcionava como uma espécie de “fábrica de conteúdo”, onde os menores eram incentivados a agir, falar e se comportar como adultos diante das câmeras. Vídeos mostravam situações consideradas inadequadas para a idade, com falas, gestos e encenações de alto teor sexualizado, o que levantou suspeitas de exploração e colocou a conduta de Hytalo sob suspeita.
O caso chamou atenção por mostrar o quanto a busca por audiência pode ultrapassar limites, transformando menores em personagens de conteúdos que não compreendem plenamente e que podem causar danos emocionais, sociais e até legais a longo prazo.
Hytalo Santos está preso preventivamente desde 15 de agosto de 2025. Ele foi detido na Grande São Paulo por ordem da Justiça da Paraíba, no âmbito de uma operação conduzida pelo Ministério Público da Paraíba (MPPB) com apoio do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), sob acusação de crimes graves: exploração e exposição de menores em conteúdos para redes sociais, tráfico de pessoas e produção de material pornográfico infantil. Ele já se tornou réu no processo, mas as investigações seguem em andamento e não há condenação definida até o momento.
A psicóloga Giovana Farias Negrini, formada pela Universidade Franciscana e pós-graduada em Psicopedagogia e Neuropsicologia, atua há cinco anos atendendo crianças e adolescentes. Ela alerta que “o excesso da internet causa dificuldades de concentração, irritabilidade, alterações no sono e queda no rendimento escolar. A comparação constante com os outros gera ansiedade e baixa autoestima”.
Giovana explica que esses impactos estão aparecendo cada vez mais cedo e que o uso saudável só existe quando “a internet está a serviço da vida da criança”, e não quando ocupa o lugar de atividades importantes como brincar, praticar esportes ou conviver com outras crianças. Ela reforça que o diálogo dentro de casa precisa começar cedo e que os responsáveis devem acompanhar o que os filhos consomem nas redes. Segundo ela, não basta apenas impor regras: “não adianta proibir o uso das telas se os pais passam o dia inteiro no celular”.
A adultização infantil também preocupa. Giovana afirma que esse fenômeno aparece quando a criança passa a adotar comportamentos adultos, como roupas, maquiagens, falas e danças com teor sexualizado. “Isso acelera uma maturidade emocional que ainda não existe, gerando ansiedade, insegurança e distorções na forma como ela se enxerga.”
Quem também observa esse processo é a psicóloga Joana Missio, formada em Psicologia pela UFSM e doutoranda em Psicanálise na UFRGS. Para ela, adultizar uma criança significa “demandar dela competências cognitivas, sociais e emocionais que ela ainda não possui, e nem tem ainda condições de possuir”. Joana afirma que, nas redes sociais, isso aparece “nas falas adultas prontas que são convocadas a fazer nos vídeos, nos looks que imitam adultos, nas makes, nos recebidos que viram propaganda e no jogo de likes e compartilhamentos que a criança entra e passa a desejar também”.
Joana explica que o contato antecipado com o universo adulto pode gerar efeitos como perda da espontaneidade, sensação de responsabilidade exagerada e emoções como medo, culpa ou retraimento. Ela também comenta como a busca por validação interfere no desenvolvimento emocional. Para isso, recorre ao conceito de Freud chamado “sentimento de si”, que descreve como a criança constrói a noção do próprio valor a partir da relação com o outro. Joana questiona: “que outro é esse que a rede social oferece? Um outro que mede o sujeito pelas métricas, engajamento e número de curtidas?”. Para ela, essa lógica enfraquece a capacidade da criança de imaginar, criar e desenvolver sua própria história.
As duas profissionais concordam que a exposição excessiva faz a criança se ver pelo olhar dos outros e buscar aprovação constante. Para evitar isso, Joana defende que as famílias criem um ambiente de confiança, com “escuta disponível e sem julgamentos”, e que estabeleçam limites claros para o uso das telas. Giovana acrescenta que incentivar atividades fora da internet — como esportes e brincadeiras — fortalece vínculos familiares e ajuda no equilíbrio emocional.
Nos casos em que o ambiente digital já causa sofrimento, Giovana explica que a terapia ajuda a ressignificar essas experiências e trabalhar habilidades sociais e autoestima.
O avanço da tecnologia torna o desafio de proteger a infância ainda mais urgente. A Lei nº 15.211/2025, também conhecida como ECA Digital, foi sancionada e institui regras mais rígidas para garantir a segurança de crianças e adolescentes no ambiente digital.




