Obra aborda memória, acolhimento e vulnerabilidade na maior casa de estudantes da América Latina

Na UFSM, a Casa do Estudante Universitário (CEU) carrega, nos vincos das paredes, um pouco de quem já fez da Universidade sua própria casa. Camadas de tinta descascadas, assinaturas antigas e objetos esquecidos contam histórias de diversos autores desconhecidos. Transformar esses detalhes em memória coletiva por meio de registros, lembranças e relatos sobre a vida no campus é o objetivo do documentário Morada.

O curta-metragem Morada, com direção e roteiro de Neli Mombelli, retrata a história de Eduarda Magalhães, estudante da UFSM e residente da Casa do Estudante Universitário II (CEU II). Foto: João Pedro Ribas – TV OVO

Estreado no mês de novembro no Quinthall – projeto que visa ações de bem-estar e convivência para os estudantes da federal -, o curta-metragem retrata narrativas e desafios vivenciados por moradores da CEU em diferentes épocas. Segundo a diretora Neli Mombelli, a ideia surgiu quando a estudante de Artes Visuais, Eduarda Magalhães, compartilhou uma descoberta em seu apartamento na Casa do Estudante Universitário CEU II, o n.º 1350. No buraco da cozinha de um apartamento de dois lugares, a universitária, que mais tarde se tornaria protagonista da obra, encontrou um papel amassado deixado por antigos moradores.

Com o lançamento do Edital nº 002/2023 da Lei Paulo Gustavo, política pública federal de fomento à cultura executada de forma descentralizada por estados e municípios, lançado por meio da Secretaria de Cultura de Santa Maria, a documentarista decidiu inscrever o curta, realizado por D. Copetti Produções e TV Ovo. A obra foi contemplada para captação e execução dos recursos no âmbito da Secretaria de Cultura do município, o que, para Neli, possibilita o aprimoramento profissional, técnico e criativo na área audiovisual.

O trailer do documentário Morada está disponível no vídeo abaixo.

Muitas camadas de tinta, diversos olhares
Uma das reflexões do documentário cita que as inúmeras demãos de tinta barata sobre as paredes instigam quem as observa a imaginar o motivo de cada uma das marcas feitas pelos ex-moradores. A casa, que representa acolhimento e segurança, também expõe, por vezes, um outro lado: a vulnerabilidade de quem a habita.

O jornalista João Pedro Sousa, que é também mestrando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFSM (POSCOM), entende que o documentário traz à tona um reflexo emocional dessa fase de estudos. “Apesar de apontar alguns problemas da CEU, o filme também fala de laços criados. Isso me tocou, porque percebi que também faço parte da vida de colegas com quem morei. A casa me trouxe a possibilidade de ingressar no ensino superior e permanecer”, relata.

Para o ex-estudante do curso de Engenharia de Telecomunicações da UFSM, Leonardo Paines, a obra mostra como a CEU e os estudantes sobrevivem ao tempo e à precarização. “Esse tipo de produção faz refletir sobre a luta do movimento estudantil pela melhoria de condições para essas pessoas que enfrentam algum tipo de vulnerabilidade na UFSM. Passei por aqui [campus] e não morei na CEU, então, não consigo mensurar a dificuldade que é estar longe da família, em um ambiente dividido com várias pessoas, em um lugar que não é a tua casa”, afirma.

Uma rotina cerrada pelo arco da UFSM
Um dos personagens do documentário é William Nielow, que, assim como a protagonista Eduarda, encontrou registros históricos em seu apartamento. Licenciado em Dança pela UFSM e morador da CEU desde 2019, o jovem considera que o programa de acolhimento da UFSM se amplia a cada ano, mas que o adoecimento é notável entre os moradores da CEU. “A Universidade oportuniza múltiplas vivências e interações, mas passar 24 horas aqui é exaustivo, com estudo, casa e lazer no campus. O futuro somos nós, o futuro passa por esse caminho que trilhamos agora”, desabafa.

De acordo com um estudo realizado entre agosto e novembro de 2022 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um em cada quatro estudantes do ensino superior brasileiro apresenta indícios de transtorno mental. A pesquisa, aplicada a 748 estudantes de nove instituições de ensino superior público, apontou a incidência de depressão em 51% e de ansiedade em 42,5% dos entrevistados.

Segundo a psicóloga Amanda Schreiner Pereira, que atua no Setor de Atenção Integral ao Estudante (SATIE) vinculado à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE), não se pode reduzir a afetação psicológica dos estudantes a uma causa única. Ela explica que existe uma multiplicidade de fatores sociais, pessoais e universitários que, somados, compõem a saúde mental.

A profissional aponta que relacionamentos com professores e colegas, história de vida, consolidação de identidade profissional e o modo como os estudantes se percebem dentro do contexto universitário podem influenciar o estado psicológico de cada indivíduo. Além disso, deve-se considerar o excesso de carga horária, nível de exigência em relação aos processos de formação e o gerenciamento da vida acadêmica associado à vida interpessoal como um todo.

Amanda destaca que o acolhimento estudantil na UFSM é realizado por diversos atores, indo desde a “ponta” nos Setores de Apoio Pedagógico (SAPs) até os setores especializados como o SATIE e a Coordenadoria de Ações Educacionais (CAED). “Em uma universidade tão grande e plural, o acolhimento reforça a sensação de pertencimento e orienta os estudantes para que a permanência e a formação sejam fortalecidas”, afirma.

Paredes e vidas marcadas pelo lar transitório
O conceito de não-lugar, desenvolvido pelo antropólogo francês Marc Augé, descreve espaços anônimos e transitórios, baseado em relações contratuais e temporárias, sem a identidade de um lugar tradicional. Para o autor, um lugar só passa a existir quando ganha valor identitário, histórico e relacional. Nesse sentido, a CEU, embora seja um local de abrigo finito, pode ser considerada um lugar para muitos estudantes.

Conforme a psicóloga Amanda, desde que nascemos, somos situados como sujeitos a partir de um determinado lugar imaginário-simbólico no mundo. “Quando nascemos somos marcados por traços familiares e localizados em um contexto social. Essas são ofertas de lugares de pertencimento. A migração para a Universidade, portanto, ganha significado e é ressignificada conforme a história pessoal de cada um. Muitos estudantes têm a universidade como um destino traçado há anos, um sonho. Neste sentido, para conseguir permanecer com qualidade na UFSM, o que dá condições de investir na formação é se sentir pertencente a ela”, explica.

A concepção do que é um lar pode variar de acordo com cada pessoa. Conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma habitação saudável inclui, além de infraestrutura digna, um sentimento de pertença, segurança e privacidade. Para Nielow, casa é um lugar de acolhimento e conforto: “muitos lugares podem ser casa e a UFSM foi uma ótima casa para mim nos últimos anos”, afirma.

O jovem destaca que o curta evidencia que esse lugar transitório é marcado por rastros que as pessoas deixam de suas histórias. “A CEU foi importante para eu entender meu ciclo de passagem. Os amigos que fazemos aqui dentro se tornam nossa família, nosso refúgio dentro de um espaço de estresse e cansaço. A rede de apoio também é uma casa”, conclui. 

Exibição do documentário no Quinthall. Foto: Yorhan Rodrigues/ TV Ovo

Como acessar os serviços de acolhimento e apoio psicológico na UFSM?
As ações são fundamentais e vão ao encontro do objetivo do SATIE, que é  a melhoria da qualidade de vida do estudante no contexto universitário. Assim, o SATIE investe em espaços que favoreçam a permanência de qualidade aos estudantes, prioritariamente aos estudantes em condições de vulnerabilidade socioeconômica que acessam o Benefício Socioeconômico (BSE).

O setor é responsável por projetos como Quinthall e O que não está no Lattes, voltados à promoção de saúde mental através de ações de cultura, esporte e lazer, abertos a todos os estudantes da UFSM. Ainda, para os estudantes com BSE, é disponibilizado um acolhimento individual em saúde mental, um espaço de escuta sobre as questões que afetam a qualidade de vida estudantil e a permanência na UFSM, pensando estratégias e articulações que possam contribuir para o bem-estar dos estudantes e enfrentamento das dificuldades e desafios da formação.

O Acolhimento é realizado por profissionais da psicologia e do serviço social e pode ser acessado por meio do preenchimento de um formulário pelos estudantes. O documento está disponível neste link.

 

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