Cuidativa busca aliviar o sofrimento com atenção integral à saúde física, emocional e social de pessoas que estejam enfrentando doenças graves

Referência regional em cuidados paliativos pelo SUS

A Faculdade de Medicina, Psicologia e Terapia Ocupacional (Famed) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) possui, há nove anos, um Centro Regional de Cuidados Paliativos, o Cuidativa, referência regional na área pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O local oferece atendimento ao público por meio do ambulatório interprofissional, da reabilitação física ou funcional e das práticas integrativas complementares (PICs).

Fachada do Centro Regional de Cuidados Paliativos – o Cuidativa – Famed/UFPel. Foto: Andrine Teixeira

Em 7 de maio de 2024, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP), que amplia e organiza esse tipo de atendimento dentro do SUS. A iniciativa prevê a formação de mil e 300 equipes em todo o país, preparadas para oferecer cuidado integral e humanizado a pacientes em diferentes estágios de doença. Na macrorregião Sul , a Cuidativa é responsável pelo matriciamento de 27 municípios com estratégia de teleconsultoria e educação permanente para profissionais da rede SUS.

Mas para tudo isso acontecer, a participação de um movimento social foi necessária. A Frente PaliAtivistas foi uma das grandes responsáveis pela mobilização que gerou a criação da PNCP, durante a 17ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 2023. A iniciativa, que surgiu na própria Cuidativa, espalhou-se pelo Brasil e busca a conscientização e mobilização da sociedade para a defesa e garantia de políticas públicas em cuidados paliativos, atuando na educação, no engajamento político e na construção de espaços para a melhoria do cuidado.

Atendimento que vai além da consulta médica

O acesso ao Cuidativa é feito por meio de qualquer serviço de encaminhamento do SUS, como Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e hospitais. Algumas atividades são abertas à comunidade – como a dança circular, que é uma PIC, e acontece toda quarta-feira à tarde. Na tarde de terça-feira, também ocorre uma oficina de atividades comunitárias e coletivas, na qual se reúne um grupo de pessoas para fazer tricô, crochê e fuxico. Parte das produções é vendida para retroalimentar a atividade. “O objetivo é ir além de consultas e receitas médicas”, afirma a docente do departamento de clínica médica e da área de cuidados paliativos da UFPel, Julieta Fripp, coordenadora do Cuidativa. Ela assegura que “existe um contingente de pessoas em sofrimento, mas que muitas vezes encontram na Cuidativa um espaço que costumam chamar de casa, de família”. 

Julieta Fripp é docente do Departamento de Clínica Médica da UFPel, coordenadora do projeto Cuidativa e integrante da Comissão Executiva da Frente PaliAtivista. Foto: arquivo pessoal

Eles fazem várias atividades do dia a dia para que a vida de quem convive com a doença seja o mais normal possível. Tem, por exemplo, sessão de cinema com pipoca (Cine Cuidativa), brechó, oficinas de artesanato, academia com musculação e pilates. E, no lugar de chamar de “paciente”, eles preferem usar o nome da pessoa, para que ela não seja vista só pela doença.

 

Cuidado integral inclui atenção à saúde mental
O atendimento psicológico no Cuidativa é realizado por um único estagiário, Anderson Colvara, que está no décimo semestre de Psicologia na UFPel. Cada pessoa atendida tem uma consulta por semana marcada com ele. Além disso, há voluntários que oferecem apoio psicológico fora do Centro. O trabalho segue a abordagem psicossomática, que considera a relação entre corpo e mente. A ideia é entender e validar os sentimentos de cada pessoa, pois isso influencia diretamente no seu bem-estar. A saúde mental é acompanhada levando em conta a história, o contexto e as necessidades individuais de cada um.

“A gente vai vendo a evolução do paciente e vendo a construção das ferramentas que ele está tendo para lidar com isso (a doença) […] A saúde mental é uma questão ampla, então tem as PICs, assistência médica, fisiatra, fisioterapeuta. É todo esse cuidado integral, indo além apenas da parte psicológica. A Cuidativa trabalha muito com esse acolhimento”, declara Colvara. Mônica de Souza Cruz, 49 anos, possui fibromialgia e lúpus. É paciente do Cuidativa e afirma estar se sentindo mais confortável com os cuidados paliativos. Além disso, conta que o acompanhamento psicológico tem ajudado a lidar com a hiperatividade, a deixando mais calma e com mais aceitação, a lidar melhor com seus problemas e com a doença. “Aprendi a esperar e amadurecer, passando a ver a vida com outros olhos. A medicação, chás e o pilates tem influenciado muito na minha qualidade de vida, trazendo melhora na saúde mental e mais força para continuar com o tratamento”, declara. 

Cuidativa busca criar ambientes acolhedores para que os pacientes sintam-se mais confortáveis, sem a memória da doença. Foto: Andrine Teixeira

O médico da família e comunidade Ari Vieira Lemos Junior, mais conhecido como Doutor Alegria, afirma que a saúde mental é extremamente importante dentro desse contexto de doenças ameaçadoras à vida, pois o sofrimento que elas causam acabam desencadeando problemas psicológicos, como depressão. Esses acolhimentos acontecem também por meio da medicina da família e comunidade, fazendo uso de ações da Psicologia, Educação Física, PICs e brincadeiras. O suporte funciona por meio desse conjunto, sem focar objetivamente na doença ou em medicamentos, mas como resultado da soma desses vários fatores, para que o ambiente seja acolhedor e o usuário se sinta bem. Em busca disso, o Dr. Ari veste uma peruca e passa a atender os pacientes com humor, tendo como bordão “entrou em uma fria, vai consultar com o Dr. Alegria!”.

Projeto de hospice amplia o cuidado em fases avançadas da doença
A administração do Cuidativa está construindo um
hospice, espaço dedicado a pessoas que estejam com doenças letais, quando os tratamentos voltados à busca da cura não agem mais e somente os cuidados paliativos podem ajudar. O serviço irá disponibilizar 20 leitos, transformando o Centro em espaço de cuidado 24 horas. Nele, um paciente em cuidados paliativos que necessite de internação poderá ficar no local, em vez de ser encaminhado a um Pronto Socorro. “Vai ser usado para preservar a dignidade das pessoas, oferecer suporte psicológico, realizar desejos finais, trazer pets, fugir do engessamento tradicional de hospitais”, assegurou a coordenadora Julieta.  A obra ainda não foi concluída e a verba está sendo levantada por meio de doações e emendas parlamentares.

Hospice segue sendo uma luta do Cuidativa, que realiza campanhas de arrecadação de verbas para a conclusão das obras. Foto: Andrine Teixeira

Além dos cuidados já oferecidos, o Cuidativa foi selecionado pelo governo do Estado para participar do Programa Saúde 60+. O programa garante atendimento especializado para pessoas idosas, buscando fortalecer o cuidado com a saúde na terceira idade, com foco na autonomia, qualidade de vida e atenção integral. Para isso, o serviço passa a receber um valor mensal fixo de custeio, entre R$120 mil e R$130 mil, conforme a composição da equipe.

Localizado no antigo prédio da Laneira Brasileira S/A, na avenida Duque de Caxias n° 104, o Centro Regional de Cuidados Paliativos da UFPel funciona  de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. Mais informações podem ser buscadas pelo telefone (53) 99175-7529.

Deixe uma resposta