Experiência no sul do estado articula cirurgia, saúde mental e trabalho em rede.

Fachada do Hospital Universitário da Furg – Foto: Jorgito Santos – Divulgação: UCR15 – HU-Furg/Ebserh
Criado em 2004 a partir de uma mobilização nacional de travestis e transexuais, o Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, passou a integrar o calendário político brasileiro como um marco de reivindicação por reconhecimento, direitos e acesso a políticas públicas. Ao longo de duas décadas, a data consolidou-se como espaço de debate sobre cidadania e identidade de gênero, mas segue atravessada por um cenário de violência estrutural.
Dados do Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2025, elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), indicam que 80 pessoas trans foram assassinadas no Brasil no último ano. Embora o número represente uma redução de 34% em relação a 2024, a entidade ressalta que a queda não corresponde a uma melhora substantiva, sendo influenciada por subnotificação, retração da cobertura jornalística e fragilidade das políticas públicas de enfrentamento à transfobia.
Nesse contexto, iniciativas voltadas ao acesso à saúde pública têm sido apontadas como estratégias centrais para a redução de vulnerabilidades e a promoção da autonomia de pessoas trans. Instituído no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2008, o Processo Transexualizador ampliou o reconhecimento da identidade de gênero como dimensão legítima do cuidado integral. A experiência do Hospital Universitário Dr. Miguel Riet Corrêa (HU-Furg/Ebserh), em Rio Grande (RS), insere-se nesse movimento ao tornar-se, em 2024, o primeiro hospital do interior gaúcho habilitado para realizar cirurgias de redesignação sexual pelo SUS. Ao articular procedimentos cirúrgicos e acompanhamento psicológico contínuo, a instituição conecta a visibilidade simbólica da data à efetivação de direitos, ampliando o acesso a um atendimento historicamente concentrado nas capitais e reafirmando a saúde mental como eixo estruturante do cuidado.
O HU-Furg/Ebserh, no município de Rio Grande (RS), tornou-se, no início de 2024, o primeiro hospital do interior do estado a integrar a rede do Sistema Único de Saúde (SUS) responsável pelo processo transexualizador – conjunto de cuidados e procedimentos oferecidos pela política de saúde brasileira para pessoas transgênero, que visa alinhar corpos e características às identidades de cada paciente.
A habilitação permite que a instituição realize cirurgias de redesignação sexual e acompanhamento especializado, ampliando o acesso a um direito que, até então, se concentrava na capital gaúcha. Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, 27 unidades de saúde estão habilitadas para oferecer serviços relacionados ao processo transsexualizador.
Mais do que oferecer procedimentos cirúrgicos, a estrutura montada pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg) tem como pilar o cuidado psicológico contínuo — etapa prevista nas normas do Ministério da Saúde como indispensável à segurança e à autonomia das pessoas trans e travestis que optam por iniciar o processo de transição.
O interesse por implementar o serviço no interior gaúcho nasceu na Unidade de Saúde da Mulher do HU-Furg — espaço que, desde 2024, passou a receber encaminhamentos de ambulatórios destinados aos pacientes transexuais. Segundo a psicóloga hospitalar do HU-Furg, Jéssica Mareque, a maior parte dos pacientes são encaminhados por ambulatórios pelotenses da Beneficiência Portuguesa e do Hospital Escola.
O fluxo articulado entre os serviços das cidades vizinhas, por exemplo, garante que o paciente não chegue ao hospital de forma isolada, mas já inserido em uma rede de cuidado anterior, fundamental para a continuidade do acompanhamento psicológico e clínico durante todo o processo.

Em julho deste ano, o Hospital realizou sua primeira mastectomia masculinizadora em paciente de 63 anos, totalmente pelo SUS. Foto divulgação: UCR15 – HU-Furg/Ebserh
Integralidade do cuidado e acesso no interior do estado
Segundo uma das integrantes da equipe de enfermagem da Unidade, Clarissa Fonseca, o acompanhamento psicológico acontece do primeiro contato do paciente com o HU até o pós-operatório. “Quando o paciente chega, ele participa de um momento coletivo com toda a equipe — assistente social, médico e enfermeiros — , além de um atendimento individual com uma das psicólogas para um momento de escuta e acolhimento”, descreveu a profissional. “Durante a internação, tanto no pré quanto no pós-operatório, o paciente também recebe atendimento psicológico”.
Ainda assim, Clarissa destacou que, tendo em vista que os pacientes chegam à Unidade de Saúde da Mulher a partir de encaminhamentos feitos por outros ambulatórios, é essencial que eles mantenham o vínculo com os locais de origem. “A nossa equipe não substitui a equipe de referência: as psicólogas do HU realizam avaliações pontuais e o acompanhamento voltado ao processo cirúrgico, mas o cuidado contínuo deve seguir sendo feito no ambulatório de origem. Manter esse acompanhamento é fundamental para garantir o apoio integral ao paciente ao longo de todo o processo”, reforçou.
Um dos locais responsáveis pelo encaminhamento ao HU-Furg é o Ambu T – Ambulatório Multidisciplinar de Pessoas Trans do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Para o endocrinologista e responsável técnico da unidade, Jivago Lopes, o acompanhamento psicológico é fundamental. “A transição de gênero envolve mudanças físicas, emocionais e sociais significativas. O acompanhamento psicológico auxilia na adaptação a essas mudanças, no enfrentamento do preconceito, e no fortalecimento da rede de apoio”, afirmou o médico.
Evidências científicas em saúde mental
A implementação de um acompanhamento psicológico intensivo durante o processo cirúrgico é respaldada por evidências internacionais. Estudos recentes demonstram que procedimentos de afirmação de gênero podem estar associados a melhorias importantes relacionadas à saúde mental.
Uma análise de dados realizada por pesquisadores ligados à Escola de Saúde Pública Harvard T.H. Chan, por exemplo, mostrou que indivíduos que passaram por cirurgias de afirmação de gênero obtiveram redução de 42% no risco de sofrimento psicológico recente e 44% na ideação suicida no último ano, quando comparados a pessoas que ainda não haviam sido operadas.
Outra pesquisa, esta com mais de 3.000 pacientes, indicou que, após cirurgias de afirmação de gênero, houve queda significativa no uso de antidepressivos e reduções em sintomas de depressão (-7,7%), ansiedade (-1,6%), ideação suicida (-5,2%) e abuso de substâncias, incluindo álcool e drogas.
O acompanhamento psicológico
Ao serem admitidos pelo HU-Furg, os pacientes passam por um acolhimento dividido em duas etapas: a primeira, multiprofissional, reúne médicos, residentes, enfermeiros e assistente social. Em um segundo momento, acontece o acolhimento psicológico individual, no qual o paciente pode se reunir de forma privada com a psicóloga responsável.
“O objetivo deste acolhimento é conhecer este ou esta paciente, sua história de vida, seu momento atual, suas expectativas para o procedimento cirúrgico, assim como observar se tais estão alinhadas com a realidade do processo, da recuperação e dos resultados”, explicou Jéssica Mareque. Nesse momento, também são avaliados o estado emocional recente, o histórico de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico e possíveis fatores de risco, como episódios depressivos ou sofrimento psíquico intenso.
Já no pós cirúrgico, Jéssica observa que o cuidado com a saúde mental é necessário para auxiliar na adaptação do/a paciente, visto que dor, desconforto, mudanças imediatas e sentimentos mistos são possibilidades. Segundo a psicóloga, os atendimentos atuam na “prevenção de complicações emocionais, como crises de ansiedade, tristeza intensa, desesperança ou frustração com o processo de cicatrização”. Além de todo o cuidado, o vínculo entre paciente e equipe que se constrói durante o processo também contribui para que o ambiente seja mais acolhedor e, principalmente, livre de preconceito.
“A cirurgia redesignadora de sexo não é apenas um procedimento físico, mas um marco identitário, afetivo e social, carregado de significados profundos. O suporte psicológico garante que o paciente seja visto em sua integralidade, reduz possíveis riscos emocionais e melhora a experiência hospitalar” afirmou.

No início de 2025, a enfermeira Priscila Cadaval, do HU-Furg, participou da construção de diretriz para o cuidado de enfermagem a mulheres trans no SUS. Foto: Divulgação/Governo Federal
Sem carga horária exclusiva para o serviço, as psicólogas do HU-Furg integram o acompanhamento transexualizador às demais atividades hospitalares, atuando no acolhimento, na discussão de casos com a equipe multiprofissional e no atendimento pré e pós-operatório.
Ao articular cirurgia, psicologia e trabalho em rede, o HU-Furg consolida um modelo de atenção que prioriza a integralidade, o cuidado completo e o acesso da população trans do interior gaúcho a um atendimento especializado, humano e gratuito.
Saiba como acessar o serviço no site da Associação Nacional de Travestis e Transexuais.
Conheça a política nacional de saúde integral de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.
Saiba Mais
Quem pode acessar?
Pessoas trans e travestis. Procedimentos cirúrgicos seguem critérios do Ministério da Saúde.
Como iniciar?
Procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) do município, que realiza o encaminhamento para serviços especializados.
No Hospital Universitário da Furg
O hospital recebe pacientes encaminhados por ambulatório de referência da região e atua de forma integrada à rede de cuidado.
Saúde Mental
O acompanhamento psicológico é obrigatório, ocorre antes e depois dos procedimentos e prioriza acolhimento, segurança e autonomia.
O serviço é gratuito e garantido pelo SUS.




