Em entrevista durante o Congresso Brasileiro sobre Catástrofes Climáticas, especialistas falam sobre trauma coletivo e preparo para cuidado além da emergência.

Identidade Visual do Congresso Brasileiro sobre Catástrofes Climáticas | Reprodução

Nos dias 29, 30 e 31 de maio de 2025, a UFSM sediou o Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva e Clima (Conbrascc), um evento inédito que reuniu especialistas, profissionais da saúde e pesquisadores de diferentes regiões do país para debater os impactos das mudanças climáticas na saúde pública e discutir estratégias para o enfrentamento de crises. A iniciativa foi promovida pela própria universidade em parceria com o Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), e teve o apoio da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Ao todo, o congresso reuniu mais de mil inscritos, entre participantes presenciais e online, e contou com 42 palestrantes convidados. A programação trouxe mesas-redondas, apresentações acadêmicas e debates sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde coletiva. A produção científica teve destaque com a exposição de 14 trabalhos completos e 122 banners. Ainda no último dia, 11 minicursos voltados à capacitação técnica e prática reuniram cerca de 300 participantes.

Em meio a este contexto de troca de saberes e experiências, ouvimos, com exclusividade, dois dos principais nomes que compuseram a programação do congresso: a psicóloga e coordenadora do Núcleo de Saúde Mental e Atenção Psicossocial em Desastres e Emergências em Saúde Pública da FIOCRUZ, Débora Noal e o médico psiquiatra e professor do Departamento de Neuropsiquiatria da UFSM, Vitor Crestani Calegaro.

Nas entrevistas a seguir eles compartilham reflexões sobre saúde mental em contextos de crise, o cuidado psicossocial em tragédias prolongadas e os desafios do sistema de saúde.

Preparação profissional no auxílio psicológico para vítimas de desastres naturais

Quando o assunto é um desastre socioambiental, como as enchentes de 2023 e de 2024, pode-se considerar que há três momentos cruciais para a construção da interpretação dos afetados sobre o episódio. O primeiro momento seria a perda de autonomia da população que se vê em meio ao caos; o segundo, a imprevisibilidade de retorno à normalidade; e o terceiro, o medo de que aquilo se repita. 

Débora Noal durante sua participação no Conbrascc, onde conduziu a palestra “Intervenção psicológica em catástrofes: abordagens práticas no primeiro acolhimento emocional”. Foto: Ana Carolina Zago

Conforme a psicóloga e coordenadora do Núcleo de Saúde Mental e Atenção Psicossocial em Desastres e Emergências em Saúde Pública da FIOCRUZ, Débora Noal, o processo de entendimento de uma tragédia é transpassado pelo chamado “marco zero”, o momento em que se inicia o ocorrido. Além disso, esse estágio costuma se dividir em fases, cada uma com uma estratégia de ação ideal. 

A primeira etapa vai de 0 até 72h, onde toda e qualquer reação é esperada, desde a dissociação até o sofrimento intenso. A segunda vai dos primeiros três dias até o final da primeira quinzena, quando se dá o período de assimilação com orientações profissionais e um “cardápio” de ofertas de como o indivíduo afetado pode lidar com o ocorrido. A última vai até o fim do terceiro mês, fase de retorno para a estabilidade. 

Entretanto, Débora expõe que, em casos onde o desastre não é pontual, o marco zero não se refere somente ao primeiro dia de transtornos. “Esse é um erro muito comum: esperar que, em 30 dias, por exemplo, a população supere uma tragédia. Em alguns casos, como as enchentes do ano passado, a tragédia não durou alguns dias, demorou um mês até a situação começar a se normalizar. Um mês depois que a enchente chegou, estávamos ainda no marco zero, pois todos estavam em alerta e no modo sobrevivência durante todo o tempo”, explica.

No artigo “Atuação do psicólogo em situações de desastre: reflexões a partir da práxis”, Débora aborda o papel desses profissionais em situações de desastre. Segundo ela, os psicólogos transitam entre a normalidade da dor trazida pelo episódio e o uso da patologia como forma de legitimar essa experiência e tentar ajudar os afetados a superá-la. 

Frente à pressão trazida pela necessidade de mobilização imediata para resgate, orientação e redução de danos em desastres, Débora indica que protocolos com essa finalidade já sejam ensinados e praticados durante a formação. “Minha geração teve a opção de não lidar com desastres, algo que não existe mais. Todos, em algum momento da trajetória profissional, trabalharão com e/ou para alguma tragédia. É preciso que, ainda no processo de formação, psicólogos aprendam a lidar com isso. É mais fácil aprender sem estar sob pressão, como acontece no meio de uma emergência.”, argumenta.

No mesmo estudo, Débora fala sobre a necessidade de articulação entre o serviço psicológico e outras instâncias sociais. A associação entre diversos setores é capaz de prever e tratar os impactos psicológicos que podem se manifestar a longo prazo na população depois do desastre, retirando-se de um atendimento que costuma se limitar ao factual e pós-imediato.

Conforme Débora, o trauma se concretiza somente em uma parcela da população vitimada, geralmente de 3 a 4%. “A maior parte dos afetados, cerca de 75%, sofrerá intensamente de diversos modos, mas esses sintomas entram em remissão em cerca de três meses. Isso acontece especialmente se o indivíduo se sentir amparado na primeira fase pós-desastre”, explica.

Ela usa como exemplo o Vale do Taquari, região afetada pelas mudanças climáticas mais de uma vez em menos de dois anos. “Essa população já está muito fragilizada. Cada desastre que ocorre no mesmo território se sobrepõe. Então, o estresse crônico somado é mais perigoso do que o estresse que advém de um desastre agudo”, reforça a psicóloga. 

A profissional destaca que tudo o que existe em um desastre também está no cotidiano. Conforme Débora, o que muda nas situações onde há debilidade social é a intensidade, o número e a frequência dos acontecimentos. “Por isso, é fundamental que cada área se prepare para entender o comportamento humano em eventos extremos, considerando a tipologia do desastres, os aspectos culturais e históricos”, ressalta.

Nem heróis nem vítimas, mas sobreviventes

A emergência das mudanças climáticas transformou os desastres em eventos cada vez mais previsíveis. No entanto, o sistema de saúde pública parece seguir atuando como se eles fossem apenas exceções. Para o médico psiquiatra e professor da UFSM, Vitor Crestani Calegaro, essa postura precisa mudar: o enfrentamento precisa ser planejado com antecedência.

Vitor Calegaro ministrou a palestra “Cuidados com a saúde mental em situações de desastres” no segundo dia (30/05) do Conbrascc | Foto: Ana Carolina Zago

O preparo, segundo Calegaro, tem efeitos diretos não só sobre os afetados, mas também sobre os próprios profissionais envolvidos nos atendimentos. Ele explica que estar preparado é um fator que contribui para a resiliência, pois sentir-se minimamente estruturado diante da crise pode ajudar a preservar a própria saúde mental. Por outro lado, o despreparo aumenta o risco de adoecimento psíquico em função do esgotamento e da autocobrança. “A gente começa a repassar tudo o que aconteceu, a duvidar das escolhas que fez, e aí o pensamento vai virando uma bola de neve que corrói a autoestima e a noção de competência”, pontua.

O psiquiatra explica que a desorganização dos serviços de saúde não afeta apenas o atendimento, mas também fragiliza o sistema como um todo, principalmente em regiões isoladas e com menor acesso a serviços especializados. “Em todo lugar, inclusive em países de alta renda, os profissionais estão nos polos. Quando você vai para o interior ou para áreas remotas, eles faltam”, observa. Por isso, segundo ele, é preciso repensar também as estratégias de acesso e as possibilidades tecnológicas, como terapia online, aplicativos de suporte e até inteligência artificial.

Ainda assim, ele reconhece os limites dessas soluções. “Tem que ter base científica. Não pode ser só pelo hype. A gente precisa de evidência de que essas ferramentas ajudam”, pondera. Para ele, mesmo em tempos de inovação, o essencial ainda continua sendo a escuta e o vínculo. “Numa tragédia, o mais importante não é o que a gente diz. É estar junto, transmitir comprometimento. Às vezes, a pessoa nem vai te ver de novo, mas ela precisa sentir que foi compreendida.”

O médico também lembra que em momentos de trauma coletivo, é comum que as pessoas busquem referências. “É normal identificarem heróis. Mas o herói, na origem do termo, é uma figura com condição sobre-humana, um misto de Deus e ser humano. E isso a gente não é”, enfatiza.

 “Não somos heróis. Precisamos estar inteiros para poder cuidar”. 

O mesmo ocorre, segundo ele, na tentativa de encontrar culpados. “Aponta-se o prefeito, o governador ou outro. Mas às vezes essa pessoa é alguém da comunidade, que também foi atingida, que também é uma vítima”. Para Calegaro, a busca por vilões faz parte do processo de dar sentido ao caos, mas é preciso ter cuidado: “às vezes, quem está sendo apontado é tão vulnerável quanto nós mesmos.” 

Outro ponto de destaque na fala do psiquiatra diz respeito ao uso de termos como “vítima” e “sobrevivente”. Para ele, as palavras importam muito, pois interferem diretamente na forma como a pessoa se vê e se reconstrói depois da tragédia. “Quem morreu é vítima. Mas quem ficou vivo precisa ser reconhecido como sobrevivente. Isso vale para todo mundo que esteve envolvido, direta ou indiretamente”, defende. 

“De alguma forma, somos todos sobreviventes”.

Em relação aos atingidos, o médico chama a atenção para uma realidade preocupante: o aumento no uso de substâncias como álcool, calmantes ou outras drogas. “Em momentos como esse, a gente usa o que tem para tentar se autorregular emocionalmente. Isso não é um julgamento moral, mas é importante entender que essa estratégia pode piorar o quadro”, afirma. O uso de psicoativos, segundo o médico, pode intensificar transtornos já existentes ou até desencadear novos.

Para Calegaro, um sistema público de saúde preparado, que ofereça atendimento contínuo e de qualidade, é o principal pilar para o fortalecimento da saúde mental coletiva. “No calor da hora, todo mundo ajuda. Mas e depois, quando a pauta sai dos noticiários, quem cuida?”, questiona.

Texto: Daniele Lopes Vieira e Kemyllin Haana Timm Dutra
Revisão: Mariangela Recchia

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