Comunidade de Fala completa 10 anos de atuação em Santa Maria – RS.

Reprodução| Identidade Visual Comunidade de Fala 10 anos
Idealizado pelo jornalista estadunidense Richard Weingarten, o projeto Comunidade de Fala iniciou seu trabalho em 2015 no Brasil. Com o objetivo de dar voz às pessoas com transtornos mentais, por meio de palestras que valorizam experiências de vidas, os primeiros núcleos foram implementados nas cidades de São Paulo (SP) e Santa Maria (RS). Nos anos seguintes, o projeto se estabeleceu em mais três cidades: Rio de Janeiro, Salvador e Florianópolis. Atualmente, o projeto conta com cinco núcleos no país, que visam à inovação no cuidado em saúde mental. No entanto, o núcleo de São Paulo está temporariamente desativado por motivos de reestruturação.
No Rio Grande do Sul, o projeto se estabeleceu na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), através do Espaço Nise da Silveira & AFAB. A escolha de Santa Maria como uma das cidades pioneiras só foi possível graças ao interesse da psiquiatra Martha Noal, que conhecia Richard apenas pelos livros que leu. Em um grupo de saúde mental da plataforma Yahoo, Martha soube que o jornalista buscava três cidades brasileiras para implementar o projeto. Interessada, enviou um email e ofereceu a estrutura da universidade e do Espaço Nise como base para o novo núcleo, convite que resultou na sede santamariense.
Ao longo dos dez anos de trabalho, a equipe do Comunidade de Fala tem buscado garantir continuidade ao método original do projeto. Com isso, em 2025, foi criada a Associação Comunidade de Fala Brasil, com o objetivo de formalizar e normatizar aspectos que se perderam com o passar do tempo. A associação conta com estatuto, missão, valores e diretorias definidos que reforçam o compromisso com a sustentabilidade e persistência do projeto. Mas, apesar das conquistas, os desafios também apareceram pelo caminho durante o passar dos anos. A falta de equipamentos, como notebook para realizar palestras online ou uma tela para projeção em apresentações presenciais, são algumas das dificuldades enfrentadas pelo projeto. Segundo Martha Noal, as dificuldades são na maioria das vezes de ordem material e estrutural. “O projeto é muito bonito e empolgante de fazer, mas essas questões materiais são o que mais nos traz dificuldade”, explica.
Para os núcleos do projeto Comunidade de Fala Brasil as palestras têm um duplo impacto: ajudam pessoas que enfrentam algum adoecimento mental a se reconhecerem nas histórias compartilhadas e a buscar ajuda; ao mesmo tempo educam a sociedade ao romper preconceitos, estigmas e até situações de bullying que ainda persistem – como o fato do “CAPS virar meme”, lembra Martha. Em busca de valorização e incentivo ao trabalho desses palestrantes, os núcleos brasileiros do projeto levaram à Conferência Nacional de Saúde Mental a pauta de que pessoas com experiência vivida, que atuam na prática como agentes comunitários de saúde, sejam devidamente reconhecidas como prestadoras de serviço.
A perspectiva para o futuro do Comunidade de Fala é de expansão e fortalecimento. Divulgações como reportagens, entrevistas e eventos são vistas como essenciais para aumentar o número de convites e levar as palestras a mais lugares, como empresas, turmas de graduação e novos públicos. Em médio prazo, a meta é consolidar os cinco núcleos já existentes a fim de garantir que todos estejam bem estruturados e preparados para manter o padrão do método. Só então será possível pensar na criação de novos núcleos, em outras cidades. “Antes de crescer, queremos fortalecer o que já temos”, resume Martha.

Integrantes do Comunidade de Fala e convidados reunidos na presença do jornalista Richard Weingarten | Fonte: Arquivo pessoal/Martha Noal
Ao longo do caminho, o projeto conquistou um importante reconhecimento internacional: foi selecionado em um edital da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e hoje faz parte da página oficial da entidade como uma nova abordagem em saúde mental. Se no início a ideia era apenas ajudar a sociedade a romper preconceitos, com o tempo ficou evidente que o Comunidade de Fala tem um impacto ainda maior: também transforma a vida dos próprios palestrantes, que amadurecem, recuperam autonomia e se tornam protagonistas de suas histórias – como é o caso da palestrante Vânia Loro.
A partir das falas de participantes que frequentam o Espaço Nise & AFAB, Vânia interessou-se pelo Comunidade de Fala ainda em 2017. No entanto, devido às demandas da vida, como o trabalho, só conseguiu participar efetivamente em 2020. Foi durante a pandemia de Covid-19 que tudo mudou: após assistir a uma apresentação online do projeto, ela compreendeu melhor sua proposta e se motivou pela possibilidade de compartilhar sua história, até então guardada apenas para si. Nesse mesmo ano, Vânia recebeu um breve treinamento e realizou duas palestras online. Desde então, sua vida mudou para melhor.
“Antes do projeto, eu nunca falava sobre o que sentia e como me sentia em relação a problemas bem antigos, cuja origem foi a minha infância, também costumava sufocar meus sonhos e esperanças. Hoje posso dizer que o projeto me deu voz além do meu diagnóstico de bipolaridade, hoje a doença não mais me define, a esperança sim. Consegui decidir muitas coisas na vida, me empoderei como nunca havia feito antes”, conta Vânia.
Gratidão. Essa é a palavra que Vânia usa para definir o projeto e todas as pessoas que estão por trás dele. Para ela, palestrar representou mais do que um espaço de escuta: foi uma oportunidade de renascer para a vida. A cada nova apresentação ela se sente mais empoderada, capaz de enfrentar um dia de cada vez, e percebe que é possível se inserir em outros grupos sem se sentir diferente ou excluída. Quanto aos medos e preconceitos que acompanham pessoas com doenças mentais, Vânia afirma que os vence a cada nova palestra. Ela explica que, muitas vezes, não é fácil falar sobre os momentos difíceis, o enfrentamento, a superação e a aceitação, mas que o retorno do público e as trocas de experiências entre os palestrantes tornam todo o processo mais leve e suportável.

Vânia Loro como palestrante do Comunidade de Fala | Fonte: Arquivo pessoal/Vânia Loro

Vânia Loro e Cristiane Oliveira durante palestra do projeto Comunidade de Fala | Fonte: Arquivo pessoal/Vânia Loro
Palestras, oficinas e organização
Embora o núcleo do Comunidade de Fala funcione dentro do Espaço Nise da Silveira & AFAB, não são todos os participantes que frequentam o local que podem atuar como palestrantes. Para integrar a equipe que leva as suas próprias histórias ao público, é necessário preencher alguns critérios que são avaliados pelos supervisores do projeto, como atingir um patamar de estabilidade emocional e superação dos sintomas do transtorno mental. Essa exigência busca garantir que o palestrante esteja bem o suficiente para servir de referência e modelo de identificação para pessoas que vivem momentos complicados. O projeto também oferece oficinas de capacitação para esses palestrantes, que precisam inclusive estar dispostos a compartilhar ao público suas vivências. Essa lógica se inspira em experiências internacionais, como a italiana, que desenvolve programas voltados à formação de usuários e familiares expertos (UFEs): pessoas preparadas para atuar como suporte de pares e que contribuem para a transformação coletiva de saúde mental.
Até julho de 2025, o núcleo do projeto em Santa Maria já realizou 79 palestras: 13 delas em formato virtual e 11 em outras cidades do estado. As apresentações acontecem conforme a demanda: algumas são totalmente online e alcançam público de outros estados brasileiros, enquanto outras são feitas dentro da própria UFSM em parceria com disciplinas de diferentes cursos da área da saúde como psicologia, terapia ocupacional e cursos do Colégio Politécnico da universidade. As palestras sempre são conduzidas em duplas.
Diferente da lógica tradicional da área da saúde, que costuma enxergar as pessoas a partir do diagnóstico, os palestrantes são instruídos a iniciar suas falas com uma breve apresentação do nome, da idade e as características que consideram relevantes, e mencionar o diagnóstico por último. Para a psiquiatra Martha Noal, essa forma de identificação representa um passo importante para que o público enxergue o palestrante antes de tudo como cidadão.
Mas, não é apenas se apresentar e começar a contar sua história de qualquer forma. Para que essas apresentações tenham uma lógica e sigam um padrão, o jornalista Richard Weingarten propôs um método que ficou conhecido como a metáfora do vagão. Funciona assim: cada palestrante convida o público a embarcar em uma viagem por diferentes vagões de trem até chegar ao destino final. A apresentação começa no vagão mais denso e desconfortável, dedicado aos dias difíceis, em que cada um resolve relatar, conforme se sinta à vontade, os momentos mais tensos do sofrimento mental (não necessariamente o pior episódio de adoecimento, mas os que eles consideram que não foram fáceis). Essa primeira parte tem por objetivo mostrar que o palestrante, que naquele momento se apresenta de uma forma bem articulada, também já vivenciou dias complicados.
Em seguida, a fala segue para vagões mais leves e confortáveis, trata-se do período de aceitação do diagnóstico, a busca por tratamento e o enfrentamento das consequências que permanecem mesmo após o cuidado clínico como o preconceito, a discriminação e as perdas pessoais. Depois, é o momento que o palestrante conta como assumiu o papel de sujeito da sua própria história ao resgatar direitos, fazer escolhas e retomar o rumo da própria vida. Por fim, o vagão representado como o se fosse o da “primeira classe”, determina o fim da viagem e é nesse momento onde o palestrante fala sobre sonhos, conquistas e esperanças para o futuro. Conforme Martha, esse método ajudou a estruturar o trabalho que a AFAB já realizava há quase três décadas no enfrentamento ao estigma: “O Comunidade de Fala nos trouxe algo que a gente não tinha. Ele organizou. Hoje temos um produto, um método”, comenta.
De forma resumida o método de apresentação é dividido nos seguintes momentos: introdução; dias difíceis; aceitação; tratamento; autocuidado; sujeito da minha própria história; e sucesso, esperanças e sonhos. Como as apresentações são feitas em duplas, o tempo total estipulado é de uma hora e meia. Ao final de cada apresentação o público pode fazer perguntas aos palestrantes.
Os frutos colhidos
Ao ser questionada sobre quais foram os principais aprendizados nessa última década de projeto, Martha faz uma pausa breve para tentar buscar na memória a resposta certa. “Nossa, são tantos, é difícil de descrever, sabe? É algo tão intenso, algo que acontece no campo simbólico mesmo”, resume. Para ela, o mais bonito é observar a redescoberta que os palestrantes fazem de si mesmos: tornam-se pessoas mais seguras, felizes, realizadas e conscientes de que são pessoas que têm direitos, pertencem à sociedade e podem circular por ela de forma digna.
E por mais difícil que seja enumerar didaticamente quantos aprendizados o projeto resultou, Martha destaca um que considera fundamental: acreditar que é possível. É possível que pessoas com históricos complexos num dado momento da vida, recebam um tratamento tão adequado ao ponto delas voltarem a ocupar espaços relevantes na sociedade, para que não estejam mais à margem. No Comunidade de Fala, as pessoas florescem mais uma vez para a vida. Conforme Martha, esse talvez seria o maior legado do projeto: mostrar que a partir do momento em que a sociedade oferece acolhimento, tratamento e escuta, é possível florescer novamente. “Se a gente fertilizar essa terra, ela pode dar brotos, flores e frutos muito surpreendentes”, conclui.
Contato para solicitação de palestras do projeto Comunidade de Fala, núcleo Santa Maria:
Telefone: (55) 3220-9529
Facebook: Espaço Nise da Silveira & AFAB
Instagram: ens_ufsm




