Espaços especializados oferecem acompanhamento psicológico, hormonização e apoio a pessoas trans e travestis em Santa Maria e mais de 30 municípios da região central gaúcha.

Para quem cresceu sendo silenciado, julgado ou invisibilizado, encontrar um espaço de cuidado que reconheça e respeite sua identidade é um grande alívio. Os ambulatórios LGBT+ são justamente isso: lugares onde saúde e acolhimento caminham juntos, com escuta atenta, respeito às vivências e um olhar sensível às necessidades específicas da população LGBT+. Criados para suprir uma lacuna histórica no atendimento em saúde, esses serviços oferecem suporte psicológico, orientação médica, terapias hormonais e acompanhamento especializado — sobretudo para pessoas trans e travestis, que muitas vezes enfrentam barreiras para acessar até o básico no sistema de saúde tradicional. Mas os ambulatórios também acolhem gays, lésbicas, bissexuais, pessoas não binárias e outras identidades, reconhecendo que cada corpo e cada história traz demandas únicas. Eles existem porque, por muito tempo, o cuidado com essas vidas foi negligenciado. Pessoas Trans e Travestis enfrentam dificuldades para ter seu nome social respeitado, têm sua identidade de gênero ignorada ou não encontram serviços preparados para entender suas necessidades. Muitas vezes, o preconceito não aparece só em palavras ou atitudes diretas, mas também no jeito de olhar, no tratamento frio ou na falta de acolhimento. É por isso que os ambulatórios são tão importantes: porque o direito à saúde só é completo quando inclui todas as formas de ser e existir.

As necessidades da população LGBT+ em saúde vão muito além do atendimento convencional. Pessoas trans e travestis, por exemplo, frequentemente buscam terapias hormonais, acompanhamento psicológico sensível às questões de identidade de gênero e orientações sobre procedimentos como a redesignação sexual — tudo isso em um ambiente livre de julgamentos. Mulheres trans também necessitam de cuidados urológicos específicos relacionados à anatomia peniana, que muitas vezes são ignorados ou mal conduzidos por profissionais despreparados. Homens trans enfrentam barreiras no acesso à saúde ginecológica. Pessoas não binárias e bissexuais muitas vezes têm suas identidades desconsideradas, o que compromete o vínculo com os serviços e faz com que o cuidado se torne incompleto — ou até mesmo traumático.

De acordo com um levantamento do IBGE, realizado em 2019, cerca de 2,9 milhões de brasileiros se identificaram como membros da comunidade LGBT+, representando 1,8% da população. Apesar desse número expressivo e da crescente demanda por atendimento especializado, o acesso ainda é limitado. Segundo o Ministério da Saúde, apenas 21 hospitais e ambulatórios estão habilitados para atender pessoas LGBT+ em todo o Brasil — e estão concentrados em apenas 13 estados (RS, SC, PR, SP, RJ, MG, ES, GO, BA, PE, PB, SE e PA). Isso significa que milhares de pessoas continuam sem acesso a um cuidado básico e livre de preconceitos.A ausência desses serviços não se limita a regiões afastadas dos grandes centros urbanos, mas atinge também estados inteiros, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde a oferta ainda é inexistente ou extremamente restrita. Essa realidade tem um impacto direto na saúde física e mental da população LGBT+, que muitas vezes enfrenta longos deslocamentos para conseguir atendimento ou simplesmente desiste de buscar ajuda. Sem acesso a acompanhamento médico adequado, terapias hormonais, suporte psicológico ou tratamentos específicos, aumentam os casos de automedicação, agravamento de quadros de ansiedade e depressão, tentativas de suicídio e abandono de tratamentos básicos de saúde.

Para pessoas trans, a falta de acolhimento e de acesso adequado agrava ainda mais a disforia de gênero, ou seja, o sofrimento intenso causado pela desconexão entre o corpo e a identidade. Sem apoio, esse desconforto pode se tornar debilitante, impactando a saúde mental, o autocuidado e as relações sociais. A ausência de espaços seguros de atendimento reforça o ciclo de exclusão e adoecimento, tornando ainda mais urgente a expansão dos serviços especializados.

A realidade em Santa Maria

Locais de atendimento a população LGBT em Santa Maria.

Santa Maria abriga dois importantes serviços voltados à saúde da população trans. O Ambulatório Trans Estadual, vinculado à Casa de Saúde, localizada no Bairro Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, atende pessoas de mais de 30 municípios da região. Já o Ambulatório Trans Municipal, conhecido como Transcender, vinculado a Policlínica de Saúde Mental fica no centro da cidade e é mantido pela Prefeitura de Santa Maria. o Transcender foca no atendimento da população trans e travesti do próprio município. Embora com estruturas e gestões diferentes, ambos compartilham do mesmo objetivo: oferecer um cuidado mais humano, acessível e seguro.

O psicólogo Thadeu Lucca, que coordena os dois ambulatórios, reconhece os avanços, mas também aponta os desafios enfrentados diariamente. “Existe uma política nacional que assegura o atendimento para pessoas trans e travestis. Mas a grande dificuldade ainda está na formação das equipes. A maior parte das pessoas que trabalham nos serviços de saúde não tem formação para atender esse público, o que cria barreiras invisíveis, que fazem com que essas pessoas não voltem a procurar atendimento”, explica. Ele reforça que muitos abandonos de tratamento — especialmente da terapia de reposição hormonal — não são por escolha, mas por situações de desrespeito ou constrangimento vividas nos próprios serviços.

Paulo Horvath, coordenador do Ambulatório Transcender, e Thadeu Lucca, psicólogo, atuam no atendimento especializado a pessoas trans e travestis em Santa Maria e região.

Na prática, os relatos confirmam essa realidade. O estudante Darlan Lemes conta que enfrentou dificuldades para acessar a terapia hormonal pelo Transcender. “O ambulatório me ajudou, mas encontrei muitas barreiras. A terapia hormonal demorou, a terapia psicológica é difícil de conseguir vaga e o lugar é difícil de achar — falta uma placa mais visível, mais sinalização.” Mesmo com os documentos retificados, Darlan ainda foi chamado por seu “nome morto” durante os atendimentos. “Isso machuca e cansa, porque você tem que ficar explicando toda hora quem é você, como se sua identidade ainda fosse dúvida.” Segundo ele, outros usuários também relataram dificuldades parecidas.

Além disso, o acesso à terapia hormonal esbarra em uma questão estrutural: os hormônios utilizados no processo de transição não fazem parte da lista de medicamentos oferecidos pelo SUS. Isso significa que, mesmo com receita médica, muitas pessoas trans não conseguem iniciar ou manter o tratamento por conta do custo e da dificuldade de encontrar os produtos em unidades públicas.

Outra usuária, que preferiu não se identificar e será chamada aqui de Isadora, está no início da sua transição de gênero. Para ela, o ambulatório tem sido um ponto de apoio importante. “Não é perfeito, a gente sabe. Às vezes demora, às vezes falta estrutura. Mas pelo menos ele existe. E isso já faz diferença. Pode e deve ser melhorado, mas é um começo.”

O problema não está no ambulatório — está no CIS-tema
Esses relatos não apontam para falhas individuais dos profissionais que atuam nesses espaços — ao contrário, são pessoas que se desdobram para garantir um atendimento digno, mesmo com poucos recursos. O problema é mais profundo. Ele está na estrutura do sistema de saúde, que foi construída historicamente para atender pessoas cisgênero (aquelas cuja identidade de gênero corresponde ao sexo atribuído no nascimento). Por isso, muitos chamam de CIS-tema: um sistema pensado para corpos cis, que não considera, ou considera pouco, as realidades vividas por pessoas trans, travestis, não binárias e outras identidades fora da norma.

Esse “CIS-tema” se manifesta na falta de formação profissional, na burocracia que dificulta o acesso a medicamentos e terapias, na ausência de protocolos inclusivos e no despreparo das instituições para lidar com o que foge ao padrão. É um sistema que, em vez de cuidar, muitas vezes adoece ainda mais.

Melhorar é possível — e necessário
Os ambulatórios LGBT+ são uma conquista real e urgente. São espaços que, mesmo com limitações, salvam vidas, acolhem histórias e oferecem esperança. Mas é preciso que eles sejam fortalecidos: com mais investimentos, mais profissionais capacitados, mais visibilidade e, acima de tudo, com compromisso político e social. Garantir acesso à saúde para a população LGBT+ não é um favor — é um direito previsto por lei e um dever do Estado.

Para que esse direito se torne realidade na prática, é necessário ir além da criação de leis e protocolos. “A solução está no conhecimento, na educação, na formação inclusiva — tanto dos profissionais da saúde quanto da sociedade. Não adianta só criar leis se a prática continua excludente”, aponta Lucca.

Ele defende que o debate sobre diversidade de gênero deve começar desde cedo, nas escolas, e ser aprofundado ao longo das formações universitárias, especialmente nas áreas da saúde. Além disso, destaca a importância de ações permanentes de sensibilização nos serviços públicos. Só assim será possível romper com o ciclo de exclusão e garantir que os ambulatórios cumpram plenamente seu papel de acolher, cuidar e transformar.

Respeitar identidades não é uma pauta política, é uma questão de saúde pública e é também uma questão de dignidade: reconhecer que todas as pessoas merecem ser cuidadas com empatia e humanidade. Porque uma sociedade que acolhe a diversidade cuida melhor de todas e todos. E porque ninguém deveria ter que lutar tanto para simplesmente existir.

Entenda os Conceitos
Pessoa trans: quem se identifica com um gênero diferente do sexo atribuído ao nascer.
Pessoa cis: quem se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.
Pessoa não binária: quem não se identifica apenas como homem ou mulher.
Nome social: nome que a pessoa escolhe para ser reconhecida, diferente do nome de registro.
Nome morto: nome antigo de uma pessoa trans, que não deve ser usado sem permissão.
Identidade de gênero: como a pessoa se sente e se reconhece em relação ao gênero.
Disforia de gênero: sofrimento causado quando o corpo ou o tratamento recebido não correspondem à identidade de gênero.
Terapia de Reposição Hormonal ou Hormonização: Uso de hormônios para alinhar as características físicas com a identidade de gênero da pessoa.

Direito à Troca de Nome
Pessoas trans têm direito a alterar o nome e o gênero nos documentos oficiais, sem necessidade de cirurgia ou decisão judicial. O procedimento pode ser feito diretamente no cartório de registro civil. É importante levar documentos pessoais (RG, CPF, certidão de nascimento) e pagar uma taxa — que pode ser isentada em casos de baixa renda. Essa mudança garante mais segurança, dignidade e respeito no dia a dia e no acesso a serviços públicos, como saúde e educação.

Onde encontrar atendimento em Santa Maria (RS)

Ambulatório Transcender (Municipal)
Local: Rua dos Andradas, 1.397, Centro, Santa Maria (RS)
O que oferece: Atendimento psicológico, psiquiátrico, clínico, enfermagem, assistência social e encaminhamentos para hormonoterapia.
Horário de funcionamento: Segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h
Telefone para contato: (55) 3174-1594
E-mail: ambulatoriotranscender@gmail.com
Como acessar: Atendimento por demanda espontânea ou encaminhamento via Unidade Básica de Saúde .

Ambulatório Trans Estadual (Casa de Saúde)
Local: Rua Ari Lagranha Domingues, 188, Bairro Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Santa Maria (RS)
O que oferece: Acompanhamento psicológico, psiquiátrico, clínico geral, endocrinológico, urológico, ginecológico, fonoaudiológico, assistência social e enfermagem.
Telefone para contato: (55) 3028-9161
Como acessar: Agendamento por encaminhamento da Secretaria Municipal de Saúde .

 

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