Abordagem apresentada na UFSM reúne estratégias acessíveis para lidar com estresse, relações e propósito

O professor e pesquisador da UFSM, psiquiatra Vitor Calegaro, é o criador do protocolo Resilieight - Foto: Renan Silveira

O professor e pesquisador da UFSM, psiquiatra Vitor Calegaro, é o criador do protocolo Resilieight – Foto: Renan Silveira

Ansiedade, exaustão e dificuldade de lidar com a pressão acadêmica têm se tornado experiências cada vez mais comuns entre estudantes universitários. Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), realizada entre 2022 e 2023 com mais de 76 mil estudantes nos Estados Unidos, apontou que 41% apresentavam sintomas de depressão e 36% de ansiedade. Já um estudo publicado em 2023 pela Revista Eletrônica Acervo Saúde identificou sinais de síndrome de burnout em 60% dos 250 estudantes de medicina analisados em uma universidade do Maranhão, associando o quadro ao estresse crônico da rotina acadêmica. 

Nesse contexto, o desenvolvimento da resiliência ganha destaque como estratégia para lidar com esses problemas. É o que propõe o método Resilieight, desenvolvido pelo professor e pesquisador da UFSM, psiquiatra Vitor Calegaro. A proposta tem origem no projeto COVIDPsiq, coordenado pelo pesquisador, que investigou os impactos da pandemia na saúde mental, além de estratégias para seu  enfrentamento. A partir dessa iniciativa, e com base em estudos sobre resiliência em situações de desastre e trauma, incluindo experiências analisadas após o Incêndio da Boate Kiss, Calegaro desenvolveu o Resilieight como uma forma de traduzir o conhecimento científico em orientações práticas para o dia a dia. A proposta também está vinculada à sua pesquisa acadêmica e é fruto de sua tese de doutorado.

Além da atuação acadêmica, o psiquiatra também participou do acolhimento de familiares de vítimas e sobreviventes da tragédia da Kiss, experiência que contribuiu para a construção das reflexões sobre resiliência e enfrentamento do trauma. 

O tema já foi abordado por Calegaro no videocast Mente Aberta, do projeto Verdadeiramente, onde ele detalha o desenvolvimento da COVIDPsiq e os fundamentos da proposta, que tem sido apresentada em diferentes espaços. Um desses momentos ocorreu no Auditório Wilson Aita, na Universidade Federal de Santa Maria, no dia 18 de março, durante a abertura do primeiro semestre de 2026 dos cursos noturnos de Licenciatura em Educação Especial e Pedagogia. O encontro reuniu estudantes, professores e representantes do Centro de Educação.

Durante a palestra, Calegaro apresentou o conceito de resiliência como a capacidade de enfrentar situações difíceis, absorver seus impactos e, com o tempo, ressignificá-las. No contexto universitário, isso inclui lidar com prazos apertados, cobranças acadêmicas, incertezas sobre o futuro e a pressão por desempenho. A partir dessa perspectiva, o pesquisador estruturou o Resilieight como um conjunto de oito práticas voltadas à manutenção da saúde mental no cotidiano.

Entre os pontos abordados, o psiquiatra destacou a importância de desacelerar e desenvolver uma relação mais consciente com as próprias emoções, especialmente em meio a uma rotina marcada por excesso de tarefas e estímulos. Segundo ele, as emoções “colorem as experiências”, enquanto os pensamentos dão significado ao que é vivido. Nesse sentido, práticas como relaxamento, contemplação e meditação aparecem como alternativas para manter a mente “limpa, ativa, atenta e preparada”, mesmo diante da sobrecarga.

Outro aspecto central é a construção de propósito ao longo da vida. Para o pesquisador, ele não surge de forma imediata, mas é resultado de experiências, tentativas e aprendizados. No contexto acadêmico, isso pode estar ligado à escolha do curso, às expectativas profissionais e às mudanças de trajetória. Experimentar, errar e estabelecer metas são partes fundamentais desse processo.

Por onde começar na prática

Apesar de envolver reflexões mais amplas, o desenvolvimento da resiliência pode começar com mudanças simples na rotina acadêmica. Segundo o psiquiatra Vitor Crestani Calegaro, o primeiro passo é direto: cuidar do corpo.

“O primeiro passo é exercício físico. Isso não depende de nada. É organizar a rotina, colocar um tênis e sair para caminhar, correr.”

A recomendação não exige alto desempenho ou treinos intensos. Caminhadas, deslocamentos a pé dentro do campus ou atividades leves já contribuem para a saúde mental, desde que feitos com alguma regularidade ao longo da semana.

A partir disso, o Resilieight propõe oito pilares que podem ser incorporados gradualmente ao cotidiano dos estudantes:

De acordo com o psiquiatra, a principal orientação é não tentar aplicar tudo de uma vez. O desenvolvimento da resiliência acontece de forma gradual, a partir de pequenas mudanças incorporadas à rotina.

Mesa de honra com Vitor Calegaro e representantes dos cursos e do Centro de Educação da UFSM na abertura da palestra. Foto: Renan Silveira

Em entrevista ao VerdadeiraMente, Calegaro destacou que, entre os oito pilares da resiliência, os maiores desafios atuais estão nos relacionamentos, na aceitação e gratidão e na construção de emoções positivas.

Segundo o médico, lidar com vínculos interpessoais é especialmente complexo, principalmente por conta da dependência emocional. “Às vezes, é um relacionamento tóxico, abusivo, mas ao mesmo tempo existe uma dificuldade de sair, porque ficar sem ele gera um vazio”, explica. De acordo com o especialista, essa dinâmica de codependência faz com que muitas pessoas permaneçam em relações que prejudicam a saúde mental, tanto em contextos amorosos quanto em amizades.

O psiquiatra também fez uma distinção entre resiliência e resistência. Enquanto a pessoa resistente tende a seguir em frente sem processar emocionalmente o que vive, a resiliência envolve a capacidade de compreender, elaborar e crescer a partir das experiências. “Não é necessariamente ruim ser resistente, é uma forma de proteção. Mas não há crescimento. A pessoa passa pelas experiências e não evolui com elas.”

Outro erro comum apontado pelo especialista é a tentativa de lidar com tudo ao mesmo tempo. “As pessoas querem resolver os próprios problemas, os da família, dos outros, tudo junto. Mas cada coisa tem o seu tempo”, afirma.

Para ele, a resiliência também passa por saber parar. Descansar, desacelerar e viver um dia de cada vez são atitudes fundamentais para evitar a sobrecarga emocional.

Ao final, Calegaro resume que o principal aprendizado da palestra pode ser respeitar o tempo das coisas.“Assimilar tudo de uma vez não dá certo. Se as pessoas entenderem isso, já é um grande passo.”

 

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