Iniciativas reafirmam o valor do acolhimento e da convivência no tratamento em saúde mental em Santa Maria – RS

Desinstitucionalização e humanização, esses são alguns dos princípios básicos propostos pela Reforma Psiquiátrica no Brasil. Impulsionado por profissionais e pacientes que apostam em um modelo de atenção mais humano, individualizado e comunitário, o cuidado com a saúde mental tem se transformado nas últimas décadas em Santa Maria – RS.

Identidade Visual do Espaço Nise da Silveira

Esse processo é visível na criação de espaços como a Associação de Familiares, Amigos e Bipolares (AFAB), projeto de extensão da UFSM fundado em 1997 pela psiquiatra Martha Helena Oliveira Noal. A ideia surgiu a partir de uma conversa entre Martha e seu paciente Sérgio Walter. Ele a questionou sobre a ausência de uma associação que defendesse os direitos das pessoas com transtorno de humor bipolar (TBH). Juntos, idealizaram a AFAB, instituição sem fins lucrativos que visa o acolhimento, a educação e a promoção da saúde. 

Com o tempo, o crescimento da procura e a diversidade de perfis atendidos ultrapassaram a capacidade da associação. Assim, em 2015, nasceu o Espaço Nise da Silveira – voltado a um público mais diverso de pessoas com o diagnóstico de transtornos mentais, que após a alta hospitalar, estão em processo de reinserção na sociedade e buscam acolhimento e vínculo. A iniciativa não substitui o tratamento médico nem a internação, quando necessárias, mas funciona como um complemento terapêutico e social nesse retorno à volta comunitária. 

Foto: Anna Júlia da Silva, da Subdivisão de Divulgação e Eventos da PRE

“É isso que a gente faz o tempo todo aqui no Espaço Nise: manutenção da estabilidade, estímulo à autonomia e a superação de situações da vida apesar da condição de doente”, explica Martha. “Então a reforma psiquiátrica influenciou nesse sentido. Um dos dispositivos, de tantos outros que a reforma trouxe,  foi a humanização da atenção”. 

O nome do espaço é uma homenagem à médica psiquiátrica Nise Magalhães da Silveira (1905-1999), precursora de um olhar mais humanizado para o tratamento psíquico. É essa lógica que inspira o papel do Espaço Nise. Contrária aos métodos agressivos então predominantes, como o eletrocunvulsoterapia  – técnica que consistia na aplicação de descargas elétricas no cérebro dos pacientes, provocando crises convulsivas com o objetivo de “reiniciar” o funcionamento mental –  e a lobotomia – procedimento cirúrgico que lesionava partes do cérebro na tentativa de controlar comportamentos que eram considerados inadequados -, Nise enxergou na arte um caminho alternativo para o tratamento psiquiátrico. 

Cuidar é mais do que medicar

Localizados no 5º andar do prédio da Antiga Reitoria, tanto a AFAB quanto o Espaço Nise oferecem atividades em grupos e atuam para fortalecer os laços sociais de quem participa. São formas alternativas de cuidado que fogem da lógica exclusiva da medicação ou internação. 

A médica defende que as medicações, o diagnóstico e o tratamento ideal do ponto de vista psicofarmacológico são importantes, mas não suficientes. “O melhor tratamento medicamentoso para uma pessoa que está isolada do mundo porque entrou em crise, ou porque saiu da sua rota de vida, não é o bastante para colocá-la novamente em movimento”, aponta Martha. “Por isso, hoje em dia, trabalhamos muito com a lógica do recovery – que é essa ideia do resgate da cidadania da pessoa, da superação, independentemente dela continuar com um diagnóstico”.

Com a Reforma Psiquiátrica, as internações ainda existem, mas passam a ser compreendidas como uma etapa pontual do tratamento e não mais como o centro da vida do paciente. “Seja por 15, 20 dias ou o mínimo que precisar. Essa internação é como quando um paciente passa por um procedimento e precisa ficar um tempo no hospital para se recuperar”, explica Martha. “É o tempo suficiente para a pessoa ficar estável e conseguir dar alta. Então volta-se  uma lógica de internação hospitalar, ‘estou doente, muito doente e preciso internar’.” 

Essa lógica também transforma o lugar da internação: ela deixa de ocorrer em um hospital isolado e passa a ocorrer em unidades psiquiátricas dentro de um hospital geral, como o HUSM. “Sem que a minha vizinhança saiba que eu enlouqueci, que minha escola, meu trabalho, meus pais, precisem saber. ‘Aonde está a Martha? Tá no HUSM’, pronto”, diz. “Isso pode ser por qualquer motivo, de repente eu enfartei, tive uma infecção urinária, uma pneumonia ou psicotizei. Então essa coisa de trazer para dentro de uma unidade, em um hospital geral, onde ela vai ser cuidada intensivamente até que fique bem… Isso é plenamente possível. E voltar a ter uma vida normal.”

O estigma ainda viraliza 

Ainda assim, muitos dispositivos da Reforma, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), enfrentam forte resistência e desinformação. Nos últimos meses, vídeos com títulos como “Eu e minha amiga no intervalo do CAPS” e “O paciente mais fraco do CAPS”  e “O dia mais normal no CAPS”, viralizaram nas redes sociais, exibindo pessoas em situações constrangedoras e ridicularizando o ambiente do serviço. “Esse meme sobre o CAPS que circula na internet escancara não só a desinformação sobre o que é essa instituição, mas também alimenta a discriminação, o preconceito e o estigma”, critica Martha. “Criaram essa ‘vergonha’ em torno do CAPS, o que pode fazer com que muita gente deixe de procurar ajuda por medo do que os outros vão pensar. Isso é extremamente perverso.” 

Ela reforça que, quando utilizados de forma adequada, o CAPS tem papel fundamental na reestruturação de vidas. “Se pudéssemos utilizar apropriadamente um dos principais dispositivos da Reforma Psiquiátrica, que é o CAPS, essas pessoas poderiam ser resgatadas. Resgatadas enquanto dignidade, enquanto saúde, enquanto identidade social. Enquanto cidadãs.”

A cidadania como forma de cuidado 

Martha acrescenta que uma das principais lacunas da Reforma Psiquiátrica  está justamente na falta de conhecimento sobre suas propostas. “A Reforma Psiquiátrica é um movimento contra-hegemônico e, desde sua origem, enfrenta muitas resistências. Isso porque ela traz algo que assusta a sociedade: a autonomia, a inclusão e a redução da necessidade de internação psiquiátrica.”

Para ela, aceitar essas mudanças significa também aceitar o outro – em sua diferença, em sua instabilidade, em sua humanidade. “Ter pessoas diferentes na sociedade pode ser algo muito positivo para quem acredita nos direitos humanos, mas pode ser incômodo para quem não os defende. Conviver com alguém que, eventualmente, não está em seu melhor dia – mas que está ali, conosco – pode ser difícil para algumas pessoas aceitarem.”

Integrante do Espaço Nise há 27 anos, Roseli Aguiar  recebeu seu primeiro diagnóstico aos 13 anos, quando foi identificada com o que na época se chamava de “maníaco-depressivo”. Cinco anos mais tarde, aos 18 anos, ela recebeu o diagnóstico de TBH. “Eu passei cinco anos tomando remédios que não eram direcionados para o meu caso”, relata. 

Hoje, aos 51 anos, destaca a importância da Reforma Psiquiátrica na sua vida. “Ao meu ver a Reforma Psiquiátrica foi muito importante, porque nunca precisei ficar à mercê de uma internação ou jogada em um manicômio”, afirma. “Sempre fiquei o tempo necessário nas minhas internações, sempre pude voltar para casa – coisa que outras pessoas antes não conseguiam. Isso dá dignidade à pessoa.” 

Para Eduardo Castro, também integrante do espaço, o verdadeiro desafio está em conviver com a diferença.“Nós chamamos algo de ‘doença’ porque se afasta do que consideramos normal, mas, na verdade, tudo faz parte da sociedade. Não somos marginais, mesmo que estatisticamente sejamos vistos assim”, comenta. 

Castro afirma que é preciso romper com a lógica do incômodo: “No comportamento humano, nós também tendemos a nos desligar daquilo que incomoda. Não sabemos lidar com o incômodo. Em vez de pensarmos que o incômodo está fora, no vizinho, precisamos entender que, às vezes, ele está apenas dentro de nós. Mas isso não é ensinado em lugar nenhum — nem na família, nem na escola. Por isso é que vivemos todos esses problemas.”

O que por séculos foi exclusão, hoje se transforma, aos poucos, em cuidado, escuta e inclusão. Ainda há resistência, preconceito e desinformação sobre como tratar pessoas com transtornos mentais. Mas há também insistência, esperança e construção por parte de profissionais, pacientes e familiares que defendem o tratamento digno e humanizado. Para esses, a Reforma continuará sendo mais que uma política pública: será um ato de resistência aos intolerantes. 

 

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