Da década de 1980 até hoje, o preconceito continua  sendo o maior obstáculo para a saúde mental de quem convive com HIV.

As Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) fazem parte da história da humanidade há séculos. Doenças como sífilis e gonorreia já eram conhecidas muito antes da medicina moderna, mas foi nos anos 1980 que o mundo enfrentou uma das maiores crises de saúde pública: a epidemia de Aids.

Nos últimos meses, a minissérie “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente“, da HBO Max, reacendeu esse debate ao retratar o medo, a desinformação e o preconceito que marcaram o início da crise de Aids no Brasil. A série mostra um período em que manchetes sensacionalistas e boatos infundados se espalhavam mais rápido que o próprio vírus, criando estigmas que atravessam gerações e ainda prejudicam milhões de pessoas atualmente.

Os personagens Raul (Ícaro Silva ), Lea (Bruna Linzmeyer) e Fernando (Johnny Massaro) de “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, minissérie da HBO Max sobre a epidemia de HIV/Aids nos anos 1980. Foto: Divulgação/HBO Max

Nesse contexto, é fundamental reforçar um esclarecimento básico: HIV e Aids não são a mesma coisa. O HIV é o vírus que ataca o sistema imunológico. A Aids é o estágio avançado da infecção, quando o sistema de defesa já está enfraquecido. Uma pessoa pode viver com HIV durante toda a vida sem desenvolver Aids e, com o tratamento adequado, pode inclusive não transmitir o vírus a outras pessoas.

É dentro dessa realidade histórica que se insere a trajetória do infectologista Reinaldo Ritzel, que há mais de duas décadas atua no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM). Ele começou no início dos anos 2000, quando o medo e a confusão deixados pela epidemia dos anos 1980 ainda estavam presentes nas consultas. Desde então, acompanhou transformações profundas no tratamento, na prevenção e na forma como as pessoas convivem com o diagnóstico.

Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados em 2024, 95% das pessoas que seguem o tratamento antirretroviral corretamente atingem carga viral tão baixa que não transmitem o vírus. Reinaldo considera esse dado um dos maiores avanços da saúde pública moderna. Ele resume: “Nunca tivemos um momento tão seguro. Quando o tratamento é seguido, a pessoa vive com qualidade e não transmite o vírus. O problema é que a mentira ainda fala mais alto do que a ciência”.

Para ele, essa distância entre fato e medo aparece nos boatos que continuam circulando. O infectologista conta que ainda hoje existem pessoas que acreditam que o HIV pode ser transmitido pelo beijo, quando o vírus não passa pela saliva. Outro equívoco muito comum – que ainda persiste –  é a ideia de que mulheres não transmitem HIV para homens, e que apenas pessoas homossexuais poderiam transmitir o vírus, um mito que surgiu a partir das interpretações equivocadas dos primeiros registros de casos. Ele também encontra pacientes que acreditam que urinar após a relação sexual poderia evitar uma IST. A urina pode prevenir infecções urinárias, mas não impede infecções por vírus ou bactérias transmitidos sexualmente. A crença de que “sem sintomas não há infecção” continua atrasando diagnósticos de ISTs que podem evoluir silenciosamente por meses ou anos.

Para Reinaldo, esses mitos não são apenas informações erradas, mas um fator que adoece. Ele afirma: “A desinformação e a ignorância se tornam uma doença até maior do que a própria IST”.

A diferença entre o passado e o presente é evidente quando se fala em tratamento. No início dos anos 2000, era comum o uso dos chamados coquetéis, compostos por diversos comprimidos tomados ao longo do dia, geralmente com efeitos colaterais intensos. Hoje, a maior parte dos tratamentos oferecidos pelo SUS é feita com apenas um comprimido diário, mais eficaz, simples de seguir e com menos impacto na rotina dos pacientes.

Medicamentos utilizados atualmente tanto na profilaxia quanto no tratamento das infecções. Foto: Renan Silveira

A prevenção também evoluiu com a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), um comprimido tomado diariamente que impede que o vírus se estabeleça no organismo, e com a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), que deve ser iniciada em até 72 horas após uma situação de risco e seguir sendo tomada por 28 dias. Ambas são oferecidas gratuitamente pelo SUS. Em Santa Maria, A Casa 13 de Maio e a Farmácia do Hospital Universitário oferecem tratamento e acolhimento para pessoas que possuem ISTs. Acesse a matéria para saber sobre os serviços. Mesmo assim, Reinaldo observa que muitas pessoas ainda evitam buscar PrEP ou PEP por medo de julgamento, apesar de sua comprovada eficácia.

Além das dúvidas técnicas, há o impacto emocional. Muitos pacientes chegam ao consultório carregando vergonha, ansiedade, medo e a sensação de que o diagnóstico destrói planos de vida. Esses sentimentos têm raízes no imaginário criado durante as décadas de 1980 e 1990, quando a Aids era sinônimo de morte rápida e abandono. Mesmo com todo o avanço da medicina, esse imaginário permanece vivo no momento do diagnóstico.

A Psicóloga Danieli Brum de Souza da Casa 13 de Maio explica que esse impacto pode se assemelhar a um processo de luto. “Pela perda da boa saúde e pelo medo do que virá. Além disso, há o preconceito muitas vezes dentro da própria família e o receio de como as pessoas vão reagir”. Conforme a profissional.

Entretanto, com o tratamento atual, o HIV pode ser totalmente controlado. Quando a carga viral se torna indetectável, o vírus não é transmitido, e a expectativa de vida se iguala à da população geral.

A infecção não é mais o principal motivo de sofrimento, é o estigma que continua adoecendo silenciosamente milhares de pessoas todos os dias.

No Passado

O primeiro caso de AIDS foi identificado em 1981, nos Estados Unidos, e logo a síndrome se espalhou por todos os continentes, chegando ao Brasil pouco tempo depois. Sem informações claras sobre a doença e sem tratamento eficaz disponível, a sociedade foi tomada pelo medo. E o medo, amplificado pela cobertura sensacionalista da imprensa da época, se transformou em preconceito.
Naquele período, manchetes ligavam a Aids a grupos específicos da população, especialmente pessoas LGBTQIA+, usuários de drogas e profissionais do sexo. Essa associação reforçou uma ideia equivocada de que o vírus estava restrito a “certos tipos de pessoas” (na época chamados “grupos de risco”, criando um clima de perseguição e vergonha que deixou marcas profundas.

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