Jornalista, doutora em Comunicação, professora universitária e produtora, Neli Mombelli tem uma trajetória de mais de 15 anos na comunicação e grandes feitos na área audiovisual. Sua história com a UFSM começa em 2005, com sua chegada na Universidade para realizar o curso de Técnico em Geomática – hoje em dia chamado de Técnico em Geoprocessamento – pelo Colégio Politécnico da UFSM. Natural de Sarandi, Neli foi moradora da CEU por quase quatro anos. Após graduar-se em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Franciscana (UFN), a documentarista retornou à federal para se tornar Mestre e Doutora em pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação.

Neli Mombelli é diretora e roteirista do documentário “Morada”. Foto: Yorhan Rodrigues/ TV Ovo
VerdadeiraMente: Qual foi a motivação para a criação do documentário?
Neli Mombelli: A ideia do filme surge de duas formas. A Eduarda, personagem principal do curta, me conheceu depois de um outro lançamento da TV Ovo e me contou sobre ter descoberto um documento no apartamento dela. Pensei “Bah, isso dá um bom filme!”. Aí, quando abriu o edital [Lei Paulo Gustavo], lembrei dela e decidimos inscrever o documentário. Outra motivação é que morei na CEU por três anos e meio, durante a graduação. Sempre foi um lugar muito caro para mim. Parte do que eu sou hoje se deve a esse lugar ter me recebido e acolhido para eu poder estudar. A Denise Copetti, também produtora da obra, já foi moradora da CEU. Sempre quisemos fazer algo sobre a moradia. Então, unimos histórias.
VD: A obra foi contemplada pela Lei Paulo Gustavo da Secretaria de Cultura de Santa Maria. O que isso significa para a equipe?
Neli Mombelli: Esse tipo de edital público é o que nos permite melhorar a cada produção. Só conseguimos ir melhorando a nível técnico, profissional e criativo se trabalharmos. Uma prova disso é que a TV Ovo trouxe o Kikito [principal prêmio do Festival de Cinema de Gramado] para Santa Maria neste ano. Isso só é possível graças aos vários editais públicos que financiam as nossas ideias. Isso nos permite criar, experimentar e fazer algo a cada ano.
VD: Especificamente sobre saúde mental, qual mensagem o documentário pretende passar?
Neli Mombelli: Existe o que eu penso, o que eu gostaria de passar. E existe o que cada pessoa entende, como o filme “bate” em cada um. Hoje em dia, quando falamos em uma juventude adoecida e, principalmente, quando falamos de casas do estudante, esse tema é muito presente, muito caro. Temos como exemplo a FURG que paralisou atividades devido aos casos de suicídio. Não falamos em números, mas na importância de abordar o assunto. Então, nossa obra traz à tona a arte de propôr reflexões sobre uma geração de estudantes adoecidos, especialmente aqueles que moram nessas casas de estudante. De certa forma, acho que o filme traz um paralelo entre quem morou na CEU em outras épocas, como no final da década de 1980, e quem mora agora. Talvez se possa levantar debates sobre a vivência coletiva e individual nessas moradias também. Enfim, o filme não traz respostas, mas fomenta debates.
VD: Como foi tua experiência de morar na CEU há 20 anos?
Neli Mombelli: Quando cheguei aqui foi muito difícil. Vim morar aqui e chorei por três meses. Até conseguir o BSE, poder comer no RU, era difícil. Naquela época tínhamos um sentimento muito forte de união, de coletividade, estava todo mundo no mesmo barco. Éramos em mais de 80 na União e a incerteza era presente.
VD: Com a produção do documentário, consegues apontar alguma mudança entre a época em que moraste na CEU e os dias atuais?
Neli Mombelli: Talvez eu tenha, hoje, até um olhar nostálgico sobre o que aconteceu vinte anos atrás. Se passaram vinte anos, é claro que as coisas se transformam. Mas, hoje em dia, só quem mora aqui é que sabe, quem mora aqui é que pode fazer um debate sobre dificuldades e mudanças. Eu tenho a opinião das pessoas que estão no filme, que moram na UFSM.
VD: Com base nessa vivência, o que significa lar para ti hoje?
Neli Mombelli: Pensar no que significa lar para mim me emociona. Meu período de permanência na CEU foi marcado por fortes fricções sociais. A Eduarda fala sobre isso no filme, sobre ter um anseio de ter um cantinho só nosso. Lembro de morar na CEU e ter como sonho, por exemplo, ter uma casa só minha e pendurar um quadro onde eu quisesse, uma coisa um pouco boba, mas muito simbólica.




