Psicóloga estima que pelo menos metade dos atendimentos do Consultório Itinerante da Prefeitura de Santa Maria envolve demandas relacionadas à saúde mental

Consultório na Rua durante ação na praça Saldanha Marinho | Foto: Luiza Ventura.

Quarta-feira, 22 de julho, pouco antes das 8h da manhã. Enquanto o Centro de Santa Maria desperta para mais um dia de trabalho, uma ambulância da Secretaria Municipal de Saúde atravessa a Praça Saldanha Marinho e estaciona em frente ao Banrisul. Em poucos minutos, mesas, cadeiras, testes rápidos e materiais de atendimento transformam a calçada em um consultório a céu aberto. 

Ali, enfermeira, médica, psicóloga, assistente social e técnica de enfermagem recebem pessoas em situação de rua para oferecer cuidados que normalmente aconteceriam em uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Entre consultas, curativos, exames e encaminhamentos, aparecem também histórias de luto, dependência de substâncias, rompimento de vínculos e sofrimento psíquico.

É para esse público que o Consultório na Rua leva o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) desde dezembro de 2025. Segundo a psicóloga do serviço, Alice Dias Pasche, pelo menos metade dos usuários atendidos pela equipe apresenta alguma demanda relacionada à saúde mental.

Entre os primeiros a procurar atendimento naquela manhã estava Adriano (nome fictício), de 55 anos. Ele vive em situação de rua há cerca de oito anos e foi por meio do Consultório na Rua que descobriu um problema cardíaco que, até então, desconhecia. A pedido dele, a reportagem preservou sua identidade, mas acompanhou seu atendimento e conversou com ele sobre a experiência com o serviço de saúde.

Encaminhado pela equipe para realizar um eletrocardiograma e outros exames, Adriano recebeu o diagnóstico e passou a fazer uso diário de medicamentos. A descoberta, segundo ele, só foi possível porque a equipe chegou até onde estava. “Eu não sabia que tinha um problema no coração. Fiquei sabendo por elas, que me encaminharam para fazer um eletro. Depois, tive que fazer mais um punhado de exames e, graças a Deus, deu tudo certo. Graças a esse Consultório na Rua, hoje a única coisa que tenho que fazer é tomar meu remédio todos os dias, pelo resto da vida”, relata.

Adriano também comenta sobre a relação de confiança construída com a equipe, especialmente com a psicóloga Alice Pasche. Ao falar sobre o acompanhamento, ele aponta para a profissional e demonstra o vínculo criado ao longo dos atendimentos: “Essa aqui é minha psicóloga. Eu chamo ela de ‘Cachinhos Dourados’. Ela é meu apoio. Depois que colocaram esse consultório para nós, que somos moradores de rua, não tem coisa melhor”, destaca. 

Assim como ele, homens e mulheres em situação de rua encontram no consultório itinerante uma porta de entrada para o cuidado em saúde. Em junho de 2026, Santa Maria tinha 548 pessoas em situação de rua cadastradas no Cadastro Único (CadÚnico), segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social. O número não representa necessariamente a quantidade de pessoas que permanecem diariamente nas ruas, já que essa população é dinâmica e pode se deslocar entre municípios. 

Segundo a Prefeitura Municipal de Santa Maria, entre 1º de dezembro de 2025 – quando o serviço iniciou as atividades, e 22 de abril de 2026, foram realizadas 1.532 consultas por especialidade, além de 1.331 procedimentos ambulatoriais. De acordo com o relatório da Secretaria de Saúde, entre as consultas, 594 foram de psicologia, 480 de assistência social e 431 de clínica geral, além de atendimentos de enfermagem. Homens representam cerca de 80% dos usuários atendidos pelo serviço. 

A equipe oferece ainda vacinação, testes rápidos, curativos e encaminhamentos para a Rede Municipal de Saúde e outros serviços públicos, além de acolhimento e acompanhamento contínuo dos usuários. Os atendimentos ocorrem em diferentes pontos da cidade, conforme o dia da semana. O cronograma é atualizado mensalmente e pode ser consultado  no site da Prefeitura Municipal de Santa Maria.  

Confira a agenda da segunda quinzena do mês de agosto:

Data Dia Local de atendimento Horário
17/08 Segunda-feira Projeto Água Vida e Cidadania (Av. Rio Branco, 880, Centro) 13h às 19h
18/08 Terça-feira Café da Locação (Venâncio Aires, 806, Centro) 8h às 10h
20/08 Quinta-feira Avenida Rio Branco (em frente ao Carrefour) 8h às 14h
21/08 Sexta-feira Projeto Água Vida e Cidadania (Av. Rio Branco, 880, Centro) 13h às 19h
24/08 Segunda-feira Projeto Água Vida e Cidadania (Av. Rio Branco, 880, Centro) 13h às 19h
25/08 Terça-feira Café da Locação (Venâncio Aires, 806, Centro) 8h às 10h
26/08 Quarta-feira Avenida Rio Branco (em frente ao Carrefour) 8h às 14h
27/08 Quinta-feira Itinerante 8h às 14h
28/08 Sexta-feira Projeto Água Vida e Cidadania (Av. Rio Branco, 880, Centro) 8h às 12h
31/08 Segunda-feira Projeto Água Vida e Cidadania (Av. Rio Branco, 880, Centro) 13h às 19h

Agenda: horários e locais de atendimento do Consultório na Rua na segunda quinzena do mês de agosto.

Durante as abordagens, os profissionais procuram identificar as necessidades de cada usuário por meio da escuta e da construção de vínculos. Entre as demandas relacionadas à saúde mental estão situações de luto, uso e dependência de substâncias, comportamento suicida e diferentes transtornos. Essas questões, porém, muitas vezes estão associadas a outros fatores que atravessam a vida da população em situação de rua, como o desemprego, a falta de moradia e a ausência de uma rede de apoio.

Para a psicóloga Alice Pasche, as demandas de saúde mental não se restringem aos transtornos psiquiátricos e precisam ser compreendidas a partir de um contexto mais amplo, que considere as condições sociais e as experiências vivenciadas pelas pessoas em situação de rua. “Não entendo saúde mental como algo relacionado só ao transtorno. Muitos que chegam não têm um transtorno, mas vivem os reflexos da situação em que estão”, afirma. 

Segundo a enfermeira Nathália Bordin Mendes, no início, um dos desafios enfrentados pela equipe foi lidar com a percepção de parte da população de que o atendimento oferecido às pessoas em situação de rua seria um privilégio. Segundo ela, algumas pessoas questionavam por que aquele público recebia um serviço específico, em vez de buscar o atendimento convencional, diretamente nos postos de saúde. A reação, explica a enfermeira, revela o estigma de que pessoas em situação de rua teriam menos direito à saúde ou, ao contrário, estariam recebendo benefícios que não seriam oferecidos aos demais cidadãos. “Algumas pessoas achavam que, por viverem na rua, essas pessoas não tinham os mesmos direitos que as demais e que, quando surgiam iniciativas como essa (Consultório na Rua), elas estavam sendo privilegiadas”, relata. 

A enfermeira Nathália Bordin (à esquerda), a técnica em enfermagem Maria do Carmo Quagliato (no meio) e psicóloga Alice Pasche (à direita) analisando os relatórios dos últimos atendimentos | Foto: Luiza Ventura.

Uma rede de cuidados para recomeçar 

Outro usuário atendido pelo Consultório na Rua é Antônio Marion Almeida Ribeiro, de 55 anos. Foi em dezembro de 2025, quando o serviço iniciou as atividades em Santa Maria, que ele conheceu a equipe. Na época, ainda vivia em situação de rua e enfrentava as consequências de uma trajetória marcada pela perda de vínculos familiares e pela dependência de crack.

O primeiro contato com a equipe aconteceu depois de um acidente. Antônio havia machucado gravemente os dedos, mas não procurou atendimento por conta própria. “Eu era usuário, morava na rua e não estava usando mais droga. Aí vim para cá (Projeto Água, Vida e Cidadania) e fui bem acolhido por eles. Depois, no dia 25 de dezembro, tive um acidente e quase perdi os dedos. Eu não procurei ajuda, mas as gurias do consultório  me viram e me ajudaram”, recorda.

A partir dali, o acompanhamento do Consultório na Rua passou a integrar a rede de apoio que, segundo Antônio, o ajudou a reconstruir a própria vida. Há um ano e onze meses sem usar drogas, ele conta que o acolhimento dos profissionais foi importante para buscar novas perspectivas.

Essa rede, no entanto, não se limita aos serviços públicos de saúde. Enquanto vivia em situação de rua, Antônio também encontrou acolhimento no Projeto Água, Vida e Cidadania, uma iniciativa da Igreja Anglicana de Santa Maria. No local, teve acesso a banho, roupas e outros cuidados básicos, além de encontrar um espaço de convivência e apoio. A relação se fortaleceu ao longo do tempo e, hoje, Antônio atua como trabalhador voluntário no projeto três vezes por semana.

Antônio enquanto realiza trabalho voluntário no Projeto Água, Vida e Cidadania | Foto: Luiza Ventura.

Com o apoio da rede que construiu ao longo desse período, Antônio conseguiu alugar um lugar para morar e passou a buscar maior autonomia. Hoje, além de manter o trabalho voluntário, também faz cursos e tenta incentivar outras pessoas que ainda vivem em situação de rua a buscar novas possibilidades.

“Eu tenho tudo a agradecer a esse projeto. Estou tentando fazer com que meus irmãos de rua, que estão morrendo na rua, tenham alguém em quem se espelhar. Eu estou correndo atrás, lutando todos os dias. Tenho a minha fé, tenho a psicóloga e tenho a assistente social, que me ajudam. Então eu agradeço a eles”, diz emocionado.

Para Antônio, a recuperação é construída um dia de cada vez. Ele reconhece que o processo não é linear, mas afirma que conta com a equipe quando percebe que precisa de ajuda. “Eu posso recair, mas acredito que não vou recair mais. Quando estou pensando em coisa ruim, sei que tenho que ir até eles, porque sei que aquela pessoa vai me ajudar”, reflete.

Hoje, ele também divide a rotina com duas cachorras que, segundo conta, o “adotaram” quando ainda vivia em espaços públicos, sem um lar. “É um dia de cada vez. Eu estou começando a criar asas”, ressalta.

As asas, no caso dele, não significam esquecer o que ficou para trás, mas encontrar apoio para seguir adiante. Depois de anos vivendo em situação de rua, Antônio hoje tem uma casa, um trabalho voluntário e uma rede à qual recorre quando precisa de ajuda. Para a equipe do Consultório na Rua, histórias como a de Antônio mostram que cuidar também é estar presente, construir confiança e oferecer, a cada encontro, a possibilidade de um próximo passo. 

Antônio Marion Almeida Ribeiro em frente ao Projeto Água, Vida e Cidadania | Foto: Luiza Ventura.

Consultório na Rua

Equipes multiprofissionais itinerantes realizam atendimentos nos territórios onde essa população está e articulam o cuidado com outros serviços da rede de saúde e assistência social.

O serviço iniciou as atividades em dezembro de 2025 e conta com unidade móvel para realizar atendimentos em diferentes pontos do município.

Consultas médicas e de enfermagem, atendimento psicológico e social, vacinação, testes rápidos, curativos, encaminhamentos e acompanhamento dos usuários.

Os locais e horários são definidos em cronograma atualizado mensalmente pela Prefeitura.

 

Reportagem: Luiza Ventura e Renan Silveira
Revisão: Mariangela Recchia