A ação buscou debater os desafios emocionais e as estratégias de cuidado na rotina de trabalho.
A saúde mental dos agentes comunitários de saúde (ACS) foi o tema central da capacitação “Diálogos em saúde: estratégias para o cuidado”, realizada nesta sexta-feira (19/06), de forma online. O encontro foi promovido pelo Projeto VerdadeiraMente, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em parceria com o Instituto Federal Farroupilha (IFFar), por meio do Curso de Capacitação em Estratégias de Proteção, Prevenção e Manutenção da Saúde para Profissionais da Saúde.

Participantes reunidos na capacitação online.
A atividade reuniu 32 participantes e teve como objetivo promover um espaço de reflexão, troca de experiências e construção de estratégias voltadas ao bem-estar dos profissionais que atuam na linha de frente das comunidades, a atividade foi conduzida por três integrantes do Laboratório de Avaliação Clínica Cognitiva (LACOOG) da UFSM, grupo de pesquisa coordenado pela Profª. Drª. Clarissa Toschetto: o psicólogo Clóvis Gomes Panta, a estudante de Psicologia da UFSM, Alana Goettems, e o professor e acadêmico de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), Pablo Knierin.
Realizada em formato de roda de conversa, os participantes compartilharam situações vivenciadas na rotina de trabalho, como o acúmulo de responsabilidades, conflitos interpessoais, dificuldades no relacionamento com usuários e a sobrecarga emocional decorrente do contato constante com situações de sofrimento.
Segundo o psicólogo Pablo Knierin, é fundamental que os profissionais da saúde reconheçam a importância de cuidar de si mesmos para que possam continuar exercendo sua função de forma saudável. “O cuidador, para ele poder cuidar do próximo, também precisa cuidar de si mesmo”, ressaltou.
A partir dos relatos dos participantes, a discussão também abordou a necessidade de estabelecer limites no exercício profissional, especialmente em municípios menores, onde os vínculos entre trabalhadores da saúde e usuários costumam ultrapassar o ambiente de trabalho. Também foram debatidas situações como abordagens fora do horário de expediente, mensagens recebidas em finais de semana e a dificuldade de desconectar-se das demandas profissionais.
“Por morar em uma cidade pequena, era comum ser abordada por pacientes no mercado ou em outros momentos fora do expediente, perguntando, por exemplo, se a médica estaria no posto na segunda-feira. Hoje eu consigo responder: ‘não sei te dizer isso agora, só vou saber quando chegar ao posto’. Antes, porém, eu me sentia culpada por não ter uma resposta imediata, mesmo estando fora do meu horário de trabalho”, relatou uma das agentes comunitárias de saúde.
Durante a conversa, os facilitadores destacaram que reconhecer limites não significa deixar de acolher a população. Segundo a estudante de Psicologia Alana Goettems, mesmo com boas intenções e uma postura profissional adequada, a mensagem nem sempre é recebida da forma esperada. “Nesses momentos, é importante compreender o que está ao alcance de vocês e o que depende de outras pessoas ou serviços. Nem tudo é responsabilidade de vocês”, ressaltou.
A palestrante também destacou a importância de os profissionais acolherem os próprios sentimentos diante das dificuldades da rotina. “Por mais que os pacientes estejam em sofrimento, sejam humanos, vocês também são. Vocês também têm o direito de reclamar, vocês também têm o direito de não gostar, de se irritar”, afirmou.
Como caminhos para o autocuidado, foram apontadas estratégias como compartilhar dificuldades com colegas, buscar apoio junto às equipes e coordenações, desenvolver atividades de lazer, cultivar relações sociais fora do ambiente de trabalho e procurar acompanhamento psicológico quando necessário.
Ao abordar estratégias de autocuidado, o psicólogo Clóvis Panta enfatizou a necessidade de reservar espaço para atividades além do trabalho. Segundo ele, estabelecer limites com pacientes, colegas e consigo mesmo é essencial para evitar a sobrecarga emocional. “Aprender a dizer não também faz parte do cuidado”, destacou.
Ao final do encontro, os participantes destacaram a relevância de espaços voltados à escuta e à troca de experiências, capazes de fortalecer não apenas a saúde mental dos trabalhadores, mas também a qualidade do cuidado oferecido à população.




