Psiquiatra Vitor Crestani Calegaro explica por que a solidão pode ser uma das consequências mais profundas do trauma e mostra caminhos para recuperar vínculos, buscar tratamento e reconstruir a vida.

Foto: Sasha Freemind/ Unsplash
Nem toda solidão significa falta de companhia. Depois de um trauma, muitas pessoas continuam cercadas por familiares e amigos, mas passam a sentir que ninguém consegue compreendê-las. Aos poucos, deixam de confiar, afastam-se das relações e acreditam que precisam enfrentar o sofrimento sozinhas. Essa sensação de desconexão, mesmo quando há pessoas por perto, pode fazer parte do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Mais do que uma consequência do trauma, a solidão também pode prolongar o sofrimento e dificultar a recuperação.
Mas afinal, o que é um trauma? Mais do que um acontecimento difícil, o trauma é o impacto que essa experiência deixa na forma como a pessoa enxerga a si mesma, os outros e o mundo. Quando a sensação de segurança e confiança é profundamente abalada, podem surgir medo constante, culpa, vergonha, desconfiança e dificuldade para criar ou manter vínculos.
Essa é a principal reflexão do capítulo “Solidão e TEPT”, que integra o livro Solidão: impactos na saúde e intervenções clínicas – uma obra de 424 páginas, publicada pela Editora Manole, especializada em publicações nas áreas da saúde, educação e ciências do comportamento. Organizado em cinco grandes seções, o livro reúne pesquisadores de diferentes instituições brasileiras para explicar por que algumas pessoas são mais vulneráveis à solidão, quais são os impactos desse fenômeno na saúde física e mental e o que a ciência já sabe sobre prevenção, tratamento e fortalecimento dos vínculos humanos.
“Solidão e TEPT” foi escrito pelos pesquisadores Luis Francisco Ramos-Lima, doutor em Psiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Vitor Crestani Calegaro, médico psiquiatra do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM-UFSM), professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS) e consultor científico do Portal VerdadeiraMente; e Fabiana Casarolli, estudante de Psicologia da Faculdade Mário Quintana (FAMAQUI) e bacharela em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Para transformar as evidências científicas em orientações práticas para pacientes, familiares e profissionais de saúde, o VerdadeiraMente conversou com um dos autores do capítulo. Nesta entrevista, o psiquiatra Vitor Crestani Calegaro explica por que o trauma pode levar à solidão, quais sinais merecem atenção, como a família pode ajudar sem aumentar o sofrimento, onde buscar tratamento e quais atitudes favorecem a reconstrução dos vínculos e da confiança.
Compreender o trauma é importante. Mas descobrir que existem caminhos para enfrentá-lo pode ser o primeiro passo para que ninguém precise atravessar esse sofrimento sozinho.
Texto: Mariângela Recchia




