Ao final de cada resposta, o VerdadeiraMente apresenta um breve resumo em linguagem simples para destacar a principal mensagem da ciência e facilitar sua aplicação no dia a dia. 

Psiquiatra consultor do Verdadeiramente explica que existe diferença entre estar só e sentir solidão.

Foto: Arquivo pessoal – Psiquiatra consultor do Verdadeiramente explica que existe diferença entre estar só e sentir solidão.

VD: Por que uma pessoa traumatizada pode se sentir sozinha mesmo estando cercada de familiares e amigos?

O trauma confronta nossa sensação de segurança e de confiança nas outras pessoas. Quando evolui para um transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), essas percepções podem ficar distorcidas. A pessoa pode passar a ter uma desconfiança das pessoas que ela ama. Não uma desconfiança no sentido paranoico. Mas ela passa a acreditar que ninguém a compreende, que o outro não vai ajudar, que não a faz se sentir segura. 

Isso provoca uma baixa autoestima e uma baixa autoconfiança. E pode evoluir no sentido de a pessoa pensar que não é boa para os outros. Vai fazendo ela se isolar também, porque pensa que não é merecedora do amor dos outros e acaba se retirando dos relacionamentos. É difícil a pessoa sentir coisas boas. Não é que elas não existam, mas há um amortecimento nessas emoções. Culpa, vergonha, desconfiança e embotamento afetivo acabam afastando a pessoa dos relacionamentos, mesmo quando existe uma rede de apoio.

Não é a presença física que muda o sentimento de solidão. É algo interno. Por isso, a solidão associada ao trauma é muito mais profunda do que simplesmente estar isolado. Ela envolve mudanças na forma de pensar, de sentir e de se relacionar. Não é a presença física de familiares, amigos ou colegas que, por si só, rompe essa sensação. A solidão nasce da interação entre as marcas deixadas pelo trauma, as experiências de vida e a qualidade dos vínculos atuais. Ter pessoas por perto é importante, mas faz diferença quando elas acolhem, compreendem e oferecem um ambiente seguro para que o sofrimento possa ser compartilhado.

 

VD: Como perceber que essa solidão pode estar relacionada a uma experiência traumática?

Quando existe um trauma conhecido, mudanças importantes de comportamento costumam ser um sinal de alerta: isolamento, piora no desempenho no trabalho ou nos estudos, dificuldades de concentração, falhas de memória e afastamento das pessoas. 

No entanto, existem traumas que são mais difíceis de identificar. São os chamados traumas complexos, que acontecem de forma prolongada, como situações de abuso emocional, negligência ou violência doméstica. Quem vive esse tipo de experiência está tão imerso nela que tem dificuldade de perceber que está sendo traumatizado. Mais importante do que identificar sozinho a origem do sofrimento é reconhecer quando a solidão provoca sofrimento persistente. Existe diferença entre estar só e sentir solidão. Quando esse sentimento é intenso, prolongado e interfere na vida, independentemente da causa, é hora de procurar ajuda profissional.

Cabe ao profissional investigar a história da pessoa, compreender o conjunto de fatores envolvidos e identificar se o trauma está relacionado a esse sofrimento. Essa investigação é que orientará o tratamento mais adequado.

Quando a história traumática ainda não foi revelada, o mais importante não é descobrir imediatamente o que aconteceu. O mais importante é reconhecer que essa pessoa não está bem e que ela precisa de ajuda. O acolhimento começa quando alguém percebe o sofrimento e oferece um espaço seguro para conversar, sem pressionar ou fazer interrogatórios.

Em poucas palavras:Antes de buscar respostas, procure reconhecer o sofrimento e mostrar que a pessoa não precisa enfrentá-lo sozinha.

 

VD: Qual é o papel da família, dos amigos e da rede de apoio nessa recuperação?

O papel da família, dos amigos e da rede de apoio é fundamental. Sabemos que o suporte social é um dos principais fatores de proteção e de fortalecimento da resiliência. É preciso haver pessoas presentes, dispostas a caminhar junto.

O maior apoio não é dizer “vai passar”. É dizer ” Você não precisa enfrentar isso sozinho. Nós vamos passar por isso com você”. Quando familiares e amigos validam o sofrimento, escutam sem minimizar a experiência e demonstram disponibilidade para caminhar junto, fortalecem a sensação de segurança e favorecem a recuperação. Já frases que negam ou diminuem a dor costumam produzir o efeito contrário. 

O sofrimento precisa ser reconhecido como algo real e legítimo. É semelhante ao que acontece quando alguém diz a uma pessoa com depressão que ela “precisa reagir”. Em vez de ajudar, esse tipo de comentário costuma aumentar a sensação de isolamento.

Em poucas palavras: A melhor rede de apoio não tenta apagar a dor; ela ajuda a pessoa a não carregar esse sentimento sozinha.

 

VD: Como um profissional de saúde deve acolher uma pessoa traumatizada para que ela não se sinta ainda mais isolada?

O primeiro passo é ouvir sem julgar e criar um espaço seguro para que a pessoa possa falar sobre o que viveu, no seu próprio tempo. Nem sempre quem sofreu um trauma consegue contar imediatamente. Há coisas que são comunicadas no silêncio através da expressão facial e corporal.  E esse silêncio precisa ser respeitado. O profissional deve criar um ambiente seguro, acolhedor e livre de julgamentos, sem pressionar o paciente a falar antes de estar preparado. Às vezes, a presença atenta vale mais do que muitas palavras. Quando a pessoa se sente compreendida, aumenta a confiança necessária para iniciar a recuperação.

A comunicação silenciosa não pode ser ignorada, ela precisa ser considerada. Só o fato de estar junto e tolerar esse silêncio, isso é uma comunicação de suporte, de que estamos juntos, sentindo essa mesma coisa que é triste e dolorosa.

Em poucas palavras: Acolher também significa saber esperar. Estar presente, respeitar o silêncio e demonstrar que a pessoa não precisa enfrentar aquele sofrimento sozinha são formas muito importantes de acolhimento.

 

VD: Como pessoas que não são da área da saúde podem perceber que alguém está sofrendo as consequências de um trauma?

Nem sempre é possível saber que houve um trauma. Muitas pessoas escondem essa experiência durante anos e têm dificuldade até de contar ao próprio profissional de saúde. Por isso, mais importante do que descobrir o que aconteceu é perceber quando alguém deixa claro, pelo comportamento, que não está bem.

Mudanças importantes na rotina merecem atenção. A pessoa pode começar a se isolar, apresentar piora no desempenho no trabalho ou na escola, dificuldade de concentração, falhas de memória ou perder o interesse pelas atividades e pelos relacionamentos. Esses sinais indicam que ela pode estar precisando de ajuda.

Nesses momentos, o melhor caminho não é fazer um interrogatório. O mais importante é abrir espaço para o diálogo. Vale dizer, por exemplo: “Percebi que você não está bem. Tenho notado que você está mais distante, com dificuldades para trabalhar ou estudar. Quero que saiba que estou aqui para ajudar e, quando você quiser conversar, eu vou te ouvir.”

Em poucas palavras: Não tente descobrir o trauma. Tente perceber o sofrimento.

 

VD: Muitas pessoas sabem que precisam de ajuda, mas não sabem por onde começar. Como buscar tratamento? Faz sentido perguntar ao psicólogo ou psiquiatra qual abordagem terapêutica utiliza?

O ideal é procurar um psicólogo ou um psiquiatra. Quando esse atendimento não está disponível imediatamente, vale conversar com um médico da Atenção Primária ou com um enfermeiro, que poderão orientar os próximos passos. Esses profissionais também têm formação para acolher, orientar e encaminhar o paciente para o tratamento mais adequado. O mais importante é não adiar a busca por ajuda.

Em relação às diferentes abordagens terapêuticas, esse não deve ser um motivo de preocupação para quem está buscando ajuda pela primeira vez. Independentemente da linha teórica ou da especialidade, psicólogos e psiquiatras são preparados para conduzir esse tipo de situação e indicar o tratamento mais adequado para cada caso.

Em poucas palavras: O mais importante é começar. A porta de entrada para o cuidado pode ser qualquer profissional de saúde preparado para acolher.

 

VD: O capítulo fala muito sobre resiliência. O que significa ser resiliente depois de um trauma?

Ser resiliente não significa ser forte o tempo todo nem ignorar a dor. Significa conseguir recuperar a capacidade de viver, mesmo depois de uma experiência extremamente difícil. 

Existem diferentes graus de resiliência, e ela vai sendo construída ao longo da vida, influenciada por fatores genéticos, ambientais e pelas experiências de cuidado e relacionamento. A boa notícia é que a maior parte das pessoas é resiliente. A resiliência faz parte do próprio instinto de vida e de sobrevivência. 

Depois de um trauma, é natural que a pessoa questione quem ela é, como vê o mundo e como percebe as outras pessoas. A resiliência ajuda justamente a reconstruir essas referências de forma realista: compreender qual foi seu papel nos acontecimentos, evitar culpas excessivas, desenvolver autocompaixão e reconhecer que, apesar das falhas humanas, existem pessoas em quem é possível confiar. 

Pessoas resilientes tendem a investir nos relacionamentos, buscar ajuda e perceber o apoio disponível. Não basta ter pessoas por perto; é preciso conseguir reconhecer esse suporte e permitir-se recebê-lo. Essa percepção reduz a sensação de solidão, porque a pessoa passa a sentir que não está sozinha. 

Relações saudáveis, propósito de vida, valores pessoais e uma rede de apoio acolhedora fortalecem esse processo.

Em poucas palavras: Resiliência não elimina o sofrimento; ela ajuda a transformar a experiência traumática em um caminho possível de reconstrução.

 

VD: O que o próprio paciente pode fazer para romper o ciclo entre trauma, isolamento e solidão, além de buscar ajuda profissional?

A recuperação também passa por pequenas atitudes do dia a dia. Retomar uma rotina, praticar atividade física, passar um tempo ao ar livre, participar de atividades em grupo, estabelecer pequenas metas e fortalecer relacionamentos saudáveis ajudam a romper o isolamento e reconstruir o interesse pela vida. Os animais de estimação podem ajudar alguns indivíduos nesse processo. Cuidar de um pet significa assumir uma responsabilidade concreta: alimentar, passear, levar ao veterinário e criar uma rotina de cuidados. Além do vínculo afetivo, isso favorece o compromisso com algo que está fora do próprio sofrimento e engajamento em atividades com outras pessoas..

 Outra estratégia importante é procurar valorizar os aspectos positivos das experiências do cotidiano. Todos nós vivemos situações boas e ruins, mas direcionar a atenção apenas para o que deu errado alimenta o sofrimento. Aprender a reconhecer também aquilo que funcionou ajuda na recuperação.

Em poucas palavras: A reconstrução acontece um passo de cada vez. O tratamento é fundamental, mas os pequenos movimentos cotidianos também fortalecem a recuperação.

 

Arte: João Vitor / Bolsista VerdadeiraMente

 

Quando buscar ajuda?

Se você se identificou com esta entrevista, procure ajuda ao perceber que, após uma situação traumática:

  • evita falar sobre o que aconteceu;
  • sente culpa intensa;
  • perdeu o interesse pelas pessoas;
  • acredita que ninguém pode compreendê-lo;
  • deixou de sentir prazer nas relações;
  • passou a se isolar.
  • Psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da saúde podem ajudar no diagnóstico e tratamento.

Onde buscar ajuda? 

  • Unidade Básica de Saúde (UBS): pode ser a porta de entrada para avaliação e encaminhamento. 
  • Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): oferecem atendimento especializado pelo SUS para pessoas com sofrimento psíquico. 
  • Psicólogos e psiquiatras: atuam no diagnóstico, tratamento e acompanhamento. 
  • Hospitais e serviços de urgência: quando houver risco à própria vida ou uma crise intensa.


Trauma não é apenas lembrar do que aconteceu

O trauma também pode provocar:

  • sensação de solidão mesmo acompanhado; 
  • perda da confiança nas pessoas; 
  • culpa excessiva; 
  • baixa autoestima; 
  • dificuldade para sentir alegria e afeto; 
  • isolamento social; 
  • alterações de sono e concentração.

Texto: Mariângela Recchia
Foto de capa: Ana Carolina Zago